Publicado 24/05/2020 - 09h05 - Atualizado 23/05/2020 - 17h46

Por Kátia Camargo

A escrita pode aliviar momentos de tristeza durante a quarentena

Pixabay

A escrita pode aliviar momentos de tristeza durante a quarentena

Logo que começou o distanciamento social a escritora Ana Holanda, autora do livro Como se Encontrar na Escrita, da editora Bicicleta Amarela –Rocco, e que também dá cursos por todo o Brasil de escrita criativa e afetuosa, recebeu um e-mail de uma de suas alunas anteriormente inscrita junto com a sua mãe para participar de um de seus cursos agendados em Fortaleza, no Ceará. O encontro acabou sendo adiado por conta da pandemia do novo coronavírus. A mensagem dizia que a mãe não poderia mais participar da atividade, pois havia morrido vítima da Covid-19 naquela semana. Em um trecho do texto, repleto de dor e sentimento, a aluna perguntava como poderia escrever sobre algo tão difícil que estava sentindo e detalhava tudo o que a mãe representava na vida dela e de toda a família.
“Estávamos começando a quarentena e a mensagem dela me comoveu muito, foi extremamente tocante e triste. Depois de responder para ela achei que seria muito interessante propor para as pessoas, nas minhas redes sociais, uma jornada da escrita afetuosa. Por cinco dias eu gravava vídeos tentando conduzir as pessoas a que escrevessem sobre o que estavam sentindo diante de um momento tão delicado e que envolvia dores, tristezas, angústias, aflições e muitas incertezas”, relata.
Para a surpresa da escritora logo que começou a jornada, de um dia para o outro, ela recebeu cerca de 500 textos vindos dos mais diferentes lugares do Brasil e até de outros países. “Esse encontro proposto pela escrita foi de uma potência tão grande e muito marcante para mim, porque escrever nem sempre é tão simples quanto se pensa. Quando a gente começa a pensar no texto como um encontro com o outro é preciso estar presente. A escrita pressupõe intensidade como a vida e à medida que vamos nos desafiando conseguimos perceber quanto amor existe na escrita. Um texto que nos afeta pode também afetar o outro. Acredito que um texto escrito com alma é aquele que deixa de morar em você e passa a existir no outro e durante a jornada vi nascerem textos extremamente corajosos”, diz Ana.
Escrita como um caminho
Não é de hoje que a escritora Ana Holanda e outras pessoas conseguem enxergar a potência da escrita. E em muitos momentos usam a tecnologia para conseguir se conectar com o outro. Carol Campos se formou em letras e trabalhou de 2000 a 2019 em três consulados (EUA, Reino Unido e Canadá). “Neste período trabalhei com assuntos regulatórios em saúde e numa empresa de advocacia especializada em processos de imigração. No ano passado, pedi demissão e resolvi que queria trabalhar com a escrita. Eu me formei em letras, pela USP, no ano 2000. Apesar de sempre ter usado a escrita como meio de me expressar, em cartas principalmente, não fiz letras para me tornar escritora e sim porque eu dava aulas de inglês e queria uma formação mais técnica. De lá pra cá, trabalhei em várias áreas diferentes e sempre deixei a escrita de lado, como hobby ou válvula de escape”, conta.
Mas, no ano passado, ela começou a fazer oficinas de escrita criativa, de memória e entendeu que a atividade é muito mais importante do que pensava. “É na escrita que encontro equilíbrio e me encontro. Foi uma decisão difícil pedir demissão de um emprego que me trazia bastante conforto financeiro para ter tempo de escrever. Comecei a procurar formas de a escrita virar minha fonte de renda e não só de harmonia interna. Tinha decidido que o primeiro semestre (entre agosto de 2019 e janeiro de 2020) seria uma fase de estudos. Em fevereiro, comecei a fazer uns “frelas” e entender como esse mercado funciona. E, em março, veio a pandemia. Foi então que eu criei um diário de uma quarentena nas redes sociais. A escrita é tão importante para mim que se eu não escrevo uma frase pelo menos é como não escovar os dentes o dia inteiro. No meu caso, no primeiro momento precisa inclusive ser a mão, no papel”, destaca Carol.
Relatos em tempo de corona
A pesquisadora e professora Ana Carolina Bertho participa de um grupo no Facebook chamado Relatos de tempos de Corona que até o fechamento desta edição contava com 741 participantes. O grupo foi formado logo no início da pandemia para quem quisesse deixar algum registro pessoal sobre seus enfrentamentos durante a fase do distanciamento social para que possa ser lido pelos integrantes e relido no futuro.
“Acho muito interessante esse grupo, pois é uma forma de vermos além dos nossos desafios, pois há pessoas que moram sozinhas, famílias, indivíduos que já enfrentaram a Covid-19, e outros que perderam entes querido por conta da doença. São relatos muito sensíveis e pessoais. Tem muita gente falando sobre solidão, medo, mas têm textos muito engraçados como os relatos de como foi sair de casa pela primeira vez, as manobras para tentar fugir de algo invisível, como está sendo se aventurar na cozinha pela primeira vez para algumas pessoas”, conta.
A pesquisadora acredita que ao dividir essas impressões por meio da escrita a pessoa acaba aliviando o peso, as tensões e não se sente sozinha. “Meus relatos vinham muito dos meus desafios de conciliar home office, criança pequena e os trabalhos de casa. Mas li textos de pessoas que ficaram doentes e se curaram, e esses vêm cheios de esperança, e outros de quem perdeu seus entes queridos que me sensibilizaram muito. É uma escrita que diz mais sobre sentimentos e por isso é tão importante e humano”, considera.
Desvendar o mundo
Escrever é desvendar o Mundo. Este é o título de um antigo livro de redação, quase um manual da escrita para principiantes, organizado por Severino M. Barbosa, mas que dependendo do modo que for colocado em prática pode dizer muito sobre nós, sobre o outro e sobre o mundo, principalmente neste momento de distanciamento social e da pandemia do novo coronavírus. Mas, não é de hoje e nem era por meio das redes sociais que as pessoas escreviam sobre elas, sobre seus sentimentos, sobre o outro e suas impressões do mundo que a cercava.
Um dos grandes exemplos de como a escrita pode marcar e contar uma história é o livro O Diário de Anne Frank, escrito por Anne Frank entre 12 de junho de 1942 a 1º de agosto de 1944 durante a Segunda Guerra Mundial. Provavelmente, a escrita no diário da garota, que a tornou mundialmente famosa, deve tê-la ajudado a suportar os momentos que vivenciou durante o conflito mundial. Aos 13 anos, Anne ganhou um diário de presente e ao escutar numa rádio holandesa um apelo do ministro da educação, exilado na Inglaterra, para que as pessoas mantivessem seus diários e documentos de guerra, a adolescente teve a ideia de reescrever os seus diários individuais numa única história, com o título O Anexo Secreto.
Isso porque em seu diário ela narra momentos vivenciados por ela e por um grupo de judeus confinados em um esconderijo durante a ocupação nazista. Anne também deixou registrado que quando a guerra acabasse gostaria de ser escritora, mas infelizmente morreu prematuramente aos 15 anos, em fevereiro de 1945, no campo de concentração de Bergen-Belsen, provavelmente devido a tifo, exaustão e desnutrição. Mas o Diário de Anne Frank foi publicado e tornou-se mundialmente famoso. O livro já foi traduzido para cerca de 70 línguas e adaptado para teatro e cinema mostrando os sonhos e aflições da garota.

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Kátia Camargo