Publicado 18/03/2020 - 08h17 - Atualizado 18/03/2020 - 08h18

Por Estadão Conteudo

Ministro Mandetta, afirmou:

Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Ministro Mandetta, afirmou: "Em quase 300 casos, tivemos o primeiro óbito, mas amanhã podem ser seis"

A primeira vítima fatal da covid-19 no Brasil — um homem de 62 anos, que morava em São Paulo — morreu em decorrência de transmissão comunitária do vírus e do agravamento rápido no quadro de saúde. O paulistano tinha diabetes e hipertensão. Estava internado no hospital privado Sancta Maggiore, da rede PreventSenior, no Paraíso, zona Sul da capital. O secretário de Saúde do Estado de São Paulo, José Henrique Germann, e o infectologista David Uip, que coordena o comitê estadual para crise do coronavírus, afirmaram que o mesmo hospital que registrou o primeiro óbito por Covid-19 também reportou outras quatro mortes que podem ter sido causadas pelo vírus, ainda sem confirmação. Além delas, há ainda uma sexta morte, ocorrida no Rio de Janeiro. com suspeita de coronavírus, cujo resultado deverá ficar pronto hoje.
O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou: “Em quase 300 casos tivemos o primeiro óbito. Não podemos falar isso porque podemos ter seis óbitos amanhã (hoje). Não temos condição de falar a letalidade. Brasil é um país jovem, vamos ver como isso funciona", declarou.
De acordo com o médico David Uip, a primeira vítima fatal foi infectada no Brasil, pois não havia viajado para o exterior. O homem apresentou sintomas no dia 10 de março. Foi para a UTI no dia 14 e faleceu nesta segunda-feira. O resultado do teste só foi recebido após o óbito. Ele não constava da contagem oficial de infectados, que é informada diariamente pelo Ministério da Saúde. O governo de São Paulo, que assim como os demais Estados repassa a Brasília os dados locais, só confirmou a contaminação do paciente às 10h30 de ontem.
5 mortes agurdam confirmação
Na mesma rede hospitalar onde foi registrado o primeiro óbito por coronavírus em São Paulo, ocorreram mais quatro mortes que estão sob suspeita de infecção pelo novo coronavírus. A Secretaria de saúde do Estado de São Paulo aguarda os resultados dos exames para confirmação ou não.
O secretário José Henrique Germann falou que, diante da primeira morte pelo coronavírus, a determinação do governo de São Paulo é reforçar as medidas preventivas para reduzir a capacidade de alastramento do vírus no Estado.  Apesar disso, David Uip afirmou que a confirmação da morte não deve chegar à população como algo inesperado e, por consequência, criar situação de pânico.
Outro óbito, cujo exame ficará pronto hoje, ocorreu no município de Miguel Pereira, no interior do Rio de Janeiro. Em nota, a Prefeitura anunciou a morte da mulher de 63 anos com sintomas do coronavírus. "A paciente trabalhava na capital e esteve em contato direto com sua empregadora, que chegou da Itália e testou positivo para a Covid-19", informou a nota da prefeitura. Segundo a administração, a mulher foi internada no Hospital Municipal Luiz Gonzaga "já em quadro grave, vindo diretamente de seu ambiente de trabalho para a unidade de saúde", e morreu ontem.
A secretaria de Saúde afirmou que "não há confirmação sobre óbito por coronavírus no Estado do Rio" e que "embora a Prefeitura de Miguel Pereira tenha divulgado a morte da mulher com sintomas compatíveis aos da Covid-19, o material da paciente somente chegou ontem ao Laboratório Central Noel Nutels, única unidade estadual capaz de realizar o teste.”
São Paulo lidera em casos confirmados da doença
O Ministério da Saúde anunciou ontem a confirmação de 291 casos de coronavírus no País — 57 a mais do que os 234 identificados na segunda-feira. A maior diferença se deu nos casos suspeitos, que pularam de 2.064 para 8.819, crescendo quase quatro vezes. São Paulo segue liderando, com 164 casos. O estado vem seguido do Rio de Janeiro (33), Distrito Federal (22), Pernambuco (16) e Rio Grande do Sul (10). Também possuem casos Santa Catarina e Minas Gerais (sete), Goiás e Paraná (seis), Ceará (cinco), Sergipe e Mato Grosso do Sul (quatro), Bahia (três) e Amazonas, Rio Grande do Norte, Alagoas e Espírito Santo (um).
"A diferença dos casos suspeitos é porque existia em vários estados e que não estavam sendo validados, muito provavelmente devido à checagem manual. Afirmamos que era melhor utilizar o sistema automatizado. Mas é mais importante mostrar aumento de notificação do que ficar só nos 2 mil casos", afirmou Júlio Croda, do Ministério da Saúde.
Em relação aos casos suspeitos, São Paulo possui 5.047, seguido por Rio de Janeiro (859), Minas Gerais (563), Bahia (354), Rio Grande do Sul (300) e Distrito Federal (253). A região com menor número de suspeitas continua a sendo a Norte (96), enquanto a com mais pessoas em investigação é a Sudeste (6.538). Os casos descartados somam 1.899.
Do total, 57% são casos importados (aqueles contraídos fora do país), 32% são oriundos de transmissão local (adquiridos de pessoas que foram infectadas fora do país) e 12% são resultado de transmissão comunitária (quando as autoridades não conseguem identificar a cadeia de infecção e o primeiro paciente ou quando já ultrapassou a quinta geração da rede de contágio). Outros 2% estão em investigação.
Aumento
A avaliação apresentada pelo ministério é que a situação deve piorar nos próximos meses, com aumento dos casos. A situação, se adotadas as medidas e recomendações, só deve resultar em um alívio do quadro no segundo semestre.
“Vamos passar 60 a 90 dias de muito estresse. Para que quando chegar no fim de julho entra no plateau (estabilidade). Em agosto e setembro podemos estar voltando (à normalidade) desde que construamos a imunidade de mais de 50% das pessoas”, projetou Mandetta.
Na entrevista coletiva, representantes do Ministério da Saúde responderam a questionamentos sobre a portaria publicada pela pasta em conjunto com o Ministério da Justiça, que obriga a realização de procedimentos determinados por autoridades de saúde e autoriza o emprego de forças policiais para isso.
“Ela deixa claro situações em que isso deve ocorrer, como vacinação, exame e isolamento. Se cumprimos o que está no regulamento, é para que não haja abusos. O que esperamos com a portaria é a não necessidade de a cada momento tenhamos que acionar o judiciário para obter êxito. Enquanto perdemos tempo e pessoa pode fazer um estrago”, respondeu o secretário executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis.
Testes de coronavírus
Os representantes do ministério afirmaram que estão dialogando com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e com laboratórios privados para ampliar a oferta de testes. Os exames foram apontados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como medida fundamental para evitar a disseminação do vírus nos países. A Fiocruz teria se comprometido a entregar mais 45 mil testes entre março e abril, e até 1 milhão de exames até os próximos quatro meses.

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