Publicado 31/03/2020 - 07h56 - Atualizado 31/03/2020 - 07h56

Por Francisco Lima Neto

Uber implementou uma política para que qualquer parceiro que for diagnosticado com a Covid-19 receba assistência financeira por até 14 dias

Wagner Souza/AAN

Uber implementou uma política para que qualquer parceiro que for diagnosticado com a Covid-19 receba assistência financeira por até 14 dias

A quarentena imposta à sociedade por conta da pandemia do novo coronavírus já ameaça o trabalho dos motoristas da Uber e de aplicativos semelhantes em Campinas. Com a queda do número de pessoas circulando e, consequentemente, de viagens, muitos não conseguem manter os custos do aluguel ou financiamentos dos veículos. Associação dos motoristas acredita que a situação deve piorar nas próximas semanas.
A renda desses motoristas despencou desde que o novo coronavírus se tornou uma ameaça real em Campinas e na região e a população entrou em quarentena. Um motorista, que não se identificou, devolveu o carro no último domingo. "Meu último dia foi no sábado. Eu comecei às 6h e fui direto, sem parar, até às 21h. Consegui fazer R$ 170, o que foi uma Vitória. Devolvi o carro no domingo", relata.
Outro motorista da Uber, que se identificou apenas como Rodrigo por medo de represálias, diz que muitos devolveram os veículos alugados ou financiados. "Muitos motoristas viraram Uber por causa do desemprego, trabalhamos acima de 12 horas para conseguir um salário para sustentar a família. Mas nossa única fonte de renda está indo embora por causa dessa crise. Não temos mais quem carregar, não tem trabalhadores, não tem jovens nas baladas, não tem mais idoso indo na casa dos filhos e netos", explica o profissional.
Rodrigo faturava entre R$ 1,7 mil a R$ 2,3 mil por semana, dependendo da quantidade de viagens e de horas trabalhadas. Desse valor descontava R$ 450 do aluguel semanal do carro e R$ 450 do combustível e as taxas cobradas do aplicativo. "Entre os dias 23 a 29 de março eu faturei R$ 792, mesmo passando mais horas na rua. Eu praticamente moro no carro e visito minha casa", diz.
"A gente está entrando em desespero. Eu trabalho pela Uber há três anos, se continuar assim vou ter de devolver o carro também", avalia.
Vandilson da Costa Lopes, presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativos de Campinas e Região (Amacre), diz que são cerca de 15 mil motoristas cadastrados na região. Sendo que 65% deles trabalham com veículos alugados.
Segundo ele, a redução da circulação de pessoas no aeroporto, rodoviária, escolas, faculdades, e na cidade como um todo, afetou diretamente esses trabalhadores. "Com a queda muito grande das viagens, muitos motoristas não têm condição de pagar o aluguel e estão procurando as locadoras para devolver os veículos. Isso tem acontecido desde o começo da ordem para o isolamento, mas tem se acentuado desde a semana passada", explica.
"Ainda não temos um número ou levantamento, mas são muitos os que estão devolvendo dos carros. Vai aumentar novamente o número do desemprego. A gente está prevendo uma quantidade muito grande de motorista dentro de casa", afirma o líder da associação.
"Estamos arrecadando alimentos para as famílias desses motoristas e tentando negociar com as locadoras para tentar minimizar os custos. Mas essa negociação é em todas as regiões", completa.
O Correio Popular questionou a Uber sobre a situação dos motoristas, o número de viagens que eram realizadas antes da pandemia e o atual e se a companhia tem alguma medida para minimizar a situação. A resposta é que por ser uma empresa de capital aberto "não podemos comentar dados especulativos". A assessoria de imprensa disponibilizou um link com a informação de que a empresa fechou parceria com o Vale Saúde Sempre, que oferece descontos em consultas médicas na rede privada. Os motoristas não vão pagar anuidade."A Uber implementou uma política para que qualquer motorista ou entregador parceiro que for diagnosticado com a Covid-19, ou tiver quarentena individual solicitada por uma autoridade de saúde ou por um médico pelo risco de disseminar o Covid-19, receba assistência financeira por até 14 dias, enquanto estiver impossibilitado de usar a plataforma", informa a empresa.

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Francisco Lima Neto