Publicado 05 de Junho de 2020 - 7h26

Por Estadão Conteúdo

Houve momentos da mais profunda emoção. Alain Fresnot lembrou como a Cinemateca Brasileira foi importante em sua vida. Muito jovem, ele estagiou ali. Fez sua formação humana, além da cinematográfica. Foi no fim da manhã desta quinta, 4. Em frente ao prédio do antigo Matadouro de São Paulo, que abriga a instituição.

Os cinéfilos sabem - é um prédio belíssimo. Mas tem andado à míngua. O protesto organizado em plena pandemia foi para chamar a atenção sobre a Cinemateca. Reuniu cineastas, funcionários, cinéfilos. Roberto Gervitz, um dos organizadores, lançou o alerta. "A Cinemateca está sem dinheiro nem para pagar a luz. E isso pode comprometer a memória cinematográfica do País." A Cinemateca Brasileira, uma das maiores do mundo, abriga o maior acervo audiovisual da América Latina.

Esse material original em celuloide é altamente inflamável. Depende de equipamentos que o mantenham refrigerados, a uma temperatura constante. São filmes de ficção, documentários, cinejornais que preservam a história do País e do mundo pelo cinema. Sem luz, os equipamentos ficam desligados e o risco de autocombustão é enorme. O Brasil pode perder sua memória audiovisual.

A crise da Cinemateca vem desde 2013. Acirrou-se no ano passado, quando uma parte do contrato do Governo Federal com a Organização Social que administra a entidade - Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp) - foi encerrada por iniciativa do MEC. A Secretaria Especial de Cultura, a partir do dia 8 toda vinculada ao Ministério do Turismo, é o órgão responsável pela Cinemateca.

Sem resolver o imbróglio da reintegração à União, a nomeação da ex-secretária Regina Duarte fica sem efeito. A situação instável prolonga-se. Sem salários e agora possivelmente até sem luz, a Cinemateca não tem condições de exercer as funções para as quais foi criada. No protesto da manhã de quinta, foi lido um documento de apoio de 30 instituições de cinema, conservação e restauro, do Brasil e do mundo, incluindo as Cinematecas da Suíça e da França.

"Estamos assistindo à inaceitável deterioração de suas funções que já atingiu um patamar absolutamente incompatível com a sua importância", diz o manifesto. "Técnicos valiosos e especializados foram demitidos e as atividades foram reduzidas drasticamente. Entre outras coisas, isso se refletiu na subutilização dos equipamentos de ponta, fruto de vultosos investimentos, que correm o risco de sucateamento."

O documento pede a formação de uma "comissão com membros indicados pelas principais entidades cinematográficas do País a fim de que se estabeleça um contato formalizado e periódico, condição sine qua non para que se trabalhe com transparência".

Em ofício enviado ao governo federal nesta semana, a Acerp pede o esclarecimento de questões ainda indefinidas, como quando serão feitos os repasses atrasados para pagamentos dos funcionários e da conta de luz. Na semana passada, o Ministério do Turismo disse que se daria a reincorporação da instituição à União, mas mesmo essa questão ainda está em impasse.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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