Publicado 17/05/2020 - 10h46 - Atualizado 17/05/2020 - 10h50

Por Gilson Rei

A periferia é o setor mais sujeito ao ataque da Covid-19, mas o risco também atinge outras populações: estudo é um retrato social de Campinas

Leandro Ferreira/AAN

A periferia é o setor mais sujeito ao ataque da Covid-19, mas o risco também atinge outras populações: estudo é um retrato social de Campinas

Uma nova ferramenta está disponibilizada para combater o coronavírus e servir para a adoção de medidas preventivas contra a pandemia. Pesquisadores do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) lançaram o “Mapeamento das Populações mais Vulneráveis ao Coronavírus e das Áreas de Risco de Campinas”.
O estudo está disponível no site do Nepo — www.nepo.unicamp.br — com mapas e indicativos que informam aspectos relevantes à comunidade campineira e às instituições públicas e privadas. O mapeamento publicado no site auxilia diretamente as pessoas que atuam na linha de frente do combate à doença, tanto na área médica quanto na área social e econômica.
A população e os locais mais vulneráveis à propagação da Covid-19 no município foram apontados pelos pesquisadores com base em dados do Censo e do Atlas sócio-demográfico da Diversidade Metropolitana, lançado pelo Nepo com mais de 30 indicadores sociais, econômicos e geográficos de Campinas e região.
Sete aspectos foram considerados: densidade demográfica; densidade de ocupação por imagem de satélite; assentamentos precários e favelas; pessoas com mais de 60 anos (grupo de risco); média de moradores por domicílio; número de banheiros por habitantes; e responsáveis pela casa com renda de meio a um salário mínimo.
O trabalho foi desenvolvido pela pesquisadora Dafne Sponchiado e pelos pesquisadores Livan Chiroma e Leandro Blanque Becceneri, acadêmicos que integram o grupo de estudos sobre “Diversidade na Periferia” do Nepo, coordenado pelo professor José Marcos Pinto da Cunha.
O mapeamento identifica as principais áreas de risco no município, sobrepondo as informações de densidade demográfica e de ocupação, idade e renda. “Espera-se que o material possa ser bem utilizado pelo poder público e pela sociedade civil organizada no combate à pandemia na cidade”, comentou a pesquisadora Dafne Sponchiado.
Densidades
O primeiro aspecto mostrado leva em consideração a quantidade de pessoas por hectare ao quadrado (ha²) em Campinas. Um local com alta concentração de pessoas facilita e acelera a transmissão do vírus nas cidades. As áreas acima de 400hab/ha² foram classificadas como de alta densidade demográfica, observadas no Centro expandido, na Região Sul (Vila Industrial, Ponte Preta, Guarani, Proença, entre outros bairros) e no Sudoeste (Distrito de Campo Grande e no Ouro Verde). Foi verificado que estas áreas mais propensas à disseminação do vírus são poucas e estão dispersas.
Outro aspecto é a densidade de ocupação (intensidade do uso do solo do território urbano). O Centro expandido apresenta também alta densidade de ocupação devido às edificações verticalizadas. Outras regiões do município apresentam alta densidade de ocupação por abrigarem um grande número de habitações precárias. É o caso da região do Campo Belo, do Campo Grande e do Ouro Verde.
Moradias
Um dos estudos mais importantes é o que identifica os assentamentos precários, que são áreas inadequadas, ocupadas por moradores de baixa renda. Nestes assentamentos estão cortiços, loteamentos irregulares e favelas, além dos conjuntos habitacionais degradados. São locais que apresentam-se de forma desordenada, com alta densidade populacional e carência de serviços públicos essenciais.
Em Campinas, a maior parte dos assentamentos precários e de favelas está concentrada no Distrito de Campo Grande, no Ouro Verde e na área no entorno do Aeroporto de Viracopos. É possível notar ainda manchas expressivas na Região Sul — Campo Belo e Parque Oziel —, e no bairro Eldorado dos Carajás, nas proximidades de Viracopos. Também há favelas e assentamentos precários no Distrito de Nova Aparecida e na Região Norte, que engloba os bairros São Marcos e Santa Mônica, porém bem menos expressivas que as notadas na Região Sul.
Dados sobre o número de pessoas em uma casa — que mostra o adensamento da habitação e as possibilidades ou dificuldades quanto ao isolamento — revelam que a área do Centro apresenta a menor média de moradores por domicílios, de 2 a 3. Já os bairros do Centro expandido indicam a média de 3 a 4 moradores. Ao longo do Distrito de Campo Grande e no Ouro Verde a média de moradores atinge de 4 a 6 indivíduos por domicílio.
Estes dados revelam que o isolamento vertical seria pouco efetivo em Campinas, uma vez que bairros com população de maior renda e bairros com população de baixa renda apresentam média elevada de moradores por domicílio.
Idosos e higiene
Outro aspecto é a concentração de pessoas com mais de 60 anos (grupo de risco). Em Campinas, algumas regiões se destacam por apresentarem um maior contingente populacional nesta faixa etária. Áreas do Distrito de Campo Grande e no Ouro Verde têm entre 33% e 99% da população acima dos 60 anos. Também podem ser destacados o Centro e os bairros Cambuí, Flamboyant, Castelo, Taquaral e Vila Nova.
O número de banheiros por habitantes é outro indicador importante, que mostra o número médio de banheiros disponíveis para as pessoas que vivem em uma casa em Campinas. É importante porque a ausência ou o número reduzido de banheiros dificulta a adoção das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação à higienização básica contra a propagação da Covid-19.
A região rural de Campinas é a mais vulnerável em relação a este indicador de higiene. Além da área rural, é preocupante também a região do Ouro Verde, o Distrito de Campo Grande e as áreas do Campo Belo e no entorno de Viracopos, localidades que têm poucos banheiros. A maior parte do município de Campinas é caracterizada por domicílios que têm entre 1 e 2 banheiros por habitante, principalmente nos distritos de Sousas, Barão Geraldo e bairros adjacentes ao Centro, como Cambuí e Nova Campinas.
Renda
O sétimo aspecto é relacionado à renda da pessoa responsável pela casa, que é um indicador crítico, uma vez que mostra suas possibilidades financeiras, sendo um ponto importante em um período de crise no qual os rendimentos são menores ou inexistem. O mapa mostra a proporção de pessoas que ganhava de meio a um salário mínimo em 2010, ou seja, pessoas em situação de vulnerabilidade social. Esses grupos se localizam em bairros da periferia.
Há um cordão que concentra a população de baixa renda na região Sudoeste e em alguns bairros que compõem o Distrito de Campo Grande. No extremo Sul da cidade, a região do Campo Belo também tem uma alta concentração de responsáveis pelo domicílio com rendimentos entre meio e um salário mínimo. A área correspondente à região do bairro Cidade Satélite Iris apresenta a mesma característica.
Na Região Noroeste, as áreas mais vulneráveis se encontram no Distrito de Nova Aparecida e no Residencial Padre Anchieta. Já na Região Norte, os bolsões de pobreza se localizam nas regiões dos bairros São Marcos e Santa Mônica e na área rural do Distrito de Barão Geraldo.
Estudo visa direcionar ações práticas, diz pesquisador
O trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp foi focado exclusivamente para auxílio no combate à pandemia. Segundo a pesquisadora Dafne Sponchiado, a iniciativa teve como objetivo maior fornecer subsídios e dados para Campinas no combate ao coronavírus, já que o município é um importante centro e exerce uma influência regional.
“Campinas ainda tem uma distribuição de renda muito desigual, o que nos alertou que poderíamos encontrar várias áreas de risco”, comentou a pesquisadora.
Dafne destacou a importância de fornecer dados técnicos. “Fazemos parte de um grupo de pesquisa sobre a diversidade na periferia de Campinas. Já tínhamos familiaridade com as bases de dados e os procedimentos técnicos. O estudo foi pensado para ser divulgado amplamente com linguagem acessível, diferente dos trabalhos mais acadêmicos”, afirmou Dafne.
Leandro Becceneri, que também trabalhou na pesquisa, reforçou a necessidade de apresentar informações científicas de forma simples e fácil para a população. “O objetivo foi também de mostrar ao poder público e à sociedade civil organizada quais são as áreas de risco para o espalhamento da Covid-19”, afirmou. “Por estarmos numa região metropolitana com intensos movimentos populacionais, conhecer as áreas de risco da cidade principal é fundamental para planejar ações, assim como para auxiliar na tomada de decisões por parte do poder público”, disse.
O pesquisador Livan Chiroma afirmou que o mapeamento será uma ferramente útil neste momento de pandemia. “O trabalho visa colaborar na reflexão do momento sob o ponto de vista dos estudos populacionais e orientar ações práticas, nos locais cartograficamente mais adequados. Como pesquisador das religiões, por exemplo, vejo que as igrejas evangélicas pentecostais são mais presentes na periferia e neste momento sustentam importantes redes para a circulação de ativos”, destacou. 

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Gilson Rei