Publicado 13/05/2020 - 15h10 - Atualizado 13/05/2020 - 15h10

Por Aquiles Reis

As intérpretes de Jacob do Bandolim

Divulgação

As intérpretes de Jacob do Bandolim

Há algum tempo eu ouço Daniela Spielmann tocar saxes e flauta em álbuns de alguns colegas. Mas foi em 2018, quando lançou o seu primeiro CD autoral, que tive a oportunidade de ouvi-la em detalhes – é um trabalho de responsa o dessa instrumentista que é Daniela Spielmann.
Àquela altura, ela tinha pouco mais de 20 anos de carreira, tempo bastante para que seus pares tivessem por ela grande respeito e admiração. De fato, o sopro de seus instrumentos faz dela uma exímia criadora de sons. A embocadura que dedica à sonoridade tanto da flauta quanto dos saxes dá aos instrumentos o ar da mais fina concepção.
Pois bem, passado algum tempo, eis que Daniela Spielmann lança agora um novo trabalho, Entre Mil... Você – Um tributo a Jacob do Bandolim (Kuarup), este em parceria com a pianista Sheila Zagury. Mais uma vez Zagury, pianista de formação erudita e jazzista, traz ao duo uma sonoridade que renova a visão estética do repertório de Jacob. Pois não é esta a primeira vez em que as duas musicistas ajuntam seus instrumentos: em 2007 elas lançaram o CD Brasileirinhas.
Desafio posto, as duas selecionaram nove composições de Jacob do Bandolim e duas de Sérgio Bittencourt, filho de Jacob – um repertório notável, que ganhou beleza com arranjos enobrecedores.
Um elenco de bons instrumentistas cuida de somar seus predicados ao piano de Zagury e aos saxes tenor e soprano e à flauta de Spielmann: lá estão Almir Côrtes (bandolim), Clarice Magalhães (pandeiro e caixa de fósforos), Roberta Valente (pandeiro), Catherine Bent (violoncelo), Rodrigo Villa (Baixos acústico e elétrico) e Xande Figueiredo (batera), além da participação singular da boa cantora Soraya Ravenle.
O tradicional Doce de Coco tem o sax abrindo com o desenho peculiar do choro de Jacob. O som dos saxes tem sutileza total. O cello se ajunta a eles. É quando Spielmann dobra os saxes.
O clássico Vibrações tem introdução de rara beleza. Respeitosamente, Sheila Zagury e Daniela Spielmann se deliciam com o fraseado do choro. O intermezzo tem cello e piano – perfeitos!
O Olho da Mosca vem suave. Sax e piano dão à melodia a força pensada por Jacob ao conceber o choro. Logo a agitação vem em forma de improviso do sax e do piano. Como se não bastasse, o couro come num affretando arretado... Mas não só um, pois logo a seguir vem outro, digamos, affretando do affretando.
Migalhas de Amor, talvez a mais linda composição de Jacob no repertório do disco. Apenas piano e cello tocam e se encaixam à perfeição, e pra que mais? O choro é lindo! Piano e cello se revezam: ora um, ora o outro solam, enquanto um ampara o outro. Os dois arrasam. O final é admirável.
Com arranjos, direção e produção de Sheila Zagury e Daniela Spielmann, o trabalho, de tão rico, é bem capaz de abrir um sorriso nos lábios de Jacob do Bandolim. E, por que não, também nos lábios do ouvinte que se pôs a ficar ouvindo o CD durante tardes de quarentena total.

Escrito por:

Aquiles Reis