Publicado 09/07/2020 - 15h15 - Atualizado 09/07/2020 - 15h15

Por Cláudia Antonelli

Pela metade

Divulgação

Pela metade

Um ano atrás publiquei aqui nesta coluna uma crônica com o título, Na metade. A chegada do mês de julho havia me suscitado uma série de pensamentos. Como agora, novamente.
Estamos na metade do ano e isto geralmente gera inquietações. “Incrível como o tempo passa, já estamos na metade do ano”, ouve-se bastante nesta época. Quem dirá, nas circunstâncias nas quais nos encontramos – e em meio a elas, meio ano já se foi.
Essa história da metade sempre nos inquieta. A metade do jogo, a metade do copo, a metade do dia. Estaríamos agora “na metade da Pandemia”? A trágica resposta é que não fazemos a mínima ideia. Pode ser que estejamos na metade deste tempo confuso e desordenado, mas pode bem ser (sinto pelo pessimismo) que ainda estejamos somente no início.
Fica claro que neste momento, cada canto do mundo se encontra em seu próprio lugar nesta história. Como se a partida para a pandemia tivesse sido dada lá atrás, em etapas – a China foi a primeira a partir; depois a largada foi dada para a Itália, a Espanha e outros países Europeus; finalmente para os Estados Unidos e o Brasil, entre outros retardatários.
O problema é que, uma vez dada a largada (imagino barcos em um mar agitado) cada um seguiu de um jeito – a remo, a motor, ou simplesmente sua vela ao vento, indo na direção em que este soprava. E assim, cada um foi parar em um lugar. Agora, cá estamos. Em julho, sem Ministro da Saúde (por inteiro), sem leitos, sem verbas, sem líder – ou, acabo de saber, com um líder agora ele mesmo contaminado. Mais ou menos sem rumo nem prumo. E de certa forma, também encalhados.
O sério risco que corremos com isto é, de além de estarmos na metade do ano, seguirmos fazendo as coisas agora, pela metade. Meia quarentena, meia máscara (que cobre o queixo); meio sério, meio engajado, meio confuso. O resultado será sendo, no entanto, por inteiro e caótico. Como com tudo que é pela metade: o mal feito, o ruim, o pedaço – a meia-vontade, a meia-verdade, o meio-pronto, o meio-quente, o meio-feliz, ou seja, o “meia-boca” (acho que só o queijo meia cura escapa dessa). O problema é que não há meio-vírus; nem meia crise, tampouco meia pandemia.
Mas o ser humano é por natureza paradoxal e, se por um lado gostamos do que é bom e nos faz bem, por outro, o meia-boca nos persegue: o mais barato, o meio preço, o meio jeito (o jeitinho), o mais ou menos.
No texto de julho do ano passado, estávamos na metade. Agora, temo estarmos de fato, mais pela metade. As medidas pela metade, o acompanhamento da situação pela metade, os cuidados pela metade. Falo o que me parece, de modo geral. Certamente há pessoas cuidando por inteiro, de si, dos que lhe são próximos e das coisas às quais tem alcance. Estaríamos provavelmente todos mortos não fosse por estes.
Não será fácil, mas quem sabe no segundo tempo deste ano, consigamos ser mais intensa, inteira e verdadeiramente em prol do inteiro. Quer seja uma coisa ou outra. Que possamos cessar essa corrida desengonçada de barcos a la ‘salve-se quem puder’ como foi esta primeira metade de 2.020 (certos jogos só viram no segundo tempo). Mas precisaremos sempre mais coragem, sempre mais.
Quanto a mim, enquanto metade minha é feita de esperança, outra metade parece ser, por ora, total desalento. Confesso, contudo, em segredo que possuo ainda uma terceira metade, que nomeio poesia. Pois concluo com a ajuda de alguns versos, para um pouco de alento neste mar para além de turbulento:
“(...) Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste./ Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade./ E que essa tensão que me corrói por dentro, seja um dia recompensada./ Porque metade de mim é o que eu penso, mas a outra metade é um vulcão./ Porque metade de mim é amor, e a outra metade... também”.
(Trechos de Metade, de Ferreira Gullar).

Escrito por:

Cláudia Antonelli