Publicado 09/02/2020 - 13h34 - Atualizado 09/02/2020 - 13h47

Por Divulgação

A beleza natural do local e o acervo artístico são um convite à contemplação

IStock/Banco de Imagens

A beleza natural do local e o acervo artístico são um convite à contemplação

O cheiro de mato e o canto de pássaros e cigarras nos acompanharam na visita ao Instituto Inhotim naquela manhã. Nada que lembrasse a tragédia de um ano atrás, quando pelo menos 230 pessoas morreram com o rompimento da barragem do Córrego do Feijão. Protegido por um cinturão verde e enriquecido por pinturas, esculturas, fotografias e instalações de cerca de 60 artistas de 38 países, o Instituto Inhotim - como a maior parte da cidade de Brumadinho - não foi afetado pela tragédia de 25 de janeiro de 2019. Ainda assim, viu uma redução brusca no número de turistas.
Na visita, o viajante encontrará atividades como shows e passeios guiados - além de 23 galerias de arte e 560 obras ao longo de 140 hectares. Um passeio pelos três eixos (laranja, amarelo e rosa) é um convite para experiências sensoriais. Para aproveitar melhor o passeio, a sugestão é focar em um dos três eixos do parque e seguir viagem. Iniciamos a jornada pelo laranja, o maior e mais farto em atrativos. Veja como organizar sua viagem ao instituto - que tem novidades.
Trilha Laranja
Tendo como ponto de partida a recepção e a loja de design, uma das primeiras paradas da trilha laranja é a galeria da artista Adriana Varejão. O liso espelho de água em frente ao prédio forma uma imagem bonita com reflexo, mesclando o verde das árvores e o efeito impessoal do concreto do prédio. Logo no jardim está a Panacea Phantastica, conjunto de azulejos com a pintura de 50 tipos de plantas alucinógenas. Ao entrar na galeria, respire fundo. A artista fez esculturas que parecem tripas humanas dentro de azulejos brancos. O impacto tem justificativa: a obra foi inspirada no desabamento do Hotel Linda do Rosário, no Rio em 2002 e que matou um casal.
Sair da galeria e ingressar no Jardim Veredas Tropicais foi um alívio. Inspirado em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, a área faz uma leitura das paisagens brasileiras com espelhos d’água e buritis. Bancos de madeira em formato de troncos convidaram à contemplação. Ali perto, desde setembro de 2019, há outro jardim: Sombra e Água Fresca. A área passou por um processo criativo de quase dez anos, liderado pelo paisagista do Inhotim, Pedro Nehring. Hoje são cerca de 700 espécies, entre plantas nativas e exóticas. O legal do espaço é a proposta multissensorial: quem passa pode comer as frutas que nascem nas mais de 80 espécies. Para visitantes e sabiás que voam lá, há fartura de lichias, jabuticabas e bananas.
Saindo do jardim a bordo do carrinho, avistei de longe uma curiosa árvore pendurada por pés de aço. Era a obra de arte Elevazione, do italiano Giuseppe Penone. É uma castanheira centenária feita em bronze. Ao lado dela, cinco árvores foram plantadas para que, crescendo, sustentem a obra com seus galhos
Adiante, numa área de pasto rasteiro, estão dezenas de pesadas vigas de ferro comidas pelo tempo e enterradas em uma piscina de concreto. Beam Drop, do americano Chris Burden, foi instalada em 2008, em uma performance de 12 horas. Na época, teve a participação de um guindaste para desorganizar as barras. Ali pertinho está outra novidade, um trabalho do americano Robert Irwin com 6,3 metros de altura por 14,6 metros de diâmetro. Em concreto, aço inox e vidro artesanal, é mais uma experiência sensorial. Podemos entrar na obra, que ganha tonalidades com a luz do sol.
Além de mostrar a criatividade de artistas em espaços amplos, Inhotim tem peças interativas. Na galeria Marilá Dardot, relembrei os galpões de um sítio de família. O prédio com paredes vazadas abriga letras em cerâmica e objetos de jardinagem. A ideia é formar palavras, que se transformarão em flores e em pequenas plantas. Escolhi a letra do meu nome, A. Dentro, botei terra e sementes de amor-perfeito. Depois, escolhi um lugar embaixo das árvores e deixei a chuva abençoar minha pequena obra.
A alguns passos, uma piscina com degraus lembra uma agenda telefônica no meio do mato. É outra obra incrível. A Piscina, de Jorge Macchi, é atração com calor: é permitido nadar na água transparente. Pelos hectares do eixo laranja há também trabalhos que nos incomodam. Na galeria Psicoativa Tunga, uma ampla sala contornada por vidros tem elementos como pentes, tranças e tacapes, que criticam o comportamento humano.
O QUE HÁ DE NOVO
1. Robert Irwin: sem título, obra é feita em concreto, aço inox e vidro, com 6,3 m de altura por 14,6 m de diâmetro. Fica no eixo laranja.
2. Galeria Mata: A exposição coletiva (eixo amarelo) traz obras de vários artistas brasileiros, como Seção Diagonal, de Marcius Galan.
3. Yano-a: Na galeria de Claudia Andujar (eixo rosa), foi feito a partir de uma foto em preto e branco de uma maloca ianomâmi incendiada.
4. Sombra e Água Fresca: Localizado no eixo laranja, é o maior jardim do Instituto Inhotim, com 32 mil metros quadrados.
SAIBA MAIS
Como chegar: a Belvitur (belvitur. com.br) tem ônibus partindo do hotel Holliday Inn, em Belo Horizonte - saída: 4ª, sáb., dom. e fer., 8h30 (nos demais dias, exige mínimo de 4 passageiros); retorno: 3ª a 6ª, 16h30; sáb., dom. e fer., 17h30). Ida e volta, R$, 60; só volta, R$ 35. Já o ônibus da Saritur (saritur. com br) parte da rodoviária da capital - saída, 8h15; retorno: 16h30 (sáb., dom. e fer., 17h30). Ida, R$ 41,05; volta, R$ 37,15.
Horário: 3ª a 6ª, 9h30/16h30; sáb., dom. e fer. até 17h30; fecha 2ª.
Ingresso: R$ 44; 4ª, grátis com reserva pelo site sympla.com br.
Entre os biomas da Mata Atlântica e o cerrado mineiro
Para visitar o Inhotim são necessários pelo menos dois dias. Não pense que é dica de quem gosta de viajar devagar. Ao ver as primeiras galerias e obras, percebi que realmente é preciso tempo para percorrer o instituto e digerir seu conteúdo.
Em todos os ambientes, há sintonia entre a criatividade da arte e a natureza. Até no almoço, temos momentos de contemplação. No restaurante Oiticica, por exemplo, a decoração alva e os paredões com vista para o verde convidam a uma refeição tranquila. Self-service (R$ 69 o quilo; R$ 59 às quartas), tem pratos vegetarianos e veganos.
Saindo dali, partimos para um roteiro pelos eixos amarelo e rosa, que, para mim, reservam as peças de maior impacto e contraste. A obra de Hélio Oiticica está pertinho do restaurante homônimo e é composta por coloridos paredões que fazem fronteira com um lago - perfeitos para fotos instagramáveis.
A Invenção da Cor, Penetrável Magic Square # 5, faz parte de um grupo de seis trabalhos que se espalham em torno da praça e formam um labirinto a céu aberto. A obra foi executada após a morte do artista, que deixou explicado em projeto como gostaria que fosse instalada.
Também em frente a um lago, a galeria True Rouge é um susto aos olhos. Em uma sala branquíssima, Tunga reuniu vidros que lembram recipientes de laboratório com líquidos vermelhos, que remetem ao sangue humano. Por vezes, a instalação lembra um útero.
Outro destaque do roteiro é a galeria da fotógrafa Claudia Andujar. Nascida na Suíça e radicada no Brasil, ela produziu mais de 400 imagens com o povo ianomâmi na Amazônia. As imagens, feitas entre 1970 e 2010, mostram a radical mudança na vida dos indígenas.
Em meio à mata, passamos por um terreno de barro e abrimos a porta de uma esfera sextavada. Dentro, uma retroescavadeira e uma árvore branca feita de polietileno de alta densidade lembra intervenções do homem no meio ambiente. A De Lama Lâmina é assinada pelo americano Matthew Barney e nos deixa com uma pergunta: como a máquina foi parar dentro de uma esfera?
Em uma área entre os ricos biomas da Mata Atlântica e do cerrado, o Inhotim tem como ponto de encontro um majestoso e alto tamboril, onde nosso passeio se encerrou. A árvore centenária fica no meio do parque e está ali desde a época em que a região era só uma vila.

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