Publicado 23/12/2019 - 15h30 - Atualizado // - h

Por Kátia Camargo

A Metrópole conversou com José Pacheco durante sua passagem pelo Brasil

Gustavo Brito

A Metrópole conversou com José Pacheco durante sua passagem pelo Brasil

O professor José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, em Portugal, esteve recentemente em Paulínia para participar do III Congresso Brasileiro de Tendências e Inovação na Educação. No evento, ele falou sobre a educação na década de 20-30. O congresso realizado pelo Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE) discutiu temas referentes ao futuro da educação e práticas inovadoras por meio de palestras e debates. A Metrópole conversou com José Pacheco durante sua passagem pelo Brasil sobre a Escola da Ponte, indisciplina, bulling, tecnologia e como enxerga a educação no Brasil.

Revista Metrópole - Como começou sua história com a Escola da Ponte?
José Pacheco – Insisto em que reflitamos sobre aquilo que nos diz a Constituição da República. Ela consagra o direito à educação, diz-nos que é dever do Estado garantir a educação a todos os portugueses. Se, do modo como trabalham, as escolas portuguesas não asseguram a todos esse direito, as escolas terão o direito a continuar a trabalhar desse modo? Na Escola da Ponte, a decisão de mudar foi de origem ética. Encontrei jovens analfabetos que tinham sido ensinados do modo que eu ensinava no passado. Se eu continuasse a trabalhar do modo como, até então, havia trabalhado, aqueles jovens continuariam sem saber ler. Tomei consciência de que, dando aula, eu não conseguiria ensiná-los. Quando fiz as primeiras intervenções públicas, mais do que dizerem que o projeto era um arroubo de jovem professor, diziam-me que, quando eu fosse mais velho, iria ganhar juízo. Um dia, talvez eu conte a história da Escola da Ponte. Ela foi feita de sofrimento e resiliência.

No caso da Escola da Ponte, como é ensinar sem um dos principais símbolos educacionais: a sala de aula?
Confesso que, nos idos de 1976, eu estava quase desistindo de ser professor. Sentia que, dando aula, eu estava a excluir gente. Percebi que não devia continuar dando aula, mas eu não sabia fazer mais nada! Só sabia dar aula. A Ponte surgiu, talvez não por acaso, para me dar uma última oportunidade. Era uma escola como qualquer outra, escola pública degradada, que albergava as chamadas “turmas do lixo”, majoritariamente constituídas por jovens de 14, 15 anos, que não sabiam ler nem escrever, e que batiam nos professores. Ali, encontrei duas pessoas, que faziam as mesmas perguntas que eu fazia: “porque eu dou aula tão bem dada e há alunos que não aprendem?” Foi, então, que aconteceu algo inusitado. Como quaisquer outros professores, éramos profissionais competentes. Porém, deparávamos com a falta de um compromisso ético com a profissão. Quando modificamos o modo, asseguramos a todos o direito de ser sábio e feliz. Começamos a receber alunos expulsos de outras escolas, alunos chamados “deficientes”, acolhíamos jovens evadidos de outras escolas, enfim! Todos se transformavam e aprendiam. Chamaram-nos loucos, lunáticos e outros epítetos que, por pudor, aqui não irei reproduzir.

Como o senhor enxerga a educação no Brasil?
Acredito nos professores! E encontrei no Brasil - como havia encontrado em Portugal - muitos professores que possuem os dois requisitos básicos da profissão: competência e ética. Apenas é preciso que haja gente, educadores conscientes da necessidade e possibilidade de mudança, que se constituam numa equipe de projeto. Que saibam escutar sonhos e necessidades da comunidade em que estejam inseridos. E que ajam em função da lei e da ciência.

O senhor é um dos grandes defensores da priorização da autonomia das crianças na educação. O que isso significa? Como a autonomia é construída e por que ela é importante?
Um projeto humano é um projeto coletivo. Sozinho, pouco ou nada eu poderia fazer. Constituímos uma equipe. Respeitamos aqueles que não quiseram mudar, apesar das críticas maledicentes, que nos atingiam e perturbavam. Guiados pela intuição pedagógica e pela amorosidade, dávamos aula durante a maior parte do tempo, porque era aquilo que nos tinham ensinado a fazer. Mas fomos introduzindo alterações a partir das nossas dificuldades de ensinagem. Passamos de uma cultura de solidão para uma cultura de equipe, de corresponsabilização. Essa transformação, essa reelaboração da nossa cultura pessoal e profissional custou tempo e sofrimento. Decidimos habitar um mesmo espaço, derrubar paredes, juntar alunos. Compreendemos que, sozinhos, não poderíamos ensinar tudo a todos. Mas, se estivéssemos em equipe, com um projeto, e autonomizássemos o ato de aprender, poderíamos responder efetivamente às necessidades de cada jovem.

É possível um professor no contexto atual da escola pública ou privada, em sua classe, por conta própria, adotar um estilo que busca os bons métodos e resultados da Ponte?
Um projeto humano é fruto de um coletivo. Se o professor se juntar a outros professores, a mudança acontece. A criação de núcleos de projeto, que venho acompanhando, é prova disso.

As novas tecnologias vieram para ficar. Devem ou não estar nas escolas?
Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que transformem-se em panaceias, que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, a consumam sem critérios, sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais.
A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais, ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola? É evidente. As novas tecnologias são incontornáveis. A internet não é uma ferramenta; é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com as novas tecnologias. É certo que as escolas têm se enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. Acredito que o modo como as escolas utilizam a internet fomenta imbecilidade e solidão.

O senhor acredita numa nova construção social de aprendizagem. O que é que isso implica?
Implica uma dupla ruptura paradigmática. E a boa notícia é que já está acontecendo.

Escrito por:

Kátia Camargo