Publicado 17/06/2020 - 12h14 - Atualizado 17/06/2020 - 12h14

Por Aquiles Reis

A mais brasileira das cantoras

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A mais brasileira das cantoras

Tenho comigo um álbum que foi lançado em 2018, Canta Inezita – Ao vivo – As Galvão, Maria Alcina, Consuelo de Paula, Claudio Lacerda (Kuarup). Trabalho que recebi na época do lançamento, previsto para 8 de março, data em que o falecimento de Inezita Barroso completaria quatro anos. Sinceramente, não sei o que justifica tamanha demora até que eu resolvesse ouvi-lo com os ouvidos em “modo comentarista”.
Bem verdade que eu sempre ouvia o CD. Ouvia-o inteiro ou me restringia a atentar às músicas gravadas por cada um dos quatro convidados pelo produtor Thiago Marques Luiz para o louvor à cantora, atriz, apresentadora, professora e folclorista Inezita Barroso.
Músicas marcantes de um período em que vivia minha pré-adolescência em Niterói. Cada uma delas me remetia a um tempo que eu não conseguia identificar os fatos, apenas sentia um aperto que me doía o peito setentão.
Perdoem-me as reminiscências, mas é que cada uma das quinze canções do CD me vinha à cabeça como um recado. Mensagem convidando-me a voltar a tempos passados. Bilhetes amarelados de um tempo triste, mas pleno de cuidados amorosos. Todos vindos a mim em forma de saudade – músicas/fotografias de um momento imensurável.
Não raro me emocionei ouvindo a voz delicada e profunda de Consuelo de Paula cantando Viola Quebrada (Mário de Andrade) – quanto firmeza eu sentia ali, os sentidos em alerta máximo.
Nem tampouco resistia à emoção quando Claudio Lacerda recriava, com o ímpeto de um violeiro apaixonado, a linda moda Cuitelinho (Antonio Xandó e Paulo Vanzolini).
O que dizer da estroinice da gigante Maria Alcina? Meu Deus! Aquela voz derramando verdades me atingia em cheio. E eu ria ou chorava? Os dois? Quase sempre! Prenda Minha (tradicional), em contraste com Marvada Pinga (Ochelcis Laureano), me tirava o coração da embalagem.
E vêm As Galvão, sinônimo do tempo em que elas, junto com Inezita e outros bons, pairavam sobre o sertão caipira. Vozes unidas por um ideal de pertencimento à terra, vozes tradutoras de um momento único na música brasileira. Lindas. E cantada por elas, Beijinho Doce deixava-se relembrar com galhardia.
Os arranjos do violonista e diretor musical Paulo Serau, à frente de um bom sexteto instrumental (senti falta de seus nomes no encarte), acolhiam os intérpretes que a eles se entregavam.
Aos poucos entendi o que sentia. Foi quando algo pintou como se pedindo para que eu entrar em “modo” comentário... e aqui estou eu reverenciando uma das nossas cantoras mais importantes. Seu sentido de brasilidade salta aos olhos. O seu povo lhe oferece respeito e confiança, merecimentos que só se conquista pela verdade de seus princípios e de sua música.
A voz de Inezita Barroso imprime um quê de amargura, um quê de angústia, em suas tão belas músicas. Uma dor profunda que acompanha a vida de nossas gentes – pretos, pobres, povos indígenas e das periferias –, que hoje estão sendo empurradas para o abismo por um genocida.

Escrito por:

Aquiles Reis