Publicado 12/07/2020 - 09h00 - Atualizado 10/07/2020 - 18h05

Por Adriana Menezes

Sirius, em Campinas, é a nova fonte de luz síncrotron brasileira

Divulgação

Sirius, em Campinas, é a nova fonte de luz síncrotron brasileira

Como um fruto, Campinas nasce da riqueza de sua própria terra. Escolhida como parada de tropeiros que não resistem à beleza e à fartura das águas e da vegetação, o local de pouso que era tão somente uma trilha de mata fechada na “Estrada dos Goiases”, em direção à mina descoberta entre os anos de 1721 e 1730, em pouco tempo se torna um povoado.
Em 1767, eram apenas 185 pessoas, mas a vocação da cidade se impõe desde o começo, e o que era um bairro rural de Jundiaí passa a ser um polo de atração e concentração populacional. Em 1774, nasce a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, quando as lavouras de cana e os engenhos de açúcar já movimentavam a economia. Em 1797, ela passa a ser a Vila São Carlos, para finalmente ganhar o status de cidade de Campinas em 1842, novamente escolhida, desta vez como pouso definitivo pelos fazendeiros de café que impulsionam um novo ciclo de desenvolvimento.
A terra, mais uma vez, determina a história da cidade e a produção cafeeira define o seu futuro. Em 1887, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) é criado por Dom Pedro II, dando origem a uma relação que se torna simbiótica entre a cidade e a ciência, criando campo fértil para o nascimento, em 1966, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Vinte anos depois, em 1986, também nasce, nesta mesma terra fértil, o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS).
Aos 246 anos, comemorados no dia 14 de julho, Campinas faz da sua marca identitária o seu maior patrimônio, pelo qual passado e futuro se conectam e garantem à cidade a força que ela precisa para continuar abrindo caminhos. A história de Campinas se (con)funde com a história dos três importantes centros de pesquisa e formação que a cidade fez nascer: Instituto Agronômico, Unicamp e Laboratório Nacional de Luz Síncrotron.
“O Instituto Agronômico foi a semente disso tudo, que adubou uma cultura que foi relevante na época. A história do crescimento de Campinas gira em torno do café”, afirma o diretor geral do IAC, Marco Antônio Machado, pesquisador da área de Citricultura. “Dom Pedro II era muito inteligente e vislumbrou a necessidade de conhecimento para poder apoiar uma atividade que veio a se tornar a base da história de Campinas. O IAC apoiou todo o desenvolvimento econômico e social em torno deste processo, e foi um exemplo para outras iniciativas desse porte, na medida em que se reconheceu que Campinas já era um polo tecnológico”, diz o pesquisador.
Para Machado, não há dúvida de que a ciência e Campinas caminham juntas. “Campinas é o futuro. É de onde a ciência e a tecnologia se irradiam para todo o Brasil. As nossas autoridades e a cidade têm que cada vez mais valorizar a tecnologia como um farol que ilumina vários outros cantos do País. Campinas é o farol da ciência e da tecnologia e tem muito a oferecer.” A partir da pesquisa do café, principal foco do instituto incialmente, houve uma expansão para outras culturas, como citrus, cana, feijão, trigo, arroz, hortaliças e outros. “Tudo isso tem um pouco do Agronômico.”
Também em torno do IAC surgiram as universidades, que passaram a atuar também com o foco no ensino. “O IAC foi exemplo para todo o Brasil, era um modelo. Hoje ele está em transformação, porque a agricultura mudou, os tempos mudaram, a informação trouxe uma velocidade grande ao processo, e nós temos que acompanhar. Estamos tentando nos renovar e propor novos caminhos pra poder fazer com que uma instituição que durou tanto tempo possa continuar”, defende Machado.
Segundo ele, o IAC passa por um processo de reestruturação, onde valoriza cada vez mais a pesquisa e seu agente principal que é o pesquisador. “Processo que traz consigo a necessidade de pensar em nosso futuro, de trabalhar orientados para soluções de problemas. O caminho para isso é o caminho da inovação. Trazer novas tecnologias ao produtor, para que ele se sinta apoiado pela pesquisa. A transferência do que fazemos é muito importante. Nós geramos muito conhecimento e tecnologia, e devemos transferir.”
Ele lembra que muita gente não lembra que o arroz, o feijão, o café, as frutas, o açúcar, o álcool do combustível, as plantas ornamentais ou plantas medicinais são produtos da agricultura brasileira, e em todos eles há a presença do IAC. Ao longo dos seus 133 anos de história, o instituto fez nascer o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), que era uma divisão do IAC; o Instituto de Zootecnia (IZ), que também foi parte do IAC; e o Instituto de Economia Agrícola (IEA).
Unicamp
Para o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, a Unicamp faz com que a cidade tenha cada vez mais força na pesquisa, na educação e na inovação, que caracterizam Campinas. “A Unicamp tem papel fundamental nesse processo de identificação da cidade e da região, como uma região científica, tecnológica e educacional. É uma relação muito profícua, quase simbiótica, entre a Unicamp e a cidade de Campinas.” Knobel afirma que busca em sua gestão o fortalecimento desta conexão. “Neste momento de pandemia estamos vendo a importância que a Unicamp tem para a cidade e a região. Contar com a sociedade de maneira efetiva só vai fortalecer a cidade e a universidade”, acredita o reitor.
“Que lugar no Brasil tem 63 leitos de UTI dedicados à Covid-19? Abrimos 37 novos leitos específicos para casos de Covid-19; e 98 de enfermaria. Isso só é possível num lugar que tem uma área de saúde como a da Unicamp”, destaca Knobel. A universidade também fez parceria com a Prefeitura na campanha Unicamp Solidária, com distribuição de cestas básicas e de higiene por meio do cadastro do Banco de Alimentos da Prefeitura. “Temos R$ 1,350 milhão de doações que foram integralmente passados para a compra de cestas básicas. Também fizemos a campanha ajude.unicamp.br - Abrace o futuro, doe agora -, que em três meses arrecadou quase R$ 13 milhões de doação.” O valor, que aparentemente é muito grande, não atende completamente às necessidades da universidade, diz o reitor, mas representa, antes de tudo, “uma conexão simbólica e afetiva que precisa existir para que, em casos de dificuldade, como diante dos movimentos que tentam destruir a universidade pública, a Unicamp possa ter o apoio da população, dos políticos e de todos os atores fundamentais nesse momento.”
Knobel reconhece a Unicamp como polo de atração de estudantes, professores, funcionários e pesquisadores do Brasil e do mundo, que traz diversidade cultural para a cidade, atraindo também as empresas. “Isso é uma riqueza da nossa cidade e da região.” Na área cultural, ele lembra que em 2019 a Unicamp promoveu mais de 2 mil eventos culturais durante o ano.
“Neste momento, somos responsáveis pela realização dos testes de Covid-19. Toda a região norte da cidade depende do nosso pronto-socorro do Hospital de Clínicas. Temos participação na formação de pessoas, com o Colégio Técnico - Cotuca. Há toda a conexão da universidade com as escolas na formação de professores. Trabalhamos com inovação. Temos mais de 800 empresas filhas cadastradas, das quais 60% estão na nossa região, graças e devido a Unicamp. Já tivemos dois vestibulares indígenas que trouxeram 200 indígenas para a cidade. Fazemos o apoio aos refugiados com a iniciativa da cátedra de refugiados. E temos centenas de eventos internacionais”, enumera o reitor, que conta com um orçamento anual em torno de R$ 2 bilhões. Para ele, a Unicamp é como uma cidade dentro de Campinas “Temos um mundo para poder explorar e conectar, para trabalhar em conjunto por uma sociedade melhor. E parte do papel da universidade é dar este retorno, que acontece naturalmente todos os dias, continuamente.”
Luz síncrotron
“A vocação da cidade de Campinas para o conhecimento, em especial a ciência e a tecnologia, atraiu para cá universidades, centros de pesquisa e também o primeiro projeto de big Science brasileiro: o projeto sincrotron”, diz Antonio José Roque da Silva, diretor geral do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais) e diretor do projeto Sirius.
“A partir da década de 80, pesquisadores, engenheiros e técnicos brasileiros se reuniram em Campinas para criar o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e iniciar a construção da primeira fonte de luz síncrotron do Hemisfério Sul. O apoio e a receptividade que a cidade nos ofereceu foi muito importante para que o laboratório se desenvolvesse cada vez mais, dando origem ao CNPEM, um ambiente de pesquisa?e desenvolvimento sofisticado e efervescente, único no País, e ainda ao projeto Sirius, uma das fontes de luz síncrotron mais avançadas do mundo, projetada e construída por brasileiros – muitos deles, campineiros”, completa o diretor.
A história do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) e, portanto, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), começa na década de 1980. Em 1982, é iniciado o Projeto Radiação Síncrotron com a missão de desenvolver os estudos de viabilidade do projeto de construção de um acelerador de elétrons para a produção de luz síncrotron, o primeiro equipamento do tipo no Hemisfério Sul.
Em 5 de dezembro de 1984 é formalmente criado o Laboratório Nacional de Radiação Síncrotron (LNRS), que dois anos depois é renomeado como como Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). Ali, um grupo de engenheiros, técnicos e pesquisadores começa a projetar e desenvolver os componentes desta complexa máquina, que deu origem ao projeto Sirius, um acelerador linear criado para produzir a luz síncrotron mais brilhante do mundo em sua categoria de energia. O equipamento instalado em Campinas é considerado pioneiro entre os síncrotrons da recém-inaugurada quarta geração, ao lado da fonte de luz MAX-IV, instalada na Suécia.
As obras civis do equipamento foram finalizadas em 2018, quando teve início a instalação dos equipamentos. A equipe do CNPEM se dedica agora a alcançar correntes elétricas cada vez mais altas nos aceleradores de elétrons, necessárias para se produzir luz síncrotron de intensidade suficiente para a realização dos experimentos científicos.

Escrito por:

Adriana Menezes