Publicado 02/04/2020 - 12h50 - Atualizado 02/04/2020 - 12h50

Por Cláudia Antonelli

Coroação

Divulgação

Coroação

Sabemos que o nome corona vem do formato microscópico deste vírus, que se assemelha ao de uma coroa. Desta vez, porém, a coroação não é de ninguém de nossa bélica, narcísica e arrogante espécie humana. É de um vírus.
O colega Christian Dunker escreveu em algum lugar:
“Do ponto de vista de nossa angústia, o Coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão (...) e que convoca a uma experiência escassa em nossa época: a humildade. Diante desta pequena e destrutiva força da natureza, nosso narcisismo se dobra como um vassalo encurralado. (...).”
A palavra coroação é interessante. Tem nela coro: uma voz única fruto de várias vozes juntas – todas as vozes do mundo; tem coração, e tem ação. Ela ilustra muito bem este momento.
O início de uma Reclusão
Terça-feira à tarde fui fazer as unhas. Disse à Dalma, quando me perguntou que cor eu iria passar: “Quero uma que dure até sábado! Vou a São Paulo participar de um colóquio, não terei tempo de fazê-las novamente até lá.”
- “Então já sei, disse ela. Passe este por baixo e este brilho por cima, te garanto que até sábado dura. Não era exatamente a cor que eu teria escolhido (e com um brilho por cima) mas, iria durar até sábado. Era tudo o que importava.
Sexta-feira, tudo foi cancelado. O evento, o jantar entre os colegas e amigos, as mesas de debates, as reuniões. O esmalte de fato durou, e o tanque do carro que eu havia completado com gasolina desta vez para não precisar reabastecer nem na ida nem na volta, também permanece cheio até hoje.
Não digo nenhuma novidade. Todos viveram isto: a mudança brusca, repentina, desavisada e implacável – sem negociação, de uma espécie invisível aos nossos olhos nus.
Diário de um isolamento
Durante os primeiros dias eu acordava com aquela fração de instante que costumamos ter ao acordar de um sonho ruim, buscando a confirmação de que havia sido só um sonho ruim. Mas no instante imediato seguinte, a realidade se impunha: não havia sido um sonho. Mais um dia, sob a ameaça de um vírus, somente começava.
Por sorte tenho a possibilidade de enviar este artigo à editora desta coluna por vias digitais - geralmente já é assim, segue sendo assim. Mas aproveito e lhe envio também um abraço, Delma Medeiros. Percebo que este momento nos mobiliza afetivamente.
Ocupo-me em pensar o que se passa nas mentes neste momento. Em nossas mentes recrutadas a cuidar de uma situação sem precedentes, sem aviso prévio, sem garantias. Convoca-nos a pensar cada gesto, cada movimento, cada saída de casa (quando ainda possível). Tudo deve ser estratégico. Nossos esforços físicos, psíquicos, sociais, financeiros, logísticos – em suma, de todas as naturezas – estão sob tensão. Sofremos todos um imenso desgaste que, certamente, terá consequências. Algumas boas, outras não.
Percebo também que é difícil escrever nestes tempos. Qualquer escolha que eu faça (do que dizer) deixará de fora dezenas de outras situações. Como por exemplo, dos colegas italianos e espanhóis; ou dos brasileiros sem-teto, ou das comunidades carentes, ou dos que estão morrendo sozinhos em suas casas ou internações; ou das centenas de médicos na linha de frente desta guerra, tentando salvar vidas e colocando em maior risco suas próprias.
E ainda me dou conta: de que partes de nossa mente já se mantinham de alguma forma, em isolamento - em quarentena crônica, afastadas de outras realidades. Como a realidade da dependência que temos de cada um de nós no mundo; da dependência que temos dos nossos sistemas de saúde; da realidade da dor e do desamparo – alheios e próprios; da existência de diversas pessoas queridas as quais nos procuram neste momento, ou as quais procuramos.
É complicada nossa espécie humana. Ao mesmo tempo em que nos dobramos diante de um vírus que impiedosamente nos avassala, os sinos também dobram por todos nós, disse-nos Hemingway (1940). Foi durante a terrível guerra civil espanhola que escreveu isto, em seu livro, Por quem os sinos dobram. Os sinos dobram por você - por cada um de nós, disse-nos ele.
Em uma mistura de fé e resignação necessárias, seguimos. Nem reis nem vassalos, nem senhores nem súditos, somente humanos, simplesmente humanos. Seguimos construindo – somente assim será possível - o caminho para fora desta pandemia, daqui a algum tempo. Que, imagino tenha-nos ficado claro, depende da ação de cada um. Sempre foi assim, mas agora o vírus-rei faz-nos enxergar esta verdade com magnitude. Um pode contaminar o mundo; um pode também salvá-lo.
Mas, entrementes, toda a vida que você tem ou terá se resume em hoje, esta noite, amanhã – hoje, esta noite, amanhã, e é aproveitá-la e dar-se por feliz.”, conclui Hemingway em seu livro, e eu, esta coluna de hoje.
(Continua dia 30/04/2020).

Escrito por:

Cláudia Antonelli