Publicado 06/08/2020 - 12h29 - Atualizado 31/08/2020 - 15h13

Por Cláudia Antonelli

Entre as quatro paredes da quarentena

Divulgação

Entre as quatro paredes da quarentena

Três anos atrás publiquei aqui nesta coluna uma crônica com o título, Entre Quatro paredes. O momento era outro e ficava-se entre quatro paredes quem queria, por opção. Quando não é por imposição, a expressão “entre quatro paredes” alude ao lugar íntimo, particular, pessoal e restrito.
Este espaço reservado e exclusivo que exclui todo o restante do mundo. Entre estas quatro paredes, cada um decide o que faz ou deixa de fazer. Entre as quatro paredes de seu quarto em uma pensão de Arles, na França, Van Gogh pintou a série de três quadros que viria a estar entre as mais conhecidas de toda a arte humana e, segundo Van Gogh ele mesmo, “seu melhor trabalho” (O Quarto, 1888).
Entre as quatro paredes da cela de prisão do grande poeta e escritor Oscar Wilde, surgiu De Profundis (1897), escrito em forma de correspondência durante sua longa e sofrida reclusão devido à sua “má conduta social”.
Houve já – e tem havido, em nosso tempo de pandemia – bastante criatividade na reclusão. Mas, além da criatividade, há também morte e suicídio entre quatro paredes, e não só de agora.
Entre as quatro paredes de um quarto de hotel, o escritor e poeta português Mário de Sá-Carneiro matou-se com apenas 26 anos, envenenando-se com uma dose letal de arseniato de estricnina. Deixou uma carta de despedida ao seu amigo, nosso conhecido Fernando Pessoa:
“Meu Querido Amigo: não vale a pena lastimar-me, meu querido Fernando; afinal tenho o que quero - o que tanto sempre quis – e eu, em verdade, já não fazia nada por aqui. Já dera o que tinha a dar.”
Aqui no Brasil, também entre as quatro paredes do próprio quarto no Palácio do Catete, nosso ex-presidente Getúlio Vargas suicidou-se com um tiro de pistola em agosto (como nosso mês agora) de 1954. Igualmente em agosto, porém alguns anos depois, em 1962, a bela Marilyn Monroe era encontrada morta em sua própria cama.
A lista é, em realidade, longa. Mas, deixemos a morte um pouco de lado, voltemos à vida – às quatro paredes com vida. Onde atualmente vivenciamos tantas Lives que têm sido realizadas, possibilitando a vida seguir acontecendo.
Em tempos “normais”, podia-se também fazer verdadeiros piqueniques entre as quatro paredes, sobretudo de um hotel. Quem nunca, antes da pandemia, durante as férias encheu a sacola do supermercado com coisas boas e lá foi, mais do que economizar o custo de uma refeição no restaurante, se entregar aos prazeres de um momento gourmet entre as quatro paredes do quarto de hotel?
Comer em casa, agora – para quem não era -, virou rotina. Mais apreciada por alguns, menos por outros. E havia ainda há pouco as quatro paredes de um escritório de trabalho, onde tarefas e vínculos se faziam, desfaziam e refaziam ao ritmo dos sabores e dissabores humanos.
Como há também as quatro paredes de um consultório de Psicanálise. Onde, num encontro fértil entre analista e paciente, muitas coisas são produzidas. O passado pode ser revisitado, o presente (re)construído, as ilusões desfeitas. As fantasias tocadas; medos, desejos, pensamentos – sonhos – escutados. Verdades enxergadas. Novas perspectivas tecidas, pensadas e construídas. Estas quatro paredes que se encontram, agora, em modo ‘tele’ como tantas outras, à distância: teleanálise ou teleterapia; teleconferência, telerreunião.
Em suma, entre quatro paredes – agora virtuais - pode-se fazer muitas coisas: aprender, compartilhar, orar, comer, trabalhar ou, simplesmente, viver. Porém agora, mais resguardados dos barulhos e ruídos do restante do mundo; para bem ou para mal. Entre quatro paredes, este lugar íntimo, particular, pessoal e restrito - mas também, de infinitas possibilidades. De aproximação ou, em outros casos, afastamento. Sabemos que na China, no primeiro momento pós-pandemia, muitos pedidos de divórcio se realizaram.
Não à toa, traduzido para o Português como Entre Quatro Paredes, a peça teatral em um ato de Jean-Paul Sartre (1944) carregou a conhecida máxima, “O inferno são os outros”.
“Os três personagens morrem e chegam ao inferno. Este, porém, não tem demônios nem fornalhas como na tradição cristã. É apenas um quarto fechado onde os três se veem condenados a conviver uns com os outros. Confinados, sem espelhos, expostos em suas falhas, os três são obrigados a se ver através dos olhos dos outros”.
A cada um de nós, nossa realidade e desafio. Que possamos aprender com nossa experiência. Entre quatro paredes parece-nos revelar isto mesmo: um pedaço - uma amostra - da nossa Vida, ela mesma.
Sabemos que alguns começaram a cozinhar, outros a plantar, outros a exercitar ou ler. Vejamos o que permanecerá com o tempo que, somente ele, dirá.

Escrito por:

Cláudia Antonelli