Publicado 23/08/2020 - 08h43 - Atualizado 25/08/2020 - 19h10

Por Kátia Camargo

A pandemia gerou impacto nos idosos

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A pandemia gerou impacto nos idosos

Uma pesquisa em andamento na Universidade Federal Fluminense (UFF) está usando a história oral para saber sobre os impactos da pandemia no público que já passou dos 60 anos. Vale destacar que pelo menos 70% das pessoas que estão morrendo pela Covid-19 tem mais que 70 anos. O projeto ocorre no Brasil e no Exterior e conta também com pesquisadores da Unicamp. Foi batizado de História Oral na Pandemia e tem a coordenação da professora do Departamento de História Juniele Rabêlo de Almeida, da UFF.
“Os idosos com vida social ativa produzem relatos autobiográficos sobre esse momento. A iniciativa integra o Projeto Interinstitucional “A COVID-19 no Brasil”, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações”, conta Lívia Lima, uma das pesquisadoras envolvidas nesse projeto que também é doutora em educação, mestre em gerontologia e professora do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (Unisal).
O acervo, que está escutando idosos de todo o Brasil, é composto por narrativas gravadas e transcritas e visa mostrar como essas pessoas estão lidando com esses tempos tão desafiadores. “Nosso trabalho de história oral visa dar nome, preservar a memória e os afetos dessas pessoas. A pesquisa quer entender o impacto do isolamento social para os idosos, a socialização e qualidade de vida deles na pandemia”, conta Lívia.
Quem tiver interesse em mandar seu relato pode enviar as gravações para o e-mail historiaoralnapandemia@gmail.com. “É preciso mandar a gravação, o nome completo do entrevistado, a data da gravação, a cidade, o país, o ano e local de nascimento”, diz.
Enquanto esse estudo não é finalizado, a revista Metrópole foi atrás de algumas histórias de como as pessoas acima dos 60 anos estão fazendo para driblar os desafios e dificuldades que a pandemia impõe. Descobrimos um projeto muito bacana que o Sesc Campinas tem feito para diminuir a distância física das pessoas.
Tão longe, tão perto
Desde que a pandemia começou o Sesc Campinas também buscou formas de continuar próximo, mesmo distante fisicamente. A técnica de programação do Trabalho Social com Idosos (TSI) Valquíria Pinheiros conta que primeiramente criaram uma rede pelo WhatsApp para saber como os idosos estavam se sentindo, tanto fisicamente quanto psicologicamente. “Como alguns não têm familiaridade com a tecnologia, pensamos em algumas ações para esse público que não está conectado. Foi então que iniciamos o contato por telefone para falar com eles, mostrar nossa preocupação e acolhimento”, relata.
Em seguida, criaram o projeto Tão Longe, Tão Perto por meio do qual convidaram artistas de Campinas para ligar para esse público e fazer intervenções, seja por meio da poesia, da música ou dos sonhos desses indivíduos. “Uma das pessoas que ligamos adora viajar, então um dos artistas ligou e a convidou para fazerem juntos um passeio virtual por Campinas, partindo do Sesc e visitando ruas do Centro, praças, monumentos da cidade. Foi muito bonito! Em outros casos entram música, poesia. Esse projeto deve continuar mesmo pós-pandemia, pois tem muitas pessoas com dificuldade de locomoção”, conta Valquíria.
Mildred Ravizza, 75 anos, frequentadora do Sesc Campinas, conta que se encantou com o telefonema das professoras de teatro do Sesc, oportunidade em que conversaram sobre poesia, música e teatro. Ela ressalta que para ela a quarentena tem sido difícil, mas para encarar bem tem buscado se reinventar diariamente. “Estou fazendo poesia, gosto de cantar e tocar violão e tenho feito isso em casa. Recebi o telefonema do Sesc e contei sobre as poesias que tenho feito. Tenho trabalhado num tipo de diário sobre a pandemia, meus sentimentos, minha realidade”, conta.
 
Inspirando e sendo inspirada
Maria Sueli Gomes Rodrigues, 71 anos, já fez diferente. Ela criou uma conta no Instagram em 2019, o blogdaSu70, por incentivo das amigas, logo após se recuperar de um câncer. Hoje seu endereço está próximo dos 25 mil seguidores e com sua espontaneidade ganha cada dia mais fãs. Ela ganhou fama após aparecer em vários programas de TV e jornais, inclusive no programa da Fátima Bernardes.
Su, como é chamada pela maioria das pessoas, ainda trabalha fora e desde o começo da pandemia se mantém em isolamento físico, mas não social, pois começou a fazer lives e tem tido boas conversas. Ela diz que nesse período procura manter-se bem ativa e confiante de que tudo isso vai passar. Da mesma forma que enfrentou o câncer, enfrenta a pandemia. Ela conta que a sua fé e confiança em dias melhores sempre a deixaram esperançosa. “Depois do câncer eu renasci, revivi mesmo. Sempre digo que viver é o melhor presente que podemos receber de Deus e todos os dias procuro usar bem esse presente”, diz.
No dia a dia ela tem conseguido fazer muitas coisas. “Eu não tenho tempo para relaxar. Faço pilates, alongamento on-line. Coisas do dia a dia como varrer a casa é uma forma de não nos deixar ficar parados”, salienta. Para ela, o que move a gente nesse mundo é a fé e isso a tem sustentado na pandemia. “Temos que agradecer todos os dias por estar vivos e fazer de cada dia da nossa vida nosso maior presente”, diz.
Mantendo o ritmo
Alcyr Soares Dias, 84 anos, afirma que desde que a pandemia começou tentou não mudar o ritmo de vida, mas buscou se adaptar. “Apesar de sair bem pouco de casa, só para o essencial, continuei acordando cedo, preparando o café. Passei a assistir lives de aulas de educação física de um projeto que eu participava presencialmente antes da pandemia chegar na Unicamp. Tenho tentado me manter ativo”, conta.
Outra coisa que busca fazer é ligar para as quatro irmãs que moram no Mato Grosso do Sul e para os amigos. “Eu me preocupo em saber se eles estão bem, estão com saúde. O telefone ajuda a matar um pouco a saudade”, ressalta. Mas ele destaca que sente falta da alegria dos encontros presenciais. “Tenho sentido muita falta dos encontros presenciais. Antes viajávamos bastante para visitar nossa filha que mora em Olímpia, agora não vamos lá desde janeiro. Sinto falta”, diz.
Enquanto não volta para as atividades de antes da pandemia ele tem aproveitado os benefícios da internet para fazer cursos de espanhol e francês. E diz ficar mais em casa nesse momento na torcida para que o Guarani comece a vencer os jogos. “Penso que isso vai animar muita gente que está em casa e é torcedor do Guarani como eu”, diz.
De olho na saúde mental
A saúde mental dos idosos tem sido bastante afetada durante esse período de quarentena, constata a psicóloga da Uroderma Ivanimeire Grossi. “Recebo pacientes que estão mais tristes, deprimidos, com insônia, com medo de adoecerem, sentem medo que seus entes queridos adoeçam, temem a morte pela Covid-19. A procura por esse tipo de atendimento aumentou bastante desde que a pandemia começou”, diz ela.
Para quem convive com idosos, seja família, amigos, vizinhos, Ivameire lista algumas dicas para ajudar no período de isolamento:
· A primeira dica é ajudar a organizar a vida dos idosos para que eles tomem todos os cuidados de proteção necessários;
· Destacar que ficar em casa nesse momento é para proteger ele e o outro, por isso não deve ser visto com tristeza;
· Não focar somente em notícias ruins;
· Parar e escutar os medos, questionamentos e demandas dos idosos, ou seja, dar atenção plena;
· Respeitar a individualidade de cada um;
· Propor momentos de descontração; se estiverem dividindo o mesmo teto, convide-os para um café juntos, a leitura de um livro em voz alta, uma partida de dominó, uma rodada de palavras cruzadas;
· Para quem tem disponível a tecnologia propor chamadas em vídeo pelo WhatsApp para os amigos e familiares;
· Fazer planos para quando tudo isso passar;
· Precisamos olhar para as demandas de cada idoso, os que têm limitações físicas, mas são saudáveis cognitivamente; ou ainda os que precisam de ajuda para tudo funcionar, corpo e mente;
· Caso estejam distantes dos idosos, combine um horário para chamadas de vídeo e adapte essas vivências para a experiência digital.

Escrito por:

Kátia Camargo