Publicado 13/03/2020 - 12h05 - Atualizado 13/03/2020 - 12h05

Por Paulo Coelho

Diálogos com o mestre - O amor nos detalhes

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Diálogos com o mestre - O amor nos detalhes

Termino aqui a transcrição de algumas anotações que fiz em minhas conversas com J., meu mestre e amigo, entre os anos de 1982 e 1986. Perguntei a ele o que devia fazer para organizar um pouco a minha busca espiritual, que parecia não levar a lugar nenhum. Eis sua resposta:
- “Não procure ser coerente o tempo todo; descubra a alegria de ser uma surpresa para você mesmo. Ser coerente é precisar usar sempre a gravata combinando com a meia. É ser obrigado a manter amanhã as mesmas opiniões que você tinha hoje. E o movimento do mundo – onde fica?”
“Desde que você não prejudique ninguém, mude de opinião de vez em quando, e caia em contradição sem se envergonhar disso; você tem este direito. Não importa o que os outros vão pensar – porque eles vão pensar de qualquer maneira.”
- Mas estamos falando de fé.
- “Exatamente. Continue fazendo o que faz, mas procure colocar amor em cada gesto: isso basta para organizar sua busca. Costumamos não dar valor às coisas que fazemos todos os dias, mas são elas que estão transformando o mundo à nossa volta. Pensamos que a fé é tarefa para gigantes, mas basta ler algumas páginas da biografia de qualquer homem santo, que ali descobriremos uma pessoa absolutamente comum – exceto pelo fato de que estava decidida a dividir com os outros o melhor de si mesmo.”
“Muitas são as emoções que movem o coração humano quando ele resolve dedicar-se ao caminho espiritual. Pode ser um motivo “nobre” - como fé, amor ao próximo, ou caridade. Ou pode ser apenas um capricho, o medo da solidão, a curiosidade, ou o pavor da morte.”
“Nada disto importa. O verdadeiro caminho espiritual é mais forte do que as razões que nos levaram a ele e aos poucos se impõe, com amor, disciplina, e dignidade. Chega um momento em que olhamos para trás, lembramos do inicio de nossa jornada, então rimos de nós mesmos. Fomos capazes de crescer, embora nossos pés percorressem a estrada por motivos que eram muito fúteis.”
- Como descobrir que estou, pelo menos, andando com amor e dignidade neste caminho?
- “Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes usa a raiva para que possamos compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando nos quer mostrar a importância da aventura e do abandono.”
“Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço para que possamos compreender o valor do despertar. Outras vezes usa a doença quando quer nos mostrar a importância da saúde.”
“Deus costuma usar o fogo para nos ensinar sobre a água. Às vezes usa a terra, para que possamos compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida.”
- E o que fazer com a sensação de culpa, que todos nós temos?
- “Num dos momentos mais trágicos da crucificação, um dos ladrões percebe que o homem que morre ao seu lado é o Filho de Deus. “Senhor, lembra-Te de mim quando estiveres no Paraíso”, diz o ladrão.
“Em verdade, estarás hoje comigo no Paraíso”, responde Jesus, transformando um bandido no primeiro santo da Igreja Católica: São Dimas.”
“Não sabemos por que razão Dimas foi condenado à morte. Na Bíblia, ele confessa a sua culpa, dizendo que foi crucificado pelos crimes que cometeu. Suponhamos que tenha feito algo de cruel, tenebroso o suficiente para terminar daquela maneira; mesmo assim, nos últimos minutos de sua existência, um ato de fé o redime – e o glorifica.”
“Lembre-se deste exemplo quando, por alguma razão, se julgar incapaz de seguir adiante o seu caminho.”

Escrito por:

Paulo Coelho