Publicado 19 de Janeiro de 2020 - 11h02

Por Francisco Lima Neto

Imagem do projeto de revitalização do prédio histórico

Divulgação

Imagem do projeto de revitalização do prédio histórico

O Solar do Barão de Itapura, na Avenida Francisco Glicério esquina com a Rua Marechal Deodoro, no Centro de Campinas, mais conhecido como prédio central da PUC-Campinas, sobreviveu ao passar dos séculos e ainda encanta quem passa por essa região da cidade.

Por lá, passaram mais de 180 mil alunos da universidade. Um projeto de restauro está em andamento para a recuperação do prédio, que é tombado e conta parte da história da cidade.

No início do século XIX, campinas trocava a economia açucareira pela cafeeira. Por volta de 1850, a então Vila se tornava um dos maiores produtores de café do Estado de São Paulo, que ainda era Província.

A produção de café trouxe grande desenvolvimento para cá, permitindo a instalação de ferrovias, hipódromo, calçamento de ruas, mercados, jardins, iluminação pública, chafarizes, associações culturais, artísticas, entre outras melhorias.

A região de Campinas, à época conhecida como Oeste Paulista, atraiu inúmeros fazendeiros, que, além de suas fazendas na área rural, construíram palacetes na cidade.

Joaquim Policarpo Aranha, nasceu em 1809, na Vila de Ponta Grossa, na então Província de São Paulo, mas se estabeleceu em Campinas, com a família.

Aos 34 anos, no dia 6 de fevereiro de 1843, se casou com a Libânia de Sousa Aranha, sua prima de segundo grau.

No mesmo dia, seu irmão, Manuel Carlos Aranha, que se tornaria o Barão de Anhumas, se casou com a também prima, Ana Teresa de Sousa Aranha.

A cerimônia ocorreu na capela da sede do Engenho Fazenda Mato Dentro, de propriedade de seus sogros, Francisco Egídio de Sousa Aranha e Maria Luzia de Sousa Aranha, pioneiros na introdução do café na região.

Ele teve grande sucesso como fazendeiro, sendo um dos mais ricos da região.

Foi proprietário da Fazenda Sete Quedas, da Fazenda Bom Retiro, da Fazenda Chapadão (que mais tarde passou a ser do Exército), dentre outras.

Aranha também teve destaque como político. Foi vereador pelo Partido Liberal no triênio 1845-1848, Capitão da Guarda Nacional, Comendador da Imperial Ordem da Rosa (pelo desempenho na Guerra do Paraguai). Em 19 de janeiro de 1883, adquiriu o título de Barão de Itapura.

O solar é obra do renomado construtor florentino Luigi Pucci e representa bem a arquitetura do fim do império, clássico e imponente.

A propriedade tem 227 cômodos, construídos em alvenaria de tijolos, substituindo a taipa de pilão, técnica empregada naquele período. Em estilo renascentista italiano, o projeto era arrojado para a época. A obra foi inaugurada em 1883, depois de três anos de duração.

O Barão residiu no solar por apenas 19 anos, já que morreu em 1902. A baronesa consorte, sua esposa, fez a passagem, coincidentemente, 19 anos depois, em 1921.

O imóvel ficou para Izolethe de Souza Aranha, única filha solteira dos seis filhos do casal. 

A história do Palacete se transforma

Quando o palacete chega às mãos da segunda geração da família, sua história começa a ser reescrita. A herdeira, a partir de 1935, aluga o edifício para a Arquidiocese de Campinas, que o usa como sede de algumas repartições da Igreja, como, por exemplo, o Instituto das Missionárias de Jesus Crucificado, instituição religiosa criada pelo bispado de Campinas.

Em 1941 o prédio é transferido para a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, até os dias de hoje mantenedora da Pontifícia Universidade Católica, a PUC-Campinas, para a instalação da Faculdade de Ciências, Filosofia e Letras. A transferência oficial de propriedade aconteceu em 1952, quando Izolethe vendeu a propriedade para a Arquidiocese.

Quando a universidade se instalou, o prédio precisou de algumas modificações, com ampliações no andar superior e a construção de anexos para atender às funções educacionais. Ainda assim é possível perceber a riqueza de detalhes e ornamentações, bem como a grandiosidade da residência original observada nas colunas jônicas, porões de teto abobadado, telhado de platibanda, janelas em semicírculos e afrescos.

Uma das características mais marcantes do edifício é o Pátio dos Leões, como ficou conhecido o antigo jardim do Solar. Restam ainda algumas palmeiras do jardim original, o portão de grade em ferro fundido e os pilares de cantaria com os leões que deram nome ao local. O Solar foi tombado pelos órgãos de preservação estadual, o CONDEPHAAT, em 1983, e municipal, o CONDEPACC, em 1988.

A história da PUC e do Solar se confundem

No início do século XX o País já contava com faculdades católicas com a criação, em 1908, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Na década de 1930, Dom Francisco de Campos Barreto, segundo Bispo da Diocese de Campinas, idealizou a criação de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Nessa época, a Igreja já administrava na cidade o Colégio Diocesano Santa Maria e a Academia de Comércio São Luís.

Para tirar o projeto do papel, Dom Barreto fundou em 1941, ao lado do cônego Emílio José Salim e do padre Agnelo Rossi, a Sociedade Campineira de Educação e Instrução, a SCEI, que teria como missão reunir as instituições católicas campineiras de ensino. A SCEI pede, então, autorização ao Conselho Federal de Educação para criar vários cursos como Filosofia, Geografia e História, Letras Neolatinas, Letras Clássicas, Letras Anglo-Germânicas, Matemática, Pedagogia, Ciências Políticas e Ciências Sociais, já planejando a expansão da recém-surgida Faculdade Campineira.

Em 7 de Junho de 1941, no Solar do Barão de Itapura, nasceu a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, a primeira unidade do que viria, mais tarde, a ser a Universidade. Assim, 14 anos mais tarde, em 1955, As Faculdades se tornaram uma Universidade Católica. Em 1972, a Universidade recebeu o título de Pontifícia atribuída pelo Papa Paulo VI. Mais de 180 mil alunos foram formados nas dezenas de cursos que funcionaram no solar durante 74 anos.

Um projeto de restauro está sendo desenvolvido pela Universidade para garantir que a história do solar continue sendo contada para as gerações futuras.

Escrito por:

Francisco Lima Neto