Publicado 09/04/2020 - 07h50 - Atualizado 09/04/2020 - 07h51

Por Tote Nunes

Hospital de campanha corre o risco de nem existir

Divulgação

Hospital de campanha corre o risco de nem existir

Anunciado no dia 26 de março como importante ação de enfrentamento da pandemia do coronavírus em Campinas, o projeto de instalação de um hospital de campanha no Ginásio de Esportes da Unicamp corre o risco de acabar antes mesmo de entrar em operação. Por meio de uma nota, a reitoria da universidade informou ontem à ONG Expedicionários da Saúde (EDS) — que iria montar o equipamento — que o projeto estava sendo desativado. O motivo: falta de quem fizesse a gestão. A Unicamp disse que não conseguiria administrar o hospital.
O serviço de triagem de pacientes com suspeita de contaminação que foi implantado pela ONG em tendas próximas ao HC, porém, continua em operação e deve permanecer assim pelos próximos meses. A ONG afirma que sua tarefa era apenas a de montar a estrutura do Hospital de Campanha, algo que seria feito por meio de doações. Mas garante que nunca cogitou administrar o equipamento. “Desde o primeiro momento, dissemos que a gente iria montar a bicicleta, mas eles é que iriam pedalar”, disse ontem o chefe de operações da EDS, Luis Francisco Macedo. “Só que ontem (anteontem), recebemos um comunicado da reitoria dizendo que não estávamos mais autorizados a fazer qualquer intervenção no Ginásio.”
O Ginásio Multidisciplinar seria preparado para receber ao menos 30 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs). “Nossa pretensão era a de que até o final desta semana, pudéssemos colocar 18 leitos em operação e a cada 10 dias, acrescentar mais 18”, disse Macedo.
A proposta entregue à universidade previa a montagem do Hospital de Campanha no Ginásio Multidisciplinar com seis barracas contendo 18 módulos de um leito cada, totalizando 108 leitos. Cada módulo individual para paciente contaria com uma maca e um painel com tomadas elétricas, saídas de gases e iluminação. Além disso, exaustores individuais iriam garantir a manutenção de pressão negativa nos módulos, com troca completa do ar a cada 3 minutos.
Ao definir o projeto de parceria, a ONG informava que já havia adquirido o material e contratado a mão de obra para a fabricação de 6 barracas com os 18 módulos cada. Também já haviam sido adquiridos leitos-maca e leitos normais, além de colchões, entre outros equipamentos. Macedo diz estar desapontado. “Na verdade, estou estressado. Esse tipo de situação, que envolve órgãos públicos, interesses políticos, é praxe acontecer isso. É muita gente querendo aparecer”, disse.
A reitoria da Unicamp se pronunciou por meio de nota. “Com relação ao anunciado Hospital de Campanha, a Unicamp informa que somente havia conversado preliminarmente sobre possíveis espaços para ajudar a viabilizar esse projeto, mas que por diversos motivos chegou à conclusão que não poderá oferecer o ginásio para a construção desse importante equipamento”, afirmou o reitor Marcelo Knobel na nota distribuída à imprensa.
No comunicado o reitor lembra que o HC é um hospital terciário, que atende casos de altíssima complexidade e referência para duas grandes regiões de saúde totalizando uma população de aproximadamente 6 milhões de habitantes. “Considerando este papel já desempenhado dentro da rede de assistência à saúde regional, o HC é uma importante referência para pacientes graves no enfrentamento à pandemia de Covid19, concentrando todos os seus esforços, suas equipes multiprofissionais especializadas e sua estrutura para oferecer o melhor atendimento à esses pacientes”, finaliza a nota.
Jonas diz que Administração poderá ‘abraçar a ideia’
O prefeito Jonas Donizette (PSB) disse ontem que a Prefeitura pretende colocar o Hospital de Campanha em funcionamento. “Se a Unicamp não abraçar a Prefeitura vai abraçar”, disse ele, ontem em entrevista coletiva. “Mas ainda eu quero ver se consigo reverter esse processo, porque esse é o momento de a gente trabalhar junto”.
O secretário de Saúde Carmino de Souza também disse contar com o hospital de campanha. “Sabemos que existe um custo para a gestão, mas reconhecemos que ele é necessário”, disse o secretário. “Talvez quando a gente estiver com toda a estrutura montada, e o hospital de campanha faz parte disso, a gente possa começar a nos mover no sentido de reduzir as restrições de deslocamentos das pessoas”, disse. “O Estado gastou R$ 35 milhões para montar o hospital de campanha e nós estamos recebendo isso de graça”, pondera.

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