Publicado 26/01/2020 - 02h12 - Atualizado 28/01/2020 - 17h23

Por Daniel de Camargo

Imagem da região central de Campinas, cidade onde estavam instaladas 61% das empresas que deixaram de existir na região metropolitana: isso representa mais de 22,4 mil empresas

Wagner Souza/AAN

Imagem da região central de Campinas, cidade onde estavam instaladas 61% das empresas que deixaram de existir na região metropolitana: isso representa mais de 22,4 mil empresas

Quase metade das empresas que fecharam na Região Metropolitana de Campinas (RMC) nos últimos seis anos tiveram como principal motivo a falta de capital de giro. Segundo levantamento realizado pelo Correio Popular com base em dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e da Associação Comercial e Industrial de Campinas (Acic), 36.586 negócios encerraram suas atividades na RMC, entre 2014 e 2019. 
Do montante, 42,64%, ou seja, em torno de 15,6 mil companhias, por não dispor da quantidade de dinheiro necessária para operar regulamente. Aproximadamente 61% das empresas que deixaram de existir na RMC nesse período, estavam instaladas em Campinas, ou seja, 22.456. Desse total, 37,79% (8.486) acabaram por falta de capital de giro. As demais, por outras razões como falência, divergência entre sócios, falta de clientes, entre outros.
Professor doutor do curso de administração da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), localizada no Campus II, em Limeira, Johan Hendrik Poker Junior explica que o capital de giro é uma medida fundamental para a gestão diária das empresas. Sua falta, enfatiza, "pode ser fatal, pois impossibilitará a empresa de cumprir com suas obrigações com clientes, fornecedores, funcionários e governo". Seu acompanhamento rigoroso, entretanto, permite que o administrador identifique se a companhia está empregando mais ou menos dinheiro em suas operações e antecipe situações adversas.
Poker Junior pontua que várias razões podem levar a falta do capital de giro. Alguns exemplos comuns, detalha o docente, são atraso e dificuldade de recebimento de produtos ou serviços prestados, redução do prazo concedido pelos fornecedores para o pagamento, crescimento exagerado das vendas sem considerar as capacidades de produção/aquisição ou prestação do serviço. "O último caso é digno de nota para a atualidade", frisa.
"Vivemos um momento onde existe uma expectativa de que haja uma recuperação da economia. Empresas que estejam planejando retomar o crescimento de suas vendas devem se precaver para que não falte capital de giro. Caso contrário, poderão ter de tomar dinheiro muito caro ou podem até falir por darem um passo maior do que a perna", contextualiza. O termo para esse tipo de ocorrência, elucida, é "efeito tesoura". No caso, explica, quando a necessidade de dinheiro em capital de giro cresce mais rápido do que a empresa é capaz de obter recursos.
Poker Junior esclarece que o capital de giro pode ser obtido dentro da operação da firma ou por financiamento externo. Internamente, explana, o recurso é aumentado quando o prazo de pagamento de fornecedores é ampliado ou se alternativas forem oferecidas para estimular os clientes a pagarem à vista, por exemplo. Externamente, aconselha, a procura por financiamentos de juros mais baixos para que o custo do capital de giro não deteriore a margem de lucro da empresa.
COMO CALCULAR O CAPITAL DE GIRO NECESSÁRIO?
Segundo o professor da Unicamp, o capital de giro é calculado pela diferença entre o ativo circulante (referência aos bens e direitos que podem ser convertidos em dinheiro em curto prazo) e o passivo circulante (obrigações que normalmente são pagas dentro de um ano). No caso, subtraísse o segundo do primeiro. "Embora o cálculo use dados contábeis, é possível calcular no dia a dia da firma acompanhando as contas que compõem o AC e o PC", enfatiza.
O ativo circulante, especifica, é composto, entre outras contas, das aplicações de curto prazo e estoques de produtos acabados. Já o passivo circulante contém principalmente contas a pagar, salários, duplicatas a fornecedores. O ideal, afirma, é que a empresa busque constantemente a eficiência dos prazos mencionados acima, que irão liberar recursos da operação possibilitando que a firma seja menos dependente de financiamentos. Ao mesmo tempo, destaca, dará fôlego para o seu crescimento.
"Empresas de diferentes áreas de atividade vão ter valores ideais de capital de giro diferentes", destaca. Como exemplo, cita o setor industrial, no qual as companhias tendem investir mais o capital de giro pois tem estoques de matérias primas, além de ter prazos de recebimento de venda mais longos do que o de pagamentos de fornecedores e contas a pagar. Já um comércio, menciona, pode ter um capital de giro negativo de forma saudável, pois pode vender à vista ou com prazo curto de recebimento - por exemplo, em até 45 dias com o cartão de crédito.
Contudo, cumpre o pagamento dos fornecedores em até 90 dias, tendo margem operacional que resulta num capital de giro negativo. "Nesse caso, convém manter um saldo de tesouraria positivo (uma aplicação financeira) para imprevistos", recomenda. "A administração do capital de giro deve ser um trabalho contínuo na operação de uma empresa", garante. Uma gestão mais apurada, pondera Poker Junior, exige o desmembramento do recurso em dois valores: necessidade e saldo de tesouraria. Neste caso, a soma das quantias define o capital de giro.
Empresário põe patrimônio em risco para cobrir rombo
Proprietário de uma empresa que atua no setor de transporte executivo na Região Metropolitana de Campinas (RMC), W.F., de 45 anos, prefere não revelar seus dados para não atrelar uma imagem ruim a seu negócio. Recentemente, sofreu com a falta de capital de giro. De acordo com o empresário, ele presta serviço para uma grande firma que estende bastante o pagamento aos fornecedores e parceiros. Assim, suas contas fixas chegavam a vencer três ou quatro períodos antes dele receber.
"Comecei a não conseguir pagar todas as contas que tinha antes de receber do meu cliente. Isso é muito ruim pelo lado financeiro, mas também prejudica o comercial", recordou. Devido à dificuldade que atravessava, assegura, era mais difícil ter acesso a um capital de giro financiado.
"Os bancos são os primeiros a nos fechar as portas e o cerco vai fechando para o empresário", critica. "Se a gente não consegue se financiar corre o risco de fechar as portas", completou.
"Tive que colocar parte do que eu tinha de patrimônio no jogo para segurar as pontas a princípio", disse. Posteriormente, conheceu a Antecipa Fácil, uma plataforma que une financiadores e empresas que precisam de crédito, através de leilões online de recebíveis, de forma segura para ambos.
"Antecipei minhas notas (fiscais) lá", celebrou. Hoje, garante, está tranquilo, pois antecipa seu faturamento com a fintech. "Conseguir suportar o prazo de pagamento do meu cliente acabou virando um diferencial competitivo (...)Ter acesso ao capital giro fez toda a diferença para o nosso negócio", encerrou.
Empresa diz que volume de transações cresceu 650%
Desde o início de suas atividades em 2018, a Antecipa Fácil registra pelo menos R$ 35 milhões em recebimentos acelerados para pequenas e médias empresas da Região Metropolitana de Campinas (RMC). Segundo um de seus fundadores, Elber Laranja, em 2019, os volumes transacionados cresceram na ordem de 650%.
"Na nossa região já fizemos mais de 1,5 mil antecipações de direitos creditórios para 24 empresas", detalha. A ideia de investir nesse modelo de negócio, recorda o empreendedor, se deu a partir da união da experiência do sócio, Thiago Chiliatto, com as análises de crédito e sua visão de empresário industrial e consultor financeiro especialista em pequenos negócios. Cientes da dificuldade de antecipar recebíveis, viram um nicho de mercado. Sua fintech facilita o acesso ao capital de giro propondo o conceito inédito de leilão digital multi financiador.
Em sua plataforma online, explica, as pequenas e médias empresas podem antecipar sua nota fiscal a prazo e colocar dinheiro no caixa no mesmo dia. Isso, elogia, "mesmo que o cliente dela seja uma grande empresa que só pague por crédito em conta o que, normalmente, impede a antecipação desse direito creditório".
A média do desconto nas transações é de 5% ao mês, porém, pode cair para 1,8% com a recorrência do uso da plataforma ou melhoria de reputação junto aos agentes financeiros. "Na nossa plataforma, mesmo quando a empresa tem apontamentos restritivos é possível obter crédito", assegura.

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Daniel de Camargo