Publicado 25/07/2020 - 16h43 - Atualizado 25/07/2020 - 16h44

Por Estadão Conteudo

Sérgio Ricardo tem uma obra marcante na música e no cinema, mas ficou conhecido por quebrar o violão no 3° Festival da Música Brasileira

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Sérgio Ricardo tem uma obra marcante na música e no cinema, mas ficou conhecido por quebrar o violão no 3° Festival da Música Brasileira

O cantor, compositor e cineasta Sérgio Ricardo, expoente da bossa nova e do cinema novo, morreu na manhã da última quinta-feira, 23, aos 88 anos, no Hospital Samaritano, na zona sul do Rio de Janeiro. Sua assessoria de imprensa confirmou a informação no final da manhã de quinta e sua filha, Adriana Lutfi, informou ao Estadão que a causa da morte foi insuficiência cardíaca. Sua saúde estava fragilizada desde que ele havia fraturado o fêmur, em outubro de 2019. Sérgio estava internado havia quatro meses e chegou a contrair a covid-19 durante seu tempo no hospital, mas já havia se recuperado desse quadro específico.
Uma das figuras mais importantes na MPB na era da militância pelo retorno da democracia nos anos de ditadura militar, Sérgio Ricardo se tornou célebre, sobretudo, a partir de 1967, quando foi vaiado ao participar do 3º Festival da Música Brasileira ao concorrer com a canção Beto Bom de Bola, considerada difícil por alguns jurados e de menor apelo popular do que sua concorrente, Maria, Carnaval e Cinzas, defendida por Roberto Carlos. Sérgio ainda tentou cantar durante as vaias, mas não conseguiu vencer os gritos da plateia. Ele então se irritou, disse "vocês venceram", bateu com o violão no palco até destroçá-lo e o arremessou à plateia. Em uma entrevista ao Estadão, Sérgio brincou dizendo que havia sido copiado por Jimi Hendrix um ano depois. O guitarrista norte-americano, na verdade, começou a incendiar seu instrumento no palco no início daquele mesmo ano.
Mas isso já era 1967, a bossa nova havia encerrado seu primeiro ciclo, e Sérgio já estava na história da música brasileira por outras razões, embora esse episódio tenha pesado por anos sobre seus ombros. Sérgio Ricardo já havia tocado no emblemático Festival da Bossa Nova do Carnegie Hall, de 1962, em Nova York, uma apresentação conturbada, mas que o levaria a ficar nos Estados Unidos pelos próximos oito meses.
Ao voltar ao Brasil, lançou seu terceiro LP, Um Senhor Talento, sob a produção de Aloysio de Oliveira. Um ano depois, em 1963, Sérgio compôs a trilha sonora para o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, que lhe valeu o prêmio de melhor trilha para cinema pela Comissão Estadual de Cinema de São Paulo. Outras conquistas vieram em 1964, quando lançou o filme Esse Mundo é Meu, e em 1966, quando voltou a morar no Rio e compôs sobre piano a trilha do filme Terra em Transe, também de Glauber. Um de seus filmes mais emblemáticos foi A Noite do Espantalho (1974), um cordel em forma de obra cinematográfica estrelado por Alceu Valença. Esse Mundo é Meu, música composta em 1963, além de virar filme, deu nome ao último show do artista.
Sérgio Ricardo não era seu nome de batismo. O artista nasceu em Marília, no interior de São Paulo, no dia 18 de junho de 1932 e foi batizado como João Lutfi, o filho mais velho do casal Maria Mansur Lutfi e Abdalla Lutfi, que chegaram da Síria para fundar Marília em 1930.
O show Esse Mundo é Meu, que focou, sobretudo, sua obra criada para o cinema, gravado no Teatro da Universidade Federal Fluminense, no Rio, para comemorar seus 85 anos, com participações de Alceu Valença, Geraldo Azevedo, João Bosco e Dori Caymmi, além dos filhos Adriana, Marina e João Lufti, editado em CD e DVD pela Biscoito Fino, está disponível há dois meses pela gravadora. São os últimos registros de Sérgio em ação.
A família do compositor publicou uma carta de despedida nas redes: "Amigos queridos, hoje pela manhã partiu nosso mestre Sérgio Ricardo, nosso amado João Lutfi, aos 88 anos de muita arte, resistência e, acima de tudo, muito amor. Suas expressões nos deram e darão ainda muita alegria, mas até os mais inspiradores guerreiros precisam descansar. Sérgio será sempre mais que Sérgio, mais que João. Estará pra sempre em toda diversidade que nos cria. Nosso compositor de múltiplos, que faz o braço ser mais que um braço, a voz ir mais além que uma só voz, o um ser sempre ‘um mais um’. Infelizmente, por conta da pandemia em que nos encontramos, as cerimônias serão restritas à família. Mas estaremos todos juntos como sempre, celebrando sua memória e sua vida. Siga sua busca, mestre! A gente vai seguir também, com muita gratidão ao seu legado. Viva Adriana, viva Marina, viva João, viva o amor de toda a família. E, pra sempre, Viva Sérgio Ricardo!".

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