Publicado 20/05/2020 - 15h04 - Atualizado 20/05/2020 - 15h04

Por Aquiles Reis

Um banquete musical servido por dois ótimos cantores

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Um banquete musical servido por dois ótimos cantores

O dia de hoje é dedicado a um CD que me causou arrepios: Acaso Casa – ao Vivo (Biscoito Fino). Dois cantores, um homem e uma mulher, com vozes muito parecidas. Ela, Mariene de Castro, com timbre de contralto, ressalta a força da mulher baiana; e ele, Almério, com o timbre bem agudo, característico dos tenorinos. Ambos brilham na cena musical atual.
Baiana de Salvador, Mariene Costa é uma cantora com qualidade suficiente para a considerarmos com recursos de uma veterana. Acaso Casa - ao Vivo é o seu sexto disco gravado.
Já Almério, pernambucano de Altinho, tem três discos – o trabalho em parceria com Mariene é o seu quarto CD. Mas, assim como ela, ao ouvi-lo tem-se a certeza de que seus predicados são de um profissional cujo canto exprime uma voz misteriosa, quase feminina.
Concebido e dirigido por José Maurício Machline, o álbum conta com três instrumentistas: Pedro Franco (violão e bandolim), Juliano Holanda (violão) e Gel Barbosa (acordeom).
O repertório é digno de um banquete, o que nos faz ouvi-lo na expectativa constante do próximo prato. Músicas servidas em baixelas de prata, plenas de sempre finas iguarias. Cada uma delas é um rango de fino paladar.
Meu Deus, como ficar quieto enquanto rola a primeira faixa, com duas músicas: Avesso (Ceumar e Alice Ruiz) / Vai Dar Namoro (Chico Amado e Dedé Badaró). Pelas vozes de Mariene e Almério, começa a cantiga. Ela vem arritmo. A melodia é de arrepiar – frisson que se manterá ao longo do disco. Quanta coisa bonita, meu Deus!
Lamento Sertanejo (forró de Dominguinhos, dele e Gilberto Gil), um lamento de doer os ossos. A sanfona resfolega. O violão garante a harmonia. O suingue é contagiante. Almério e Mariene aboiam. O couro come.
E logo vem outro prato, com sabor de música boa. Na Primeira Manhã (Alceu Valença) soa sob o comando de Almério. Quem ama essa música, como eu, se arrepia com um grito lancinante do cantor – é de cortar os pulsos.
A levada do violão deixa que a pisada cresça. Em Boiadeiro (Armando Cavalcanti e Klecius Caldas), violão e sanfona acompanham Mariene e Almério. Juntos, eles multiplicam a beleza da música por dois. Parece que nasceram para cantar em parceria.
Com belo arranjo, a pisada volta a dar as caras em Pau de Arara (Guio de Moraes e Luiz Gonzaga). E como é bom ouvi-la. Novamente, sanfona e violão seguram a onda para Almério e Mariene brilharem. Que música bonita!
Agora é a vez de Mariene e Almério darem vida nova ao sucesso de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, Estrada de Canindé. Uma intro delicada da sanfona antecede a interpretação de quem sabe compartilhar a emoção.
E Almério vem com um blues desassossegado. Sua versão para o baião Respeita Januário (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) é qualquer coisa de arrepiante – gabo a inquietude do cantor.
Movido por uma emoção avassaladora, fecho a porta da angústia para louvar a arte. A arte profunda. A arte digna de ser protegida por uma lágrima.

Escrito por:

Aquiles Reis