Publicado 02/02/2020 - 12h10 - Atualizado 02/02/2020 - 12h15

Por Francisco Lima Neto/AAN

A Agente Social Suzy Santos na entrada do abrigo; fachada da ?Casa sem Preconceitos

Wagner Souza/AAN

A Agente Social Suzy Santos na entrada do abrigo; fachada da ?Casa sem Preconceitos

Uma casa antiga com dois quartos, um escritório usado como despensa, cozinha, sala e uma pequena varanda, no bairro do Bosque em Campinas, é o local onde seis transexuais ou travestis podem chamar de lar, desde o último dia 24 de janeiro. Ali, uma nova família acaba de ser formada, e as filhas chamam a agente social Suzy Santos, de 44 anos, de mãe. O tratamento é uma forma de provocação e, principalmente, de respeito, carinho e gratidão por terem sido tiradas da rua.
O nome da moradia é Casa Sem Preconceitos - Reduzindo danos e promovendo cidadania. Fica na Rua Uruguaiana e ficou pronta em três meses. Nasceu do trabalho da agente social Suzy, que é mulher trans e conhece todos os percalços desta população, que muitas vezes, sem alternativa, é obrigada a se prostituir e morar na rua. A abertura da casa é motivo de comemoração nesta semana, que marca o Dia Nacional da Visibilidade de Transexuais e Travestis, celebrado na quarta, 29.
Suzy faz parte da equipe do Consultório na Rua, do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, um serviço de saúde itinerante que oferece assistência à população em situação de rua, com foco nos usuário de álcool e drogas. "Com esse trabalho fui me deparando com a nossa população (trans) de rua. A gente tenta o acolhimento e a inserção delas nos abrigos e na assistência, mas tem dificuldade de entendimento, dificuldade do olhar desses profissionais para esta população", diz.
Olhar
Segundo ela, falta um olhar para esta população na rua. "A gente vê muitas portas abertas para os homens cis, héteros, mulheres cis, héteros, mas a gente não tem inserção do meu público", afirma.
Esta é a terceira casa de acolhimento aberta e coordenada por Suzy. A última fechou oito meses atrás por falta de recursos. "Faltava dinheiro para o aluguel e a casa ficava na periferia, no Carlos Lourenço, o entendimento é complicado, passamos a ter problemas. Todo o trabalho não é só tirar elas da calçada, é fazer uma inserção toda de vida, reeducação. Tem meninas que nem sabem o que é viver numa casa durante muitos anos. Vai lapidando. É resgatar para que elas se vejam como seres humanos", explica.
A nova casa foi aberta graças a parcerias. O aluguel é de R$ 1 mil mensal. Um casal homoafetivo vai pagar até maio e uma danceteria da cidade vai custear o aluguel de junho até dezembro. "A gente faz tudo com doação e parceria. Tudo o que tem aqui fui eu pedindo, pedindo, batendo de porta em porta. Foram três meses para conseguir sofá, beliches, televisão, geladeira, tudo", conta.
A casa conta com dois quartos, sala, cozinha, banheiro, escritório e sala. "O vizinho do lado vai pagar a água e a energia é por nossa conta. Graças a Deus conseguimos doação de cestas básicas também", comemora.
A casa conta com seis vagas e acolheu quatro mulheres trans ou travestis e dois homens trans. "Toda hora alguém me liga pedindo vaga, falando de alguém, mas já não tenho mais vagas", ressalta.
Suzy já conseguiu uma parceria com uma cooperativa de design de roupas para fazer oficinas com os acolhidos e ensinar uma possível profissão.
Sonhos
As meninas acolhidas chegam de diversas partes. Gabriele, por exemplo, tem 18 anos, e já veio de um lar desestruturado. A mãe tem problemas com álcool e drogas e não aceitava a transexualidade do então filho.
Desde criança, ela e os irmãos foram criados em vários abrigos. Até que ela chegou a Campinas e ficou na rua. "É muito importante uma casa como essa, que nos acolhe. Eu tenho o sonho de estudar Direito e me tornar uma advogada para defender as causas LGBT", diz Gabriele.
Rebeca Bittencourt, de 29 anos, veio de Minas Gerais. A transexualidade até era aceita pela família. Mas tudo mudou com a morte do pai. "Ele ficou doente e eu cuidei por oito anos, mas quando ele morreu, fui praticamente colocada para fora de casa. Minhas irmãs diziam que não tinha como me ajudar porque já tinham as vidas delas", conta.
Suzy já conheceu várias trans e travestis que foram assassinadas. "Por que nós somos mortas todos os dias? Porque a gente não tem como se camuflar, apareceu na esquina já tem alguém apontando. Somos a vergonha da família, a aberração, a preocupação da família é sempre o que o outro vai dizer, o que o povo da igreja vai falar, o que o padeiro vai falar. A preocupação é com os outros e não se olha para seu irmão, do seu sangue", reclama.
Saiba mais
- Para saber mais ou doar é só entrar na página https://www.facebook.com/CasaSemPreconceitos/ ou pelo telefone 19 99162-9472.
- Doações podem ser entregues na Bar da Tia Bel, na Rua Dr. Álvaro Ribeiro, 441, Ponte Preta, de segunda a sábado, das 12h às 22h.
Brasil é o País que mais mata transexuais no mundo
O Brasil, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), é o País que mais mata transexuais no mundo. Em 2019 foram 124 mortes. A maior parte das vítimas eram do gênero feminino (97%), negras (82%), do nordeste (36%) e com idade entre 15 e 29 anos (59,2).
De acordo com o levantamento, nesta faixa etária, três mortes chamaram a atenção
pela crueldade. Duas das vítimas foram apedrejadas até a morte e a terceira
foi espancada e enforcada. A maior parte das 124 vítimas era de mulheres trans e travestis que se prostituíam.

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Francisco Lima Neto/AAN