Publicado 12/01/2020 - 12h39 - Atualizado 12/01/2020 - 12h41

Por Alenita Ramirez

Delfino Ribeiro e o retrato da filha caçula, que foi morta aos 21 anos

Wagner Souza/AAN

Delfino Ribeiro e o retrato da filha caçula, que foi morta aos 21 anos

Dono de uma oficina para conserto de bicicletas na região do São Marcos, Delfino José Ribeiro, de 54 anos, teve a vida transformada no dia 10 de maio do ano passado, quando sua filha caçula, de 21 anos, foi morta pelo ex-namorado, em um dos 12 casos de feminicídio registrados em Campinas, em 2019.
Atormentado pela dor, ele criou uma espécie de jardim num trecho da Avenida Aladino Selmi que à época foi tomado por protestos pela morte da garota e reproduziu ali o que chamou de “Espaço Renascer”.
"Não foi fácil. Deus me ajudou. Criei um local para reflexão. Todas as manhãs e tardes venho aqui, planto, molho as plantas, cuido deste espaço e converso com quem chega para conversar", conta ele.
O autor do crime, de 23 anos, está preso. Além do continho de reflexão, o microempresário também passou a procurar famílias que também experimentaram drama semelhante, para ajudá-las a suportarem a dor, seja com palavras de consolo como também dica de assistência jurídica e outros.
"Thaís era sonhadora com os pés no chão. O que ela pudesse sonhar, sonhava. Ela era linda. Meu tesouro", diz Delfino.
Debaixo das árvores, próximo a um retorno, Delfino montou um jardim, com uma espécie de coreto, que ainda está em construção. Neste local, ele colocou uma mesa pequena, redonda, com duas cadeiras e enfeites de madeira, com flores. Todo o material é reciclado, coletado do lixo e depois reformado por ele mesmo.
Ainda no canteiro, foram plantadas flores, árvores e palmeiras. "Fico aqui, cuidando. É um local para chamar a atenção das pessoas e as fazerem refletir. Quando alguém para e pergunta, chamo para sentar e explico. Conto o que aconteceu e como minha família está sobrevivendo a este crime tão dolorido" , explica.
Thaís queria ser advogada e se preparava para cursar a faculdade neste ano. Caçula de duas irmãs - Jaqueline de Fátima, de 30 anos, e Graziele Cristina, de 28 anos, a jovem começou a namorar Lucas Henrique Siqueira Santana, aos 18 anos.
Delfino não aceitava o relacionamento, mas por amor e a alegria da filha, acabou recebendo Lucas em casa. "Eu não tinha preconceito. Mas queria que minha filha tivesse algo melhor. Até mesmo no trabalho eu queria o melhor para ela" , fala com olhar distante.
Para ter sua independência, a jovem foi trabalhar de caixa em um supermercado contra a vontade do pai – que sempre se orgulhou do fato de garantir os estudos das filhas. Mas em pouco tempo foi promovida ao cargo administrativo.
Lucas morava com um irmão doente em uma área de ocupação na região do Techno Park, nas proximidades do CDHU San Martin. Ele trabalhava como frentista e dizia que queria comprar uma casa onde iria morar depois de se casar.
Os pais dele moram em São Paulo. Segundo Delfino, o jovem era de uma família desestruturada, o que o deixava inseguro em relação ao relacionamento da filha. No entanto, ele era trabalhador e honesto. "Mesmo assim o abraçamos como nosso filho. Ele tinha liberdade em casa. Só não dormia. Minha mulher fazia de tudo para ele" , conta.
Dois meses antes do crime, Thaís decidiu colocar fim no relacionamento. Delfino não sabe qual foi o motivo, já que o casal não brigava e ela dizia que o amava.
No entanto, a garota teria comentado com a mãe que queria separar de Lucas para se dedicar aos estudos. "Mas avisou a mãe dela que queria continuar cuidando dele" , fala.
Thaís foi morta dentro do barraco em que Lucas morava, no final da tarde do dia 10 de maio, dois dias após completar 21 anos. A família não viu a garota sair de casa. Os pais souberam do crime no começo da noite. Para matá-la, Lucas aumentou o volume do som. Depois fugiu para São Paulo, de onde ligou para a polícia em Campinas e avisou onde estava. "Ele tirou tudo de bom que eu tinha" , resume.
Como protesto pelo crime e para ter forças de seguir vivo, como ele próprio define, Delfino, a família e amigos foram para a rua, protestaram e fizeram uma homenagem no canteiro central da Avenida Comendador Aladino Selmi. E foi ali que decidiu criar seu “canto de reflexão”
Protestos
O ano de 2019 foi marcado por protestos em Campinas de combate à violência contra a mulher e o feminicídio. Mesmo ainda em pequenas proporções, os atos tiveram adesão de ativistas e grupos que defendem a causa.
Pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp mostrou que a taxa média de mortes de mulheres por feminicídio em Campinas é maior do que a média do Estado.
Enquanto a média em SP é de 2,4 mortes a cada 100 mil habitantes, em Campinas esse número sobe para 3,18 casos de feminicídios a cada 100 mil habitantes.
"As manifestações são importantes no mesmo sentido da própria tipificação, a de apontar que há mulheres que morrem pelo fato de serem mulheres. Essas mulheres não são mortas pelo contexto de uma sociedade violenta por si só, mas sim por uma violência específica, uma violência contra sua condição de gênero" , destaca a advogada e ativista, Cristiane Anizeti.
"Aliás, a tipificação do crime de feminicídio, ponto final da violência contra as mulheres gera estatísticas que demonstram o grave problema social que precisa ser enfrentado com políticas públicas específicas de combate à violência de gênero.
Um grave problema social que é de responsabilidade e precisa ser enfrentado por toda a sociedade brasileira, em especial pelos poderes executivo, legislativo e judiciário em esfera municipal, estadual e nacional" , acrescenta.
Os coletivos reclamam que o governo federal, em especial, tem cortado recursos de programas de combate à violência ao em vez de aplicar recursos em políticas públicas focadas na prevenção e no atendimento das mulheres em situação de violência.
O dia 25 de novembro foi instituído como o Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres.
Em 1999, a Assembleia Geral das Nações Unidas escolheu esse dia como lembrança do 25 de novembro de 1960, quando as três irmãs dominicanas Mirabal - Minerva, Pátria e Maria Teresa - foram assassinadas a mando do ditador Rafael Trujillo. 
 
 
 
Estado registra recorde de casos em 2019
O estado de São Paulo registrou 154 casos de feminicídio entre janeiro e novembro de 2019. O número é um recorde absoluto desse tipo de crime contra as mulheres, superando os 134 crimes do gênero em todo o ano de 2018. “O feminicídio não é um crime isolado. Ele é o ápice de um processo que começa com agressões verbais, humilhações e violência física”, diz a delegada e presidente do Sindicato dos Delegados do Estado de Sâo Paulo, Raquel Kobashi Gallinati.
“Por definição, o feminicídio é o assassinato decorrente da condição de mulher da vítima. Em 79% dos casos, o autor do crime é conhecido, na grande maioria companheiros e ex-companheiros das vítimas”, diz a delegada. A motivação, continua Raquel, geralmente é ciúme ou vingança após separação do casal. Em 68% das ocorrências, continua ela, o crime ocorre dentro da casa da vítima.
A presidente do sindicato diz que o problema atinge muitas mulheres, diariamente e não se defendem por vários motivos. “Muitas vezes é por medo, dependência financeira, filhos ou porque sequer se dão conta de que estão em um relacionamento abusivo”, afirma.
“Quando elas se sentem fortalecidas para romper com esse ciclo, o agressor vê seu sentimento de posse ameaçado. É o momento em que o feminicídio acontece”, afirma a delegada.
Ela diz que na condição de delegada de polícia e presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia, está atenta e intensificando, junto com outras profissionais da área de Segurança Pública, ações diretas para colaborar no combate ao feminicídio e aos crimes contra a mulher.
Movimento
Ela lembra que no final do ano passado, foi lançado o movimento “Mulheres na Segurança Pública, que visa ampliar a presença feminina em posições estratégicas para o desenvolvimento de políticas de segurança e, com isso, aprimorar o atendimento de mulheres nas delegacias do Estado.
Ela diz que a partir deste ano, será realizadas palestras em escolas públicas para que os jovens recebam informação sobre o tema e tomem conhecimento das características da violência contra a mulher e como ela pode ser denunciada.
Crescimento
A delegada afirma que desde 2015, quando os homicídios motivados por questões de gênero começaram a ser contabilizados, os números sobem todos os anos.
“Por outro lado, em 2019, crimes igualmente violentos, como homicídios e latrocínios tiveram redução significativa, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública”, argumenta ele.
Os casos de estupro, que também atinge as mulheres, cresceu 4% entre janeiro e novembro de 2019, em comparação com o ano anterior. “É preciso agir e as mulheres que atuam no setor da Segurança Pública de São Paulo vâo estar na linha de frente”, afirmou a delegada.

Escrito por:

Alenita Ramirez