Publicado 01/08/2020 - 10h26 - Atualizado // - h

Por Maria Teresa Costa

A taxa de transmissão do coronavírus em Campinas caiu na comparação com o mês de maio, porém, é preciso que reduza ainda mais

Matheus Pereira/AAN

A taxa de transmissão do coronavírus em Campinas caiu na comparação com o mês de maio, porém, é preciso que reduza ainda mais

A taxa de contágio do novo coronavírus caiu de 1,8 em maio para 1,0 em julho em Campinas, informou ontem o secretário de Saúde, Carmino de Souza. Essa taxa indica para quantas pessoas em média cada infectado transmite o coronavírus. Isso significa que cada grupo de 100 pessoas contaminadas em maio transmitiu o vírus para 180 e agora transmite para 100. Com taxa acima de 1, a doença se espalha cada vez mais rápido, em vez de recuar. Segundo ele, o ideal é chegar à taxa abaixo de 1.
Com a atualização de novos casos, a epidemia no País, que na semana passada era considerada em crescimento lento, voltou ao patamar de expansão acelerada da doença, o pior nível. A avaliação do Imperial College de Londres calcula que a taxa de transmissão brasileira é de 1,08, ou seja, cada grupo de 100 infectados transmite o vírus para outras 108 pessoas.
Um dos fatores que podem ter levado à redução da transmissibilidade em Campinas foi o isolamento social, segundo o secretário. “Estamos ainda na travessia e acredito que a queda ocorre pela quarentena que impôs o isolamento e o distanciamento. Se as pessoas ficarem separadas, não há como o vírus ser transmitido. O distanciamento tem que ser mantido. Nada de pancadões, festas.”
O epidemiologista André Ribas Freitas, professor da Faculdade São Leopoldo Mandic, diz que a redução da taxa de transmissão é positiva, resultado do uso de máscaras e do isolamento, mas que é preciso adotar medidas mais efetivas de controle da transmissão, como, por exemplo, o isolamento de pessoas que tiveram contato com infectados pelo coronavírus. Hoje, segundo ele, são isolados os contactantes domiciliares.
“É preciso ir atrás das outras pessoas que tiveram contato próximo no trabalho e em outras atividades, e fazer um rastreamento efetivo”, afirmou.
Para ele, a taxa 1 ainda não é o ideal, porque mantém o número de novos casos ao longo do tempo e não consegue reduzir a transmissão. “Sabemos que 40% dos infectados são assintomáticos e também que nos demais, a transmissão começa ocorrer de dois a três dias antes de surgirem os primeiros sintomas. Por isso é importante rastreamento dos contactantes, para colocá-los em quarentena e frear o ciclo de transmissão”, informou.
Para a pesquisadora do Núcleo de Políticas Públicas da Unicamp, Carmem Lavras, é uma queda significativa, embora a cidade esteja estabilizada em número ainda alto. Para ela, o que pode ter influenciado de forma determinante na queda da taxa de contágio seria a ampliação do isolamento social e das práticas de distanciamento.
O prefeito Jonas Donizette (PSB) avaliou que com a reabertura do comércio iniciada na segunda-feira, há o risco de elevação da taxa de contágio e, por isso, afirmou, é preciso que as medidas sanitárias, como uso de máscaras, álcool em gel, sejam mantidas e que quem puder, fique em casa. Ele lembrou que, mesmo nas três semanas em que Campinas em permaneceu na fase mais restritiva do Plano SP, a vermelha, onde apenas serviços essenciais estavam autorizados a funcionar, a taxa de isolamento social não aumentou na cidade.
Para o secretário de Saúde, se a taxa baixar para menos de 1, a situação estará mais tranquila e o resultado será que menos pacientes chegarão ao sistema de saúde e, com isso, a taxa de ocupação hospitalar e o monitoramento de infectados em casa e nos hospitais cairão.

Balanço
Campinas registrou ontem 428 novos casos de contaminação por coronavírus e 10 novas mortes. Com isso, a cidade chega a 18.233 casos confirmados da doença e 711 óbitos no total. Há ainda 772 casos suspeitos, além de outros 28 óbitos, sob investigação pelas autoridades sanitárias. Os dados foram divulgados pelo prefeito Jonas Donizette (PSB), em entrevista coletiva, realizada meio da manhã.
Segundo o boletim, Campinas conta atualmente com 419 pessoas internadas com Covid-19 e 1.232 que são mantidas em isolamento domiciliar. De acordo com o informe, Campinas somava ontem 15.871 pessoas recuperadas da doença. Dos 10 óbitos registrados ontem, três não tinham as chamadas comorbidades — que são as doenças associadas. Uma delas tinha 30 anos. Todos os demais, acima de 60 anos.
Queda de internação traz esperança
Mantida por mais uma semana na fase laranja do Plano SP de retomada das atividades, a região de saúde de Campinas melhorou a taxa de ocupação de leitos de UTI, que caiu de 75,8% na quinta-feira, para 73,3% ontem, aumentando a expectativa de que, na próxima sexta-feira, o governador João Doria (PSDB) reclassifique as 42 cidades da região para a fase amarela, mais flexível. Para avançar, precisará ter taxa inferior a 70%.
O prefeito Jonas Donizette (PSB) disse que a expectativa é de progressão, apesar de a pandemia seguir avançando — a região chegou ontem a 51.208 casos confirmados, alta de 60% em sete dias, e a 1.822 óbitos, aumento de 7,8% em uma semana. Segundo Jonas, a melhoria na taxa de internação mostra que está havendo redução de casos mais graves da Covid-19, embora os números ainda sejam representativos. Na quinta-feira, observou, o Município registrou taxa de ocupação de UTI abaixo de 80% (ficou em 78,99%), marco importante, segundo ele. Ontem, no entanto, a taxa subiu para 81,40%.
O ingresso na fase amarela permitirá a abertura, com regras, de bares, restaurantes, salões de beleza e outras atividades. A secretária estadual de Desenvolvimento Econômico, Patrícia Ellen, observou que a região de Campinas vem tendo melhora expressiva. "A ocupação de leitos reduziu e houve uma queda de internações de 3%. Ela continua com a classificação para a fase laranja, que foi o novo faseamento, mas com uma estabilidade importante nessa nova fase" , afirmou.
Na região, apesar do aumento de novos casos, a media móvel vem se mantendo estável nos últimos dias, com 1.326 registros diários em sete dias, e as mortes, em 35,7.
O Interior do Estado de São Paulo já representa 57,88% dos casos de Covid-19, enquanto a Capital e Grande São Paulo respondem por 42,11%, segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, que divulgou ontem a avaliação dos últimos sete dias da interiorização da pandemia, que agora tem 59% das mortes, enquanto a Grande São Paulo registra 40,3% dos óbitos.
Apesar desse avanço, disse, houve redução da taxa de ocupação de leitos de UTI no Estado, que na sexta-feira da semana passada estava em 66% e caiu ontem para 64%. "Houve melhora em todas as regiões, inclusive aquelas que ainda se encontram na fase vermelha do Plano SP de retomada da cidade", afirmou.
O coordenador executivo do Centro de Contingência do Combate ao Coronavírus em São Paulo, João Gabbardo, disse que o aumento de casos não deve preocupar, porque o número está associado à testagem. "Nós devemos nos preocupar quando está associado aos outros indicadores", afirmou.
O Governador João Doria fez ontem a nona atualização do Plano São Paulo de enfrentamento ao coronavírus e reabertura gradual e faseada da economia. O aumento de casos e internações levou 15 cidades do Vale do Ribeira novamente à fase vermelha, de restrição total de atendimento presencial em comércios e serviços não essenciais. Nas demais regiões, a classificação se manteve em relação à avaliação da semana passada.
Inquérito sorológico inicia nova fase na próxima segunda
A segunda fase do inquérito sorológico da população, para avaliar a progressão da pandemia, começará na segunda-feira, com a testagem de 2 mil pessoas em todas as regiões de Campinas. Na primeira fase, o inquérito apontou uma prevalência de 2,2% de infectados entre os testados e se esse percentual for confirmado, disse o secretário de Saúde, Carmino de Souza, indicará que a cidade tem cerca de 80 mil pessoas que já foram contaminadas pelo coronavírus, 4,4 vezes mais infectadas do que os 18.233 casos confirmados.
Como na primeira fase, cerca de 2 mil casas em Campinas foram sorteadas e serão realizados testes rápidos e aplicado um questionário. Se algum morador da casa sorteada testar positivo, todos os outros são testados. A coleta é feita pelos profissionais dos centros de saúde de referência. Apenas crianças menores de dois anos não poderão ser testadas. “Com o novo levantamento vamos ter um comparativo em relação ao outro inquérito. Vamos conseguir saber se há mais gente imunizada, se a subnotificação continua igual, se teve aumento ou decréscimo”, disse.
Saúde
Cerca de 20 mil profissionais da área de saúde pública e privada começarão a ser testados partir de segunda-feira para a Covid-19, em seus locais de trabalho. Além de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, a testagem incluirá também outras categorias, como pessoal de segurança e limpeza que trabalham na área da saúde. Os testes ocorrerão em parceria com o Instituto Butantan, que enviou os insumos ontem para Campinas.
O exame é feito com uma amostra de sangue e o resultado sai na hora. Os exames são cadastrados em um aplicativo do laboratório Hilab, com emissão do laudo. É um teste imunoenzimático, que detecta os anticorpos IgM e IgG, o que permite saber se a pessoa já foi infectada. Com isso, será possível avaliar o grau de vulnerabilidade desses profissionais. Quem estiver com sintomas da Covid-19 fará o teste PCR, para diagnostico do vírus ativo e serão afastados até que saia o resultado.

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Maria Teresa Costa