Publicado 14 de Junho de 2020 - 9h59

Por Gilson Rei/AAN

Loja de artigos para dança e o Clube Cultura: atividades encerradas

Leandro Ferreira/AAN

Loja de artigos para dança e o Clube Cultura: atividades encerradas

A pandemia atingiu em cheio o comércio do Centro de Campinas. Acelerou e escancarou o processo de degradação que já mostrava as primeiras “feridas” no ano passado. Os reflexos estão visíveis na região mais tradicional do município. Lojas atuantes há mais de 50 anos, principalmente as localizadas próximas à praça Carlos Gomes, ao largo do Rosário e ao largo das Andorinhas, encerraram as atividades. Em uma rápida passagem pela região, a reportagem do Correio Popularidentificou pelo menos 35 comércios com avisos de “Aluga-se” em suas portas. É o fim das atividades para estabelecimentos que atuaram ativamente na cidade entre quatro e cinco décadas.

As estátuas de ilustres como Carlos Gomes e Bento Quirino integram há muito tempo o cenário de violência, consumo de drogas, assalto e prostituição em frente ao “Marco Zero” da cidade. Desemprego, preços altos e falta de perspectivas na economia já tinham minado também alguns comércios antes mesmo do coronavírus chegar.

A triste rotina afastou do comércio central os consumidores — que também já tinham perdido poder de consumo pela situação econômica nacional de desemprego crescente e pelos preços altos de produtos e serviços desde o segundo semestre do ano passado.

A degradação no Centro de Campinas ganhou um “empurrão” do coronavírus a partir de março deste ano. Comerciantes e prestadores de serviços de Campinas sentiram o duro golpe, “jogaram a toalha” porque não aguentaram o baque provocado pela Covid-19, responsável pelo isolamento social e pelas restrições na economia.

A partir de março, com a chegada da Covid-19, uma nova onda de fechamentos atingiu pontos tradicionais. É o caso da Laticínios Lima, instalado há mais de 50 anos na Rua Barão de Jaguara, esquina com rua Ferreira Penteado.

Márcio Lima, proprietário da tradicional loja de doces, embutidos e queijos especiais, preferiu até economizar nas palavras sobre o fechamento. Segundo ele, as vendas caíram muito e a de gradação no Centro já vinha ocorrendo antes da pandemia. "Os clientes deixaram de vir porque o preço do estacionamento é muito alto e o Centro transformou-se também em um paraíso para as multas de agentes da mobilidade da Emdec" , afirmou. "Além disso, a região começou a se transformar em área de prostituição e a degradação já estava deprimente antes da Covid-19", disse.

Outro local tradicional que deixou o Centro e não tem previsão de volta no futuro é a Ironia Dance, que vendia seus produtos na Rua Irmã Serafina, em frente à praça Carlos Gomes, por mais de 35 anos. Nos últimos dez dias, o proprietário decidiu vender o estoque que ainda existe com promoções e já avisou em um cartaz que vai encerrar as atividades.

Carlos Gomes, proprietário da loja, disse que nas décadas de 80 e 90 ele e seu pai utilizavam uma barraca de 1,20m por 2,40m para a venda de camisetas personalizadas com frases bem-humoradas na feira hippie, na praça Carlos Gomes. Foi um sucesso e a família decidiu alugar um espaço em frente a praça e ao lado do Clube Semanal de Cultura Artística, dando início à loja Ironia Dance, que além de camisetas, passou também a vender roupas, acessórios, artigos e materiais para pessoas que praticavam dança na cidade. Na época, ele tinha 17 anos.

Segundo Gomes, a sua história de vida foi construída neste local, onde ele conheceu a esposa, casou-se, teve dois filhos e ampliou sua atividade comercial. "Passamos por enchentes, por assaltos, por prefeitos de diversos mandatos e por crises econômicas. Com o governo atual a situação agravou-se ainda mais. Além da minha loja, dois comércios ao lado também fecharam e mais de 17 estabelecimentos das ruas General Osório e Luzitana fizeram o mesmo" , afirmou.

O lojista de mais de 35 anos de atuação na região disse que, agora, vai atender de outra forma as academias de dança, que já compram dele há muitas décadas. "Vou fechar a loja, parar de ser assaltado, de pagar impostos e de sofrer com a falta de respeito. Com a experiência destes anos, vou vender via on line, trabalhar com menos funcionários e tentar inovar", afirmou.

Nos últimos dois meses, 35 estabelecimentos fecharam

Dentre os 35 estabelecimentos que fecharam nos últimos dois meses, está o Mercadinho do Vovô, na Rua Luzitana, ao lado da Travessa São Vicente de Paula, a antiga Boca do Inferno, que encerrou também suas atividades depois de 40 anos para a tristeza de sua clientela. Maria do Socorro Alves, aposentada e moradora da região, não se conformou com o fim das atividades do mercadinho. "É uma pena que a economia do País esteja tão ruim. Muita gente desempregada e pouca venda no comércio. O mercadinho era meu local preferido há muitas décadas" , lamentou.

Outra loja que fechou as portas foi a Persianas Campinas, que esteve atuante no comércio por mais de 50 anos vendendo cortinas, persianas e artigos para decoração na Rua Dr.Quirino. Quase em frente a esta loja fechou também um tradicional local do setor gastronômico, o Restaurante China, que serviu muitos clientes por mais de 35 anos.

Um local bastante frequentado no Centro que fechou também as portas é o restaurante Travessa, na Rua Dr. Thomaz Alves. A loja de calçados femininos especiais Pé de Boneca, na Rua Luzitana, é outro estabelecimento que fechou neste período de pandemia.

Os proprietários destes locais, abalados ainda com a decisão de fechar as portas, preferiram manter-se no anonimato, porém todos deixaram claro que a economia brasileira, com elevados índices de desemprego e sem uma política de incentivo, desmotivou os investimentos e geraram prejuízos.

Todos reclamaram dos altos valores de impostos e de aluguel de imóveis, além da baixa procura dos consumidores. "Com a chegada da Covid-19 a falência do sistema que estava sendo anunciada apenas acelerou o processo e se concretizou", afirmou um dos comerciantes.

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Gilson Rei/AAN