Publicado 26/01/2020 - 02h11 - Atualizado 26/01/2020 - 02h11

Por Alenita Ramirez

Homem que foi localizado pela polícia em novembro depois de assaltar em condomínio fechado: ele entrou e saiu com cartão de um morador

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Homem que foi localizado pela polícia em novembro depois de assaltar em condomínio fechado: ele entrou e saiu com cartão de um morador

A sensação de segurança proporcionada a moradores de condomínios fechados e bolsões tem facilitados as ações de criminosos. É o que observa policiais civis de Campinas que investigam sobre a atuação de criminosos em condomínios de luxo na cidade. Entre outubro e dezembro do ano passado, ao menos três roubos, três furtos e uma tentativa de furto foram registrados nas regiões do distrito de Sousas e do Parque Gramado e em todas as situações, tanto o morador como o condomínio deram brechas para os ladrões, segundo avaliação dos policiais.
Condomínios fechados ou bolsões de segurança devem aprimorar suas medidas de prevenção, afirma a polícia
Entre as facilitações, diz a policia, constam a despreocupação com portas, janelas e portões, que são deixados destrancados; chaves de portas, que costumam ser colocadas em locais visíveis e de fácil acesso; e também chaves de carros, deixadas no contato. Por parte dos condomínios,acrescentam os policiais, também há uma série de falhas de procedimento como a falta de fiscalização com controle mais rigoroso nas portarias, de instalação de câmaras de seguranças em pontos estratégicos, melhoria na iluminação e manutenção em árvores.
Em um dos casos, uma moradora de um condomínio, na região do Gramado, indiretamente contribui para que dois moradores de seu condomínio fossem vítimas de furto. Ela teve o TAG furtado por bandidos do interior do carro quando foi a uma loja de departamento nas proximidades, mas na volta não comunicou a administração do condomínio. Os criminosos usaram o cartão da mulher para entrar e sair do local, sem serem abordados. "Os moradores acham que estão seguros dentro de um local fechado, o que não é verdade. A vulnerabilidade leva ao crime. A facilidade faz o ladrão" , disse o investigador-chefe do 12º Distrito Polícia (DP), em Sousas, Marcelo Hayashi.
Em outubro, bandidos assaltaram uma casa no Condomínio San Conrado após depararem com o portão do imóvel aberto. Eles chegaram ao local através de uma cerca lateral do condomínio e após examinarem uma casa com muro baixo nas proximidades. Neste primeiro imóvel, eles notaram que havia moradores e desistiram da ação. Eles então passaram a caminhar pela via dentro do condomínio e acharam a casa com o portão aberto e com as pessoas distraídas. 
O imóvel estava em reforma e os pedreiros trabalhavam. Os moradores estavam no interior da residência. Todos foram rendidos. A ação foi registrada pelo sistema de segurança da rua. Pelas imagens foi possível ver três criminosos saindo de uma casa sem muro na frente e invadindo a casa vizinha. "Os ladrões destes locais não têm informações privilegiadas. Eles são oportunistas. Se passam e observam que o local tem facilidades, entram. Então são as facilidades que os moradores e os condomínios proporcionam, que atraem os criminosos" , comentou Hayashi.
No final de outubro, um professor de inglês de 25 anos e sua família viveram duas horas de pânico com dois bandidos, um deles armado de revólver.
A família mora em um bolsão, com portaria aberta e controle de entrada e saída 24 horas. Os criminosos entraram a pé por uma viela que dá acesso há uma área de proteção ambiental. Eles pularam o muro da casa e renderam a mãe do professor, que se preparava para sair de carro. Era começo do dia.
Ele e o irmão mais velho dormiam e foram acordados pelos bandidos, que colocaram todos no corredor do imóvel e os deixaram sob a mira da arma. Os criminosos queriam dinheiro e joias, mas roubaram o que acharam de valor. Os objetos foram colocados no carro da mulher. Na fuga, os ladrões obrigaram o rapaz mais velho a dirigir o veículo, para não despertar a atenção na portaria. O bandido armado se escondeu no banco traseiro.
O outro criminoso seguiu com a moto do professor. A vítima foi deixada dois quarteirões depois. "Mudamos nossa rotina. Instalamos cerca elétrica e câmeras de segurança. Hoje não saímos de casa sem antes olhar umas seis vezes o monitoramento em busca de pessoas suspeitas nas imediações. Ficamos traumatizados" , disse o professor.
Perfil criminosos
Condomínios fechados ou bolsões de segurança devem aprimorar suas medidas de prevenção, afirma a polícia
Com base nas informações coletadas sobre os assaltos no distrito de Sousas, os investigadores do 12º Distrito Policial (DP), traçaram um perfil dos criminosos e procuram montar estratégias de segurança com condôminos e administradores dos locais, como forma de diminuir os crimes. "Mapeamos as ações, mas dependemos da colaboração das vítimas e testemunhas para chegarmos aos criminosos e prendê-los. Além disso, também estamos orientando sobre formas de segurança" , disse o investigador-chefe, Marcelo Hayashi.
Pelas apurações, os policiais constataram três tipos de quadrilhas, que foram isoladas pelo tipo de atitude dos integrantes. Uma delas foi descrita como agressiva, cujos criminosos chegam a bater em suas vítimas. Uma segunda, é "educada" , já que os ladrões falam baixo e permitem que vítimas que estejam dormindo não sejam incomodadas. Segundo Hayashi, esses criminosos também agem com consciência e são mais experientes. E a terceira é composta pelos oportunistas, aqueles criminosos que se aproveitam da distração ou segurança do morador para atacar. "Esses tipos de criminosos nos preocupa, pois eles agem sem pensar" , comentou o investigador-chefe.
Empresário revela trauma por ter a casa toda revirada
Ainda bem que o prejuízo foi apenas material, mas, mesmo assim, dói. Dói porque levaram uma caneta que era presente de meu avô. Eu tenho muito apego por ela" , disse um empresário de 32 anos, que teve a casa invadida e furtada por criminosos no último dia 14.
O empresário mudou para o condomínio de alto padrão há três anos por considerar que o local era seguro. Mas, após o furto, ele e a mulher já pensam em se mudar. "Não estávamos em casa, mas só o fato de encontrarmos nossa casa revirada nos traumatizou. Minha mulher tem medo de ficar só" , contou.
No dia do crime, o casal foi almoçar fora. Imagens coletadas por ele, mostram que os criminosos invadiram o imóvel, dois minutos após o casal sair.
Além de diversas joias e bolsas de marcas da mulher, os criminosos levaram uma caneta de ouro e uma pasta Montblanc. A caneta tinha mais de 40 anos e foi presente do avô do empresário, antes de morrer. "A caneta estava na pasta, onde havia iPad e outros documentos de trabalho. Os bandidos retiraram tudo e levaram a pasta com a caneta" , contou a vítima. "Eles também levaram as joias que dei para minha mulher em ocasiões especiais. Joias que tinham valor emocional pra gente" , acrescentou. "É uma sensação de insegurança improcedente" , finalizou.
Criminosos evitam objetos que dispõem de rastreador
Os criminosos que agem em condomínios estão sendo seletivos em suas ações. Ao furtarem um imóvel, segundo a polícia, eles estão pegando apenas objetos pequenos e de valor considerado, deixando para trás os eletrônicos tais como televisores, iPad, notebooks, computadores e celulares, por conta de rastreadores.
Em dois dos três imóveis furtados em condomínios da região do Parque Gramado, os criminosos levaram joias, roupas, calçados, óculos e perfumes e bebidas de grite. Os aparelhos eletrônicos chegaram até serem separados, mas ficaram para trás. "Como há muitos aparelhos com rastreamento, os ladrões são encontrados após o crime. Então eles não levam mais como forma de despistar a polícia" , disse um investigador que não quis ser identificado.
Outra tática usada pelos bandidos e o monitoramento de moradores para conseguir ter acesso aos condomínios. No último caso de furto na região do Parque Gramado, segundo o delegado Luis Henrique Apocalypse Joia a moradora foi seguida por um carro até o estacionamento de uma loja de departamentos, sem perceber. No local, o alarme do carro dela foi travado por bandidos, após a mulher ativar o sistema, afastada do veículo. Os criminosos usaram um bloqueador e depois abriram a porta e furtaram objetos de valor, inclusive o TAG, que estava no porta-luvas.
No dia seguinte, dois bandidos acessaram o condomínio dela, usando o cartão. Apesar de o carro dela ser uma caminhonete, a portaria não comparou os dados do veículo cadastrado com o usado pelos ladrões. Duas casas foram furtadas. O crime é investigado pelo 10º Distrito Policial (DP).
Os ladrões circularam pelo condomínio por cerca de duas horas sem serem abordados. Em uma das casas, eles invadiram o imóvel após observarem a saída dos moradores. A casa estava trancada e a entrada foi pelos fundos, após escalarem um muro de 2,7 metros. A ação foi registrada pelo sistema de monitoramento do condomínio. Segundo a polícia, a administração do condomínio admitiu a falha. "Vale destacar que a falha não é só do morador, mas também dos condomínios. É preciso melhor no sistema de segurança" , disse Joia, que preside três investigações de furtos a condomínios na região do Parque Gramado.

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Alenita Ramirez