Publicado 04/06/2020 - 15h33 - Atualizado 04/06/2020 - 15h33

Por Cláudia Antonelli

A Flor-de-Sal e o Futuro

Divulgação

A Flor-de-Sal e o Futuro

Qual não foi minha surpresa outro dia no supermercado. Era uma compra rápida, agitada, um pouco tensa e controlada no contexto da pandemia – máscara, gel toda hora, carrinhos desinfetados, distância necessária e os olhares de desconfiança (talvez não necessários). Peguei alguns itens da necessidade, por fim busquei o que em realidade mais desejava aquele dia: a Flor-de-Sal. Este delicioso sal em forma de cristais, colhidos à mão em certas épocas do ano, nos mares da costa inglesa (há outros, inclusive uma produção nacional agora, no Rio Grande do Norte).
Encontrei-o e, feliz, logo meu olhar buscou a data de validade: “Best before 31.12.2033”. Foi então que uma espécie de susto, um golpe de estupefação, me atravessou. Repeti em voz alta para mim mesma, com surpresa e prazer, e todas as letras: “Trinta e um de dezembro de dois mil e trinta e três!”. Que data distante, pensei. A mais distante que vi nos últimos tempos. Um futuro existe – e este sal (se não comido) existirá até lá!
Foi uma semana destas da pandemia com mortes, caos instalados, sistemas de saúde colapsados em nosso país, em que eu havia lido de Ernest Hemingway, “Entrementes, toda a vida que você tem ou terá se resume em hoje, esta noite, amanhã – hoje, esta noite, amanhã, e é aproveitá-la e dar-se por feliz”.
Agora eu encontrava um arrogante pacotinho de sal me dizendo que haveria um futuro, e que ele seria pelo menos até o ano de 2033?!! Novamente, satisfação e esperança, ou quase exaltação, me assaltaram. Junto com a pergunta - será que estarei viva quando este sal expirar? Claro, nem eu nem nenhum de nós, sabe; nem a respeito de nós mesmos tampouco da espécie humana. O futuro ninguém sabe.
Qual o futuro da vida em nossa Terra? Como será esse nosso futuro próximo, até minha Flor-de-Sal atingir sua validade? Como estará nossa natureza? Como estarão nossos humanos? Como estará nossa vida juntos, em grupos, nossas convivências?
É difícil dizer. Creio que muito dependerá de transformarmos o sentido de nossa vivência atual de reclusão, privação e drástica diminuição - do contato humano, do trabalho, de fontes de renda, de deslocamentos, de momentos de lazer e prazer – em algo novo, ou ao menos renovado, a partir da experiência que estamos tendo agora.
Infelizmente, nem toda experiência é assimilada pelo ser humano. A história – pessoal e do mundo – muitas vezes acaba se repetindo, por falta de assimilação e compreensão do que foi vivido. Junto da conhecida Compulsão à repetição (conceito psicanalítico) que nos leva, por falta de trabalho psíquico, a repetirmos o ocorrido, mesmo que danoso e maléfico a nós mesmos. Achamos que estamos pegos em “destinos da vida”, quando de fato, estamos presos em nossa própria incapacidade de nos modificarmos, de nos transformarmos. Se a primeira guerra tivesse servido de lição, não teria havido a segunda.
Meu desejo é, no entanto, que nosso futuro possa ser diferente - o que dependerá, me parece, do cuidado que conseguiremos ter conosco, com o mundo e com os outros.
O marco do início da civilização – ou seja, da passagem do homem animal para o ser humano -, tem diferentes explicações. Para alguns especialistas, foi quando a espécie passou a usar o símbolo para representar algo em sua ausência: como as inscrições rupestres em cavernas. No desenho, passamos a representar algo que não estava lá – isto o animal não faz. Ou seja, a linguagem nos teria separado dos animais.
Para outros, esta passagem teria se dado com a invenção do fogo – com ela, a possibilidade de cozinhar o alimento, de nos aquecermos, de nos protegermos do frio e dos outros.
Para Freud, o pai da Psicanálise, o homem deixa de ser animal e passa a se tornar humano quando instaura em sua horda duas leis essenciais: a interdição ao parricídio (não matar o pai), junto à proibição do incesto – estas leis, os animais não têm.
Outro dia, porém, li algo que me pareceu interessante, atribuído a Margaret Mead (1901-1978), grande antropóloga. Para ela, o sinal de início da civilização teria sido um osso humano fêmur quebrado, e depois cicatrizado:
“Mead explicou que no reino animal, se você quebrar a perna, você morre. Você não pode correr do perigo, ir até o rio para beber água ou caçar comida. Você é carne fresca para os predadores. Nenhum animal sobrevive a uma perna quebrada por tempo suficiente para o osso sarar. Um fêmur quebrado que cicatrizou é evidência de que alguém teve tempo para ficar com aquele que caiu, tratou da ferida, levou a pessoa à segurança e cuidou dela até que se recuperasse. “Ajudar alguém durante a dificuldade é onde a civilização começa”, teria dito a pesquisadora.
Acho que não precisamos de muitas mais palavras além destas. Que possamos reencontrar este marco (um pouco perdido) de humanidade, para que acompanhemos as flores-de-sal até, e para muito além de, 2.033.

Escrito por:

Cláudia Antonelli