Publicado 17/07/2020 - 08h05 - Atualizado 17/07/2020 - 08h05

Por Estadão Conteudo

Milton Ribeiro negou que defenda violência física na educação escolar, como mostrou vídeo de 4 anos atrás

Isac Nóbrega/PR

Milton Ribeiro negou que defenda violência física na educação escolar, como mostrou vídeo de 4 anos atrás

Ao tomar posse ontem, o novo ministro da Educação, Milton Ribeiro, fez gestos pelo diálogo com acadêmicos, pelo Estado laico e em favor do ensino público. Ele citou como focos de sua gestão a educação infantil e o ensino profissionalizante. A cerimôni foi acompanhada pelo presidente Jair Bolsonaro por videoconferência. 
"Tenho formação religiosa. Meu compromisso, que assumo ao tomar posse, está bem firmado e bem localizado em valores constitucionais, da laicidade do Estado e do ensino público. Assim, Deus me ajude", declarou Ribeiro. Ele é advogado, teólogo e pastor presbiteriano.
Entre as características que fizeram com que Ribeiro fosse escolhido, está o "apreço à família e aos valores", dizem integrantes do governo. Ribeiro foi vice-reitor do Mackenzie, mas é desconhecido entre especialistas da educação.
O novo ministro contou que, ao ser convidado para a função, Bolsonaro destacou que queria priorizar a educação infantil e o ensino profissionalizante. "O presidente me disse: 'olhe com carinho para a educação das crianças e ao ensino profissionalizante'. Hoje, publicamente, assumo o compromisso de que seguiremos essa orientação", afirmou. "Desejamos que os jovens tenham uma ponte ao mercado de trabalho".”
Ele afirmou que quer "abrir um grande diálogo para ouvir acadêmicos e educadores". Citou que, assim como ele, os professores estão "entristecidos com o que vem acontecendo com a educação em nosso País". "Haja vista nossos referenciais e colocações no ranking do Pisa", disse, citando a avaliação mundial de educação em que o Brasil está entre os 20 piores colocados.
Ribeiro também disse que nunca defendeu violência física na educação escolar. "Nunca defenderei tal prática, que faz parte de um passado que não queremos de volta." Em vídeo há quatro anos, Ribeiro defendeu que crianças sejam educadas "com dor".
Ontem, afirmou que "a implementação de políticas e filosofias educacionais equivocadas" desconstruiu a autoridade do professor em sala de aula e, por isso, "existem atualmente episódios de violência física de alguns maus alunos contra o professor". "Precisamos resgatar o respeito pelo professor."
Diálogo e coordenação
Entidades ligadas à educação esperam que o novo ministro aprofunde o diálogo para a solução dos problemas. "Esperamos que o ministro nos escute e leve em consideração nossos questionamentos", diz Cecilia Motta, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).
Segundo ela, um eventual retorno às aulas presenciais após mais de quatro meses com as escolas fechadas, exigirá uma série de mudanças nas instituições de ensino. Ela cita desde a necessidade de lavatórios até readequações no corpo docente para contemplar professores com comorbidades. "Deverá haver aporte financeiro do MEC. Várias coisas terão de ser adquiridas."
Para Edward Madureira Brasil, vice-presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, também é preciso que o ministro estabeleça relação de confiança com as universidades federais. "O que a Andifes espera é diálogo, algo que foi muito difícil com o ministro nesse período." A associação também pleiteia um alívio nas restrições orçamentárias, para que as universidades consigam cumprir seu papel. Durante a gestão do ex-ministro Abraham Weintraub houve bloqueio de recursos, o que motivou vários protestos. Ele espera que seja respeitada a autonomia das universidades em relação à nomeação de reitores. O MEC chegou a nomear reitores que não haviam sido escolhidos pela comunidade universitária.
Para Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, é urgente que o MEC se responsabilize pela coordenação de ações "para minimizar impactos brutais na educação básica por causa da Covid". Segundo ela, “o MEC se isolou esse tempo todo, poderia ser ator relevante, mas abdicou do poder de influência e contribuição."
Volta às aulas pode ser reavaliada
O Centro de Contingência do Coronavírus do Governo de São Paulo vai reavaliar os pontos que já haviam sido definidos sobre a volta às aulas no Estado após a divulgação de novos trabalhos sobre o impacto da reabertura de escolas na propagação da Covid-19. As aulas, em São Paulo, estão previstas para serem retomadas em 8 de setembro.
O secretário executivo do Centro de Contingência, João Gabbardo, falou sobre a reavaliação durante entrevista coletiva concedida ontem, quando novas projeções, prevendo que o total de mortes por causa da doença deve chegar a 26 mil até o fim do mês, foram divulgadas.
Gabbardo foi questionado sobre uma declaração dada por Eduardo Massad, professor titular da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas, em seminário da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo, em que ele citou que a volta às aulas poderia fazer o número de crianças contaminadas crescer. "No primeiro dia de aula, vamos ter 1.700 novas infecções no País, com 38 óbitos. Isso vai dobrar em 10 dias e quadruplicar depois de 15 dias", disse Massad.
Segundo Gabbardo, "este tema tem sido motivo de inúmeros trabalhos, alguns mostrando que o retorno às aulas não traz nenhum tipo de consequência de aumento de casos ou de óbitos entre as crianças, alguns mostrando que na retomada das aulas os professores têm efetivamente um aumento na transmissibilidade da doença e alguns manifestando um certo receio de que a retomada das aulas possa ser muito impactante na transmissibilidade e no número de óbitos."
"Em função dessas novas informações", afirmou o secretário executivo, "a gente pediu para que o centro de contingência, que tem discutido isso com o secretário da Educação, para que faça uma reavaliação daquilo que já foi definido e, tão logo a gente tenha essas informações, a gente vai trazer aqui para e entrevista coletiva", concluiu.
Gabbardo não deu prazo para que essa reavaliação seja concluída. A retomada das aulas na data sugerida está condicionada à classificação de todas as cidades do Estado na fase amarela do Plano São Paulo. Na segunda-feira, o governo havia autorizado a volta de cursos universitários e de uma série de cursos extracurriculares, como aulas de informática, inglês, música e dança.

Escrito por:

Estadão Conteudo