Publicado 24/05/2020 - 09h00 - Atualizado 23/05/2020 - 16h02

Por Kátia Camargo

O pão é o alimento mais comum a todos os povos

iStock

O pão é o alimento mais comum a todos os povos

A receita é simples - trigo, água, sal e fermento – mas encanta o mundo. Sim, falamos do pão cujo aroma ao sair do forno invade mentes e corações. Além disso, o pão é, talvez, o alimento mais comum a todos os povos, a todas as etnias e a todas as religiões. Neste momento em que vivemos a pandemia do novo coronavírus, o “fique em casa” acabou por despertar em muitas pessoas que vivem o isolamento a vontade de se ocupar com atividades abandonadas em algum momento do passado ou que sequer foram cogitadas antes da crise sanitária: o ofício de fazer pão em casa.
E esse é um fenômeno mundial. Até quem nunca havia se arriscado a ‘por a mão na massa’ descobriu nessa experiência um momento de união entre a família, pois há momento mais prazeroso do que compartilhar um pão quentinho saindo do forno? E, nessa aventura de redescobrir o prazer de fazer pães em casa, tem até quem criou um drive-thru para a família e outros que resolveram aumentar a receita para distribuir entre os amigos.
Refúgio
O psicólogo Karam Valdo conta que o ato de cozinhar surgiu na vida dele e da mulher Thâmara a partir do casamento. Os dois vieram de famílias que sempre cozinharam muito bem, mas não tinham esse hábito. Aos poucos, os dois foram se aproximando e se encantando pela culinária. “Funcionava como um refúgio para a correria do dia a dia”, lembra. Mas o pão só surgiu mais tarde: “Eu sempre tive medo, achava que era difícil e me afastei dessa experiência. Até que em outubro do ano passado eu resolvi fazer um workshop para aprender a fazer pão de fermentação natural. E foi depois desse curso que esse universo se abriu dentro da nossa cozinha. Para mim, o momento de fazer pão funciona como uma meditação. Principalmente na quarentena, pois enquanto estamos no preparo estabelecemos um diálogo com o alimento e com a gente mesmo. E no caso da fermentação natural é um fazer sem pressa, que vai encaixando o preparo no meio da rotina”, conta Karam.
Karam faz vários tipos de pães de fermentação natural, dentre eles, o 100% integral, o francês e a foccacia. “Recentemente comecei a aumentar a receita e entregar para alguns amigos. E essa experiência tem me mostrado o verdadeiro sentido do pão. A palavra companhia deriva do latim formada de com +panis e refere-se a pessoas que repartem o pão. Pode ser entendida com ‘vamos repartir o pão’ por isso acho tão bonito dividir e compartilhar e nesse momento é algo muito bonito e necessário. E é uma receita da humanidade, portanto distribuir o pão é muito bom”, diz Karam.
Uma forma de abraço
Maria Regina Soreano Valente da Silva, 61 anos, é viúva, tem três filhas e dois netos. Ela sempre gostou de cozinhar e de ter a casa cheia. “Eu nunca me dediquei a fazer pães, sempre fazia outros pratos. Era meu marido que fazia as massas e os pães em casa. Agora, com a pandemia, não estou mais saindo. Na primeira semana até comprei pão na padaria e congelei, mas quando acabou resolvi começar a fazer o nosso pão”, afirma.
Ela conta que começou com a receita de um quilo, depois aumentou para dois quilos e agora está fazendo três quilos semanalmente, que rendem em média doze pães. “Distribuo para as minhas filhas, sobrinhos, vizinhos. Criei um drive-thru de pães. Faço e já deixo tudo embalado. Distribuo também para as minhas vizinhas que sentem o cheiro. Uma delas é minha irmã e outra é uma grande amiga. Na quarentena tenho me sentido muito útil, pois o pão está presente na mesa do café da manhã e no café da tarde de várias casas dos meus amores”, diz.
Maria complementa: “A forma que eu tenho de demonstrar o meu amor, além do afeto físico, é cozinhando. Eu participo de um grupo chamado Panela do Bem que faz comida para moradores de rua e me sinto muito bem com isso. A energia que a gente coloca no alimento, principalmente quando você manipula com as mãos, é transformadora. Quando estou cozinhando vou pedindo mentalmente que aquela comida alimente o corpo físico e espiritual da pessoa que vai comer. “A comida é uma forma de dizer eu te amo. No momento, não posso abraçar as pessoas, então eu distribuo pão em forma de abraço”, declara.
Tarefa de pai e filho
O funcionário público Vagner Melo, 48 anos, nunca havia feito pão. Mas, a chegada da quarentena o levou para a cozinha para experimentar diferentes receitas com o filho Miguel, 9 anos. “Começamos fazendo pães simples para o café da manhã em casa e tivemos a aprovação da minha esposa Nívia e da filha dela Bárbara. Como as receitas foram dando certo fomos ficando mais ousados. Na última fornada fizemos uma nova receita com pães recheados com linguiça de pernil e também uma versão com goiabada cascão. Ficou muito bom”, salienta.
Wagner conta que o filho adora ajudar a amassar o pão. “Se tem algo de bom que essa fase da quarentena nos trouxe foi uma proximidade maior e união familiar. A gente cozinha junto, escolhe o que vamos fazer. Tenho sentido que é um momento de estarmos mais próximos e unidos. Acredito que descobrimos um novo talento que veio para ficar”, aposta.
 
 
Da cerveja para os pães
O engenheiro de alimentos Alfeu Julio, cervejeiro e sócio da Toca da Mangava, sempre teve como hobbie fazer pães em casa. “A fermentação sempre me fascinou e sempre tentei desenvolver um levain. Estou aproveitando o tempo de quarentena que diminuiu a produção de cerveja para me aventurar na arte de fazer pão. Faço em casa para compartilhar com a minha esposa e meus dois filhos”, relata.
Alfeu conta que participa de um grupo de amigos que estudaram com ele na Unicamp e vários deles começaram a fazer pães nesta quarentena. “Pão de fermentação natural é um exercício de paciência, pois depende da ação das leveduras. Cerveja e pão sempre me atraíram, pois são consumidos reunindo as pessoas, celebrando a vida”, conclui.

Escrito por:

Kátia Camargo