Publicado 29/05/2020 - 11h43 - Atualizado 29/05/2020 - 11h43

Por Francisco Lima Neto

Avenida Francisco Glicério durante a pandemia

Leandro Ferreira/AAN

Avenida Francisco Glicério durante a pandemia

As medidas de flexibilização do isolamento social proposto pelo governo do estado e acatada pela Prefeitura de Campinas, que incluiu até a liberação do funcionamento de igrejas e restaurantes, não foram bem recebidas por profissionais médicos, que veem as medidas como precipitadas. De acordo com eles, a situação da taxa de transmissão do novo coronavírus pode ser agravada os próximos dias.
O infectologista André Bueno, que atua no Hospital da PUC-Campinas, disse que os profissionais estão receosos. "A gente sempre fica receoso pelo fato de os casos estarem em ascensão. Fico muito na dúvida se é o momento de programar a reabertura. O ideal seria esperar uma estabilização consistente ou queda dos casos. Não apenas de alguns dias, mas pelo menos umas duas semanas. Essa doença não dá para avaliar pontualmente", diz.
De acordo com ele, é preciso saber se a queda dos casos ou estabilização são uma tendência. "De um dia para o outro é difícil saber isso. É preciso observar os gráficos e ver se têm essa tendência. Os últimos boletins da Prefeitura mostram que teve aumento na taxa de ocupação dos leitos públicos e privados. Essa é a preocupação. Se a ocupação já está elevada, se a flexibilização aumentar o número de casos a gente pode chegar muito próximo da capacidade dos leitos ou até ficar sem leitos", argumenta o profissional.
A médica infectologista Raquel Stucchi, docente da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, concorda com o colega.
"Nenhum de nós da área da saúde é insensível às dificuldades econômicas. É muito séria a situação. São Mais de 60 dias que as pessoas estão privadas de trabalhar e conseguir seu dinheiro. Mas, para isso, deveria ter política governamental ágil para garantir a sobrevivência dessas pessoas", argumenta.
De acordo com ela, apesar desse período longo de quarentena, os casos têm crescido. "Nas últimas duas semanas, em toda a região teve aumento expressivo dos casos de coronavírus e a ocupação dos leitos em geral e dos leitos de UTI também cresceu. Por isso me causou estranheza essa decisão de reabertura e flexibilização", aponta.
Ela ainda relembra que a taxa de isolamento na cidade sempre esteve abaixo do ideal. "Aqui sempre estivemos abaixo dos 50%. Nossos próximos 14 dias já seriam muito difíceis se continuasse do jeito que estava. Com a flexibilização, pode ser que piore", avalia.
A infectologista não vê com bons olhos a decisão dos governantes. "Aqui em Campinas era o momento de dificultar ainda mais o trânsito de um lugar para o outro para diminuir o número de casos e transmissão vislumbrando o final do mês de junho.", diz.
"Não entendi a decisão. Não era o melhor caminho. Achei a medida um pouco precipitada. A taxa de ocupação dos leitos e as mortes na região têm subido O isolamento salvou muitas vidas. Sem ele estaríamos muito pior", conclui.
Frase
"Os efeitos da flexibilização serão sentidos em duas semanas. Se os casos aumentarem pode ter um colapso. Pacientes precisando de leito e não ter, o que chamamos de impossibilidade de acesso", André Bueno, infectologista do Hospital PUC-Campinas.

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Francisco Lima Neto