Publicado 26/05/2020 - 13h45 - Atualizado 26/05/2020 - 13h45

Por Carlos Rodrigues

Com grandes campanhas à frente de Guarani e Ponte Preta, o técnico Vadão marcou seu nome na história do futebol campineiro: Mister Dérbi

Cedoc/RAC

Com grandes campanhas à frente de Guarani e Ponte Preta, o técnico Vadão marcou seu nome na história do futebol campineiro: Mister Dérbi

O futebol brasileiro está de luto! Faleceu ontem Oswaldo Alvarez, o Vadão, técnico com passagens marcantes por várias equipes, entre elas Guarani e Ponte Preta. Aos 63 anos, ele lutava contra um câncer no fígado diagnosticado no início do ano. Vadão estava internado na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, há quase duas semanas.
Nascido em Monte Azul em 21 de agosto de 1956, Oswaldo Alvarez tentou carreira como jogador, inclusive passando pelas categorias de base do Guarani, mas foi à beira do gramado que fez história. E é impossível não associar seu nome aos dois clubes de Campinas. Primeiro porque ele não é chamado de 'Mister Dérbi' à toa. Vadão participou nove vezes do clássico e nunca perdeu. Foram cinco vitórias (quatro pelo Guarani e uma pela Ponte) e quatro empates (três pela Macaca e um pelo Bugre).
Pelo Guarani, foram cinco passagens, com 204 partidas e o terceiro lugar no ranking dos treinadores que mais dirigiram a equipe. Após uma trajetória discreta em 1995, Vadão assumiu o Guarani em 1997 com a missão de tentar salvar o time do rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Com três vitórias — uma delas sobre o futuro campeão Vasco — e dois empates, manteve a equipe na elite. Ele deixaria o cargo só no final do ano seguinte, alcançando uma sequência única na gestão do presidente Beto Zini.
O reencontro com o Brinco de Ouro aconteceria mais de uma década depois, quando Vadão topou o desafio de dirigir o Bugre na Série B. Apesar das desconfianças em relação ao elenco, o Guarani teve uma regularidade impressionante, passou as 38 rodadas dentro do G4 e comemorou o retorno à primeira divisão com a segunda posição.
A quarta passagem do treinador pelo clube aconteceu em 2012. Com um plantel montado às pressas, mais uma vez ninguém dava muito pelo time no Campeonato Paulista. Mas a resposta veio dentro de campo, primeiro com a classificação para as quartas de final. No mata-mata, vitórias sobre o Palmeiras e depois o histórico 3 a 1 no Dérbi. Na decisão, o Guarani não conseguiu segurar o Santos de Neymar, mas o prêmio de melhor treinador valorizou todo o trabalho de Vadão.
A última vez que o técnico comandou o Bugre foi em 2017, porém dessa vez a relação durou apenas três meses. Após uma campanha de recuperação na Série A2, o time iniciou bem a Série B, mas uma queda de rendimento entre o final do primeiro turno e o início do segundo turno abreviou o trabalho e colocou um ponto final na história de Vadão com o Guarani.
Na outra ponta da Avenida Ayrton Senna da Silva, Oswaldo Alvarez também deixou sua marca. Pela Ponte Preta, foram quatro passagens. A primeira entre 2001 e 2002 registrou um momento inesquecível para o torcedor. Foi em outubro de 2002, quando a Macaca acabou com um tabu de 15 anos ao derrotar, de virada, o rival Guarani em pleno Brinco de Ouro.
Em 2005, a Ponte surpreendia no Brasileiro e chegou a liderar por oito rodadas, mas Vadão recebeu uma proposta irrecusável do Verdy Tokyo, do Japão, e deixou o clube para se aventurar naquela que foi sua única experiência fora do País. Quando voltou ao Brasil, o treinador aceitou a proposta da Macaca, mas dessa vez o trabalho teve curta duração por conta dos maus resultados.
A última vez passagem de Oswaldo Alvarez pelo Moisés Lucarelli foi em 2014. Ele chegou com o time passando por mais bocados no Paulista, mas liderou a equipe que escapou do rebaixamento e ainda garantiu vaga nas quartas de final. Vadão deixaria o Majestoso às vésperas do início da Série B ao receber o convite da CBF para dirigir a Seleção Brasileira Feminina.
DEPOIMENTOS
"O futebol brasileiro perde um grande profissional e um grande homem que me ajudou muito no início da minha carreira. Aprendi bastante com ele. Que Deus conforte os familiares neste momento tão difícil." (Rivaldo, ex-atacante)
"Minha eterna gratidão ao Vadão por ter aberto as portas para um garoto que ninguém conhecia e poucos acreditavam. Mas ele acreditou, me ensinou e me deu oportunidade para que eu pudesse voar. Hoje o dia é de muita tristeza, mas as lembranças que guardo no meu coração são de muitas alegrias. Descanse em paz, meu amigo." (Kaká, ex-meia do São Paulo)
"No Guarani, Vadão fez um trabalho muito importante, principalmente em 1997, em que grandes clubes do futebol brasileiro caíram. Ele não foi apenas um grande técnico, mas também um grande amigo. Tínhamos um ótimo relacionamento e me ajudou muito, indicando Robson Ponte, por exemplo. Era um cara muito direito, íntegro, que cumpria rigorosamente seus contratos. Só posso agradecer por tudo que fez para o clube e pela nossa amizade" (Beto Zini, ex-presidente do Guarani)
"Perdemos um cara fantástico, humilde, simples e, acima de tudo, um vencedor na profissão e na vida. Ele deixou um legado por todos os clubes que passou. Sou muito grato, pois foi importante na minha trajetória, principalmente no meu retorno ao Guarani, em 2012, quando fizemos uma campanha maravilhosa no Paulistão. Deixo aqui os meus sentimentos aos familiares e as pessoas mais próximas. É um momento de tristeza. Que Deus possa confortar o coração de todos." (Fumagalli, ex-meia do Guarani)
“É uma perda enorme, tanto para o mundo da bola quanto para todos que conheceram o ser humano Vadão, uma pessoa muito querida e dedicada. A Ponte Preta está entristecida e se solidariza com toda a família e amigos. Fará falta dentro dos campos e fora deles” (Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, presidente da Ponte Preta)
"Vá em paz, professor. Sua missão nessa terra você cumpriu e com muito êxito. Desconheço qualquer ser humano igual. Você soube viver a vida de maneira digna e honesta, orgulho demais de ter vivido momentos maravilhosos ao seu lado" (Marta, atacante do Brasil)
"Eu era muito amigo do Vadão, que foi meu treinador duas vezes, uma no início e outra quase no fim da minha carreira. Tive até a oportunidade de ser capitão com ele no comando.A gente tinha várias conversas e pude aprender muito com sua maneira de tratar as pessoas, a sua fé e humildade." (Adrianinho, ex-meia da Ponte)
"Vadão era uma pessoa única, especial, conciliadora, de sensibilidade única, honestidade absoluta e caráter incrível. Um treinador de qualidades incríveis, que gostava do futebol romântico e bem jogado. Foi um cara que lançou Rivaldo e Kaká, que coordenou o trabalho da seleção feminina, com Marta e Cristiane, e insistiu para que a Formiga voltasse a jogar." (Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF)
Treinador revelou Rivaldo e Kaká e conquistou títulos
Apesar de ter feito história em Guarani e Ponte Preta, a vitoriosa carreira de Oswaldo Alvarez não se resume ao futebol campineiro. Vadão comandou outros clubes pelo País e também deixou sua marca, seja com títulos ou então por revelar craques do nosso futebol. Na reta final da carreira, também recebeu a oportunidade de trabalhar com a Seleção Brasileira Feminina. Por clubes, as principais conquistas são a Série C de 1995 pelo XV de Piracicaba, o Paranaense de 2000 pelo Athletico, o Rio-São Paulo de 2001 pelo São Paulo e o Catarinense de 2013 pelo Criciúma.
Uma das grandes marcas na carreira foi o 'Carrossel Caipira'. O apelido descontraído dado ao Mogi Mirim do início da década de 90 pelo futebol leve e envolvente teve o dedo de Vadão, ainda como um principiante na função. Com o trio formado por Rivaldo, Leto e Válber, o time encantou e rendeu comparações com a Holanda de 1974.
Vadão voltaria a lapidar uma joia rara em 2001, quando estava no São Paulo e promoveu aos profissionais um menino franzino que ainda era chamado de 'Cacá'. Com dois gols decisivos na final do Torneio Rio-São Paulo, o garoto logo trocou o C pelo K, virou Kaká e explodiu, se tornando em 2007 o melhor jogador do Mundo.
Na seleção feminina, conquistou duas Copas América (2014 e 2018), o ouro no Pan de Toronto em 2015 e o 4° lugar na Olimpíada do Rio-2016.

Escrito por:

Carlos Rodrigues