Publicado 03/01/2020 - 12h00 - Atualizado 03/01/2020 - 12h00

Por Paulo Coelho


'O guerreiro lembra-se do passado. Conhece a Busca Espiritual do homem, sabe que ela já escreveu algumas das melhores páginas da História.
E alguns de seus piores capítulos; massacres, sacrifícios, obscurantismo. Foi usada para fins particulares, e viu seus ideais servirem de escudo para manipulações terríveis.
O guerreiro já ouviu comentários do tipo: "como vou saber se este caminho é sério?" Viu muita gente abandonar a busca por não saber responder a esta pergunta.
O guerreiro, porém, não tem dúvidas; segue uma fórmula infalível. "Pelos frutos, conhecereis a árvore", disse Jesus.
Ele segue esta regra, e não erra nunca.
Os frutos de quem não quer ouvir
Um profeta chegou em uma grande cidade da Pérsia, e multidões se reuniam à sua volta todas as manhãs. Mas o tempo foi passando, e sua presença deixou de ser novidade.
- Já sabemos tudo que nos tinha para dizer – comentavam, indo em busca de um novo profeta para ensinar-lhes o caminho. 
Mesmo sem ninguém para escutá-lo, o profeta continuava indo até a praça, fazer seu sermão.
- Por que insiste em continuar aqui? – perguntou um menino. - não vê que fala sozinho?
- Todo aquele que tem coragem de dizer o que sente na alma, está em contato com Deus. Eu procuro escutá-Lo quando estou falando.
"O fato de ter uma platéia de vez em quando, não muda nada."
Os frutos de quem não quer receber
Durante um jantar no mosteiro de Sceta, o padre mais idoso levantou-se para servir água aos outros. Foi de mesa em mesa com muito esforço, mas nenhum dos padres aceitou.
"Somos indignos do serviço deste santo", pensavam.
Quando o velho chegou na mesa do abade João Pequeno, este pediu que enchesse seu copo até a borda.Os outros monges olharam horrorizados. No final do jantar, cercaram João Pequeno:
- Como pode julgar-se digno de aceitar aquela água? Não percebeu o sacrifício que ele estava fazendo para servi-lo?
- Como posso impedir que o bem se manifeste? Vocês, que se acham santos, não tiveram humildade para receber, e o pobre homem não teve a alegria de dar.
Os frutos do coração humano
A tradição sufi conta a história de um rei que procurava bons pintores para decorar o seu palácio. Duas equipes - uma grega e uma chinesa – compareceram com seus melhores artistas, tentando conseguir um trabalho que renderia milhares de moedas de ouro.
Como teste, o rei pediu que cada uma decorasse uma parede de uma das salas. Para que um grupo não visse o trabalho do outro, escolheu paredes opostas e colocou uma cortina no meio.
Os chineses pintaram a sua com o maior cuidado, enquanto os gregos apenas poliam sem parar a superfície da outra. Chegou finalmente o dia em que o rei resolveu remover a cortina, e comparar os resultados.
De um lado viu a bela pintura chinesa. Na outra parede, que havia sido polida até transformar-se num espelho, o rei também viu a bela pintura chinesa - mas com sua própria imagem no meio.
- Este é melhor - disse o rei. E os gregos ganharam o emprego, porque souberam lidar com a vaidade alheia.

Escrito por:

Paulo Coelho