Publicado 27/02/2020 - 10h33 - Atualizado 27/02/2020 - 10h33

Por Cláudia Antonelli

Parasitas

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Parasitas

“Um organismo que vive de e em outro organismo (o hospedeiro), dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano.” Há mais parasitas entre o céu e a terra do que reconheceria nossa vã filosofia.
O excelente filme ganhador do Oscar retrata aspectos de uma família que parece viver em um modo majoritariamente parasitário: alojam-se em outra família – com mais nutrientes – que também passa a depender desta outra que nela se parasitou. Até encontrarem outro personagem também em modo parasita, no subsolo desta casa onde se aloja o parasitismo. Cada um em busca de sua própria sobrevivência, até quando a relação parasitária é ameaçada e o caos se instala. Há aqui aspectos sociais, dinâmicas familiares e também psíquicas (individuais e de grupo).
Há muitos cenários nos quais a relação parasitária pode se instalar. Me atenho aqui a um olhar mais derramado sobre as relações – afetivas, de trabalho e nossa para conosco mesmo, com os outros e com o mundo.
Nossa relação com a natureza pode ser altamente parasitária: retiro dela o que preciso, nada devolvo – nem cuidado, nem reparo – e assim a danifico. A espécie humana há muitas gerações parece ter vivido neste modo. A consciência desta relação, que surge a partir dos visíveis danos causados, parece vir – ainda que tarde – despertando.
Políticos podem estabelecer relações parasitárias com o governo e com o pagamento que recebem do contribuinte brasileiro: sugam o dinheiro e os benefícios, e não devolvem nada – nem projetos, nem trabalho, nem participação consistente na construção e modificação do cenário político nacional. Aqui também há danos - grandes danos.
Diminuindo o espectro desta lente, podemos encontrar relações parasitárias nos trabalhos individuais, nas casas e nas relações afetivas: nos ‘alojamos’ no outro, com pouco desenvolvimento de nosso potencial, e com pouca troca com o mundo externo.
Casais nos quais um do par se caracteriza como parasita – suga o dinheiro, o afeto, a casa: pouco ou nada dá em troca, a não ser suas próprias necessidades. Às vezes mulheres ou homens que dependem exclusivamente do dinheiro e dos recursos do outro; passam o tempo a somente curtir a própria vida que é subsidiada. Às vezes isto é danoso ao outro, outras é de comum acordo – podendo conferir mesmo a ilusão de controle para este que provê (relações de dependência consentida).
E há situações em que alguém mesmo sozinho, se parasita em sua própria vida: na casa onde vive, sem cuidar, sem reparar, sem dar-lhe algo que a melhore ou mantenha em melhor estado – o que naturalmente levará à deterioração.
Outras relações de trabalho como a descrita acima no caso do governo, mas a nível particular: pessoas alojadas em seu cargo, em sua função, recebendo o salário e realizando o mínimo necessário, às vezes até mesmo simulando trabalho, com pouquíssima contribuição de fato.
Às vezes é difícil enxergar, reconhecer um parasita ou uma relação parasitária. Ainda mais difícil encontrarmos estas partes-parasitas em nós mesmos e em nossas vidas: partes nossas que se instalam em determinadas situações, somente dependendo e recebendo, aguardando o que vem de fora – da sorte, “do destino”, ou simplesmente do outro - sem mais autonomia, sem mais movimento, sem transformação, sem crescimento.
Monarcas têm certo papel parasitário nas sociedades – não à toa vieram diminuindo. No entanto em alguns casos são mantidos, de alguma maneira o retorno a seus súditos se dando na forma de um sonho cultuado, mantendo-se a admiração, a adoração a um rei ou a uma rainha – o desejo encarnado de qualquer um (algumas pessoas realmente se tomam por reis ou rainhas facilmente).
Figueiredo, um autor da psicanálise, em sua Teoria Geral dos Cuidados fala em Justos compartilhamentos ou cuidados recíprocos. O dar e receber; o cuidar e ser cuidado. Algo que, diz o autor, seria concebido desde muito cedo na vida de cada um. Em realidade, desde quando bebê e criança - nas trocas com a mãe com a qual, já desde aí, o bebê ou a criança pequena teria um lugar de importância no seu dar, na relação de troca: “poder oferecer algo de si” e não somente receber o leite, o alimento, passivamente. Também se colocar: suas pequenas ações, sua gratidão, seu carinho, que então são recebidos e valorizados, e não desconsiderados pela sua pequenez, rejeitados ou satirizados, o que seria uma forma de rejeição.
Se tornando então o modo embrião da preocupação com o outro, e mais tarde uma questão de cunho ético na vida do sujeito amadurecido: o cuidado que foi/é necessário a mim, também o é ao outro. Para nossa preservação e do que é nosso - nossos patrimônios (particulares, nacionais, culturais). O contrário disto seria no início, o “puro consumismo”: somente consumo, compro, me beneficio (ainda mais se tenho dinheiro, isto torna-se fácil).
No extremo, seria a destruição: o não-cuidado levando ao desmoronamento dos vínculos, dos patrimônios, da própria vida e do Futuro. Como vemos ocorrer no filme, e vemos ocorrer na vida.

Escrito por:

Cláudia Antonelli