Publicado 13/04/2020 - 18h06 - Atualizado 13/04/2020 - 18h06

Por Adriana Menezes

Eliane Jocelaine Pereira é servidora pública há 22 anos

Carlos Bassan/AAN

Eliane Jocelaine Pereira é servidora pública há 22 anos

Disseminada em praticamente todos os países reconhecidos pela ONU (Organização das Nações Unidas), a Covid-19 pegou o mundo de sobressalto. Já passam de 1 milhão os infectados e milhares de mortos. Líderes de todos os continentes articulam ações de enfrentamento ao coronavírus, com políticas públicas em sua maioria severas, no sentido de conter o avanço da contaminação. Na ciência, pesquisadores aceleram a busca por respostas e cura. Na esfera municipal, destacam-se três lideranças femininas que estão na linha de frente do combate, todas elas em cargos técnicos com ingerência direta sobre as decisões que definem as condições atuais e futuras da população: Eliane Jocelaine Pereira, secretária municipal de Assistência Social; Andrea von Zuben, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas; e Valéria Almeida, coordenadora da Vigilância Epidemiológica do município.
No cenário mundial, há importantes protagonistas nesta batalha contra a pandemia, entre elas a chanceler alemã, Angela Merkel, a primeira mulher a exercer o cargo no país, pelo qual ela comanda – com sucesso - todas as decisões relacionadas ao vírus. A primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, a mais jovem a exercer o cargo, aos 37 anos, também está à frente das decisões em seu país. Outras duas mulheres poderosas assumiram postos de comando na guerra ao Covid-19: Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia; e a médica indiana Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde).
No cenário municipal, as três servidoras públicas de Campinas que se destacam em seus desempenhos – Eliane, Andrea e Valéria - participam, junto com o prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), e todo o secretariado e lideranças (em sua maioria masculina), de reuniões decisórias e de “lives” nas redes sociais que se tornaram corriqueiras neste período de quarentena decretado pelo poder municipal. Conheça um pouco das trajetórias destas mulheres que têm dedicado muito mais que tempo no trabalho de combate ao coronavírus.
Assistência Social
Servidora pública há 22 anos, Eliane Jocelaine Pereira começou a trabalhar na Prefeitura de Campinas aos 18 anos, passando pela Sanasa e por diversas secretarias, como Finanças, Saúde e Jurídico. Formada em Direito, Eliane adquiriu nessa trajetória grande conhecimento da máquina pública. Em 2017, assumiu a Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos. Mãe de três filhos adotivos, de 10, 15 e 18 anos, Eliane mora com a mãe, que tem lhe ajudado nesta fase de aulas escolares suspensas.
“O momento agora exige maior disciplina e eu tenho orientado todos a criarem uma rotina. Eles acordam cedo, eu divido as tarefas pela manhã e fico acompanhando da Prefeitura. Minha mãe é idosa, portanto não sai. Eu faço a compra de supermercado. Há mulheres que nem podem contar com a ajuda que eu tenho. Não é fácil. Meu filho de 10 anos tem muita energia, é preciso muita criatividade para lidar com isso”, diz bem-humorada.
“Existe uma sobrecarga para a mulher que faz jornada tripla, isso gera angústia e não está restrito à classe A ou B, é para todas as mulheres”, afirma a secretária. “O arquétipo da mulher que cuida é muito forte na política de assistência social. A Secretaria é formada em sua maioria por mulheres”, afirma Eliane. “Trabalhamos com três políticas públicas: Direitos Humanos, Assistência Social e Segurança Alimentar, e todas dialogam com o conceito da interdependência, que entende que, além da responsabilidade do Estado, precisa haver participação da sociedade, porque os agravos sociais são fruto da estrutura desigual”, explica a secretária. Neste período, Eliane tem trabalhado mais de 12 horas por dia e administra, diretamente, todo o trabalho assistencial a vulneráveis e pessoas em situação de rua da cidade.
Vigilância em Saúde
A médica veterinária Andrea von Zuben, doutora em epidemiologia de doenças transmissíveis, trabalha na Vigilância Sanitária de Campinas desde 2000. Nestes 20 anos, já enfrentou epidemia de dengue e de zika, por exemplo. Nos últimos quatro anos atua no controle de todas as doenças liderando o Departamento de Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde. Andrea comanda 300 funcionários e está à frente da gigantesca batalha que se trava hoje contra o coronavírus. “Desde que a pandemia começou, nós nos dividimos em muitas frentes de trabalho, desde a avaliação dos casos, os riscos, a comunicação pelo site e a preparação da rede de Saúde para o que pode vir, como leitos de UTI e como devemos fazer a quarentena”, explica Andrea. “Estamos trabalhando 24 horas por dia, falando com todos os hospitais diariamente no controle do que acontece na cidade.”
Andrea sai de casa às 7h e vai para a Prefeitura, onde não sai antes de escurecer. Mãe de dois adolescentes, de 14 e 16 anos, ela tem contado com a ajuda da sua mãe. “Meus filhos estão sem aula e eu estou sem ajudante em casa. Trago minha comida para o trabalho e almoço na minha mesa, em vinte minutos. À noite, preciso estudar e ver e-mails, porque durante o dia temos muitas reuniões, as “lives”, e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo”, descreve Andrea. “Nosso trabalho quintuplicou, há muito mais demanda da imprensa, e tem muita tensão e responsabilidade. Este é o maior desafio da minha vida profissional, sem dúvida nenhuma.”
Segundo a diretora, nestas circunstâncias ela tenta manter-se serena. “Se eu me irritar, posso colocar minha equipe no mesmo estado. Afinal, é uma cidade de 1,2 milhão de habitantes. Há dias que são mais difíceis, mas estou muito feliz com a oportunidade. O desafio me move e eu encaro como uma missão.” Andrea comanda uma equipe formada por 80% de mulheres, “que não medem esforços”. “Tenho muito orgulho da minha equipe, que tem me dado gratas surpresas”, afirma a diretora.
Infectologista
Eliane Jocelaine Pereira é servidora pública há 22 anos
A médica infectologista Valéria Almeida é coordenadora da Vigilância Epidemiológica do Município de Campinas. Casada e mãe de uma filha de 9 anos, Valéria assumiu em novembro de 2019 a sua atual função, mas é servidora pública concursada desde 1998, período no qual já coordenou o Ambulatório de Aids. “Sempre tive a consciência de que nós mulheres podemos ocupar qualquer espaço. Tem de ser assim”, defende Valéria, que lembra que na Saúde há uma forte predominância do sexo feminino. “A força feminina é muito grande na Saúde. Mas é preciso ser muito polivalente e ter flexibilidade, por isso as lideranças ficam mais difíceis e menos comuns para as mulheres, porque o homem não ocupa como deveria os espaços da casa e dos filhos, uma vez que a mulher ocupa estes espaços para ele. Assim eles ficam mais disponíveis”, afirma a médica.
Segundo Valéria, ela conta com o apoio do marido nos cuidados da filha e da casa. “No meio da pandemia, sou demandada diariamente. Cada dia meu parece que dura dez dias, de tanta decisão que temos de tomar rapidamente. Tem sido uma dinâmica muito intensa”, descreve. Nesse período, a médica também conta com a ajuda dos pais. “Fico o dia todo fora. Fui fazer lição com minha filha no sábado, mas meu marido tem feito com ela. Arranjei um celular para falar com ela durante o dia. Acordo às 5h, atualizo informações, logo cedo temos reunião. É o dia inteiro, no final avaliamos o dia, e à noite também acontece muita coisa. E estamos só no começo.” Valéria elogia a atuação da equipe e diz que há também mulheres líderes à frente dos hospitais. “É desafiador. Preciso realmente ter coragem e disponibilidade.”

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Adriana Menezes