Publicado 09/12/2019 - 16h08 - Atualizado 12/12/2019 - 14h15

Por Adriana Menezes

As mulheres atletas do Vôlei Renata, em Valinhos, abdicam dos modelos convencionais de atividade profissional e de família enquanto travam suas batalhas diárias em busca de vitórias pessoais.

Leandro Ferreira/AAN

As mulheres atletas do Vôlei Renata, em Valinhos, abdicam dos modelos convencionais de atividade profissional e de família enquanto travam suas batalhas diárias em busca de vitórias pessoais.

Entre um saque e uma cortada, a dor no joelho, a saudade de casa que aperta, vem aquele sonho de amor na cabeça, o que será do futuro e as contas pra pagar; de olho no placar, vem o desejo da conquista, a paixão pelo esporte e aquela força extra dá o impulso que faltava para subir no bloqueio contra a bola do adversário. As mulheres atletas do vôlei sonham, sentem dor, choram, dão risada, lavam roupa, comem pizza, viajam, mudam de casa, abdicam dos modelos convencionais de atividade profissional e de família enquanto travam suas batalhas diárias em busca de vitórias pessoais. Unidas pela paixão e dedicação integral ao vôlei, as onze atletas travam também a batalha coletiva pelo crescimento da equipe Asa Vôlei, que nasceu como Vôlei Valinhos em 2014, ficou conhecida como Vôlei Renata, foi elevada da Superliga B para a Superliga A de Voleibol Feminino Brasileiro (com visibilidade internacional), e agora na temporada 2019/2020 conta com a chegada de um novo patrocínio da empresa campineira Asa Alumínio S/A, que se junta à também campineira – e já patrocinadora – Renata (marca do Pastifício Selmi).
As histórias de superação, de luta, de sacrifícios e de paixão das atletas são vividas longe das famílias. Todas moram em Valinhos, dividem apartamento umas com as outras e, na hora do lazer, estão juntas novamente, quase sempre para comer comida japonesa (apesar de nem todas aprovarem a escolha). Os treinos são diários, com poucas folgas e intensa agenda de jogos. Namoro, só de fim de semana. Também não há tempo para hobbies. Estudar, só com sacrifício e à distância. Romper padrões de beleza e de comportamento faz parte de suas vidas, a começar pela altura. O que importa, mesmo, é batalhar pelo esporte e pelo bem da família.
A jogadora mais velha do time, Evelyn Delogu, com 38 anos e 1,74m, começou a jogar aos 18 anos – idade já avançada para se iniciar no esporte. Paulistana que cresceu em Santos, Evelyn jogava vôlei de praia. Casualmente, uma amiga a chamou para jogar no clube, em 1998. Desde então, ela não parou mais de jogar. Hoje divide apartamento em Valinhos com Mariana Leite. No Ensino Médio, jogava e trabalhava na escola; na faculdade de Educação Física, conseguiu bolsa de estudos. Filha de jogador de futebol, ela garante que não foi influenciada na escolha profissional.
Passou por São Paulo, São José dos Campos (SP), Suzano (SP), Macaé (RJ), e dez anos fora do país: um ano na Suíça, sete na Alemanha e um na França. Voltou para o Brasil por causa de uma lesão. Em 2014, jogou em Brusque e está em Valinhos desde o ano passado. “Tem o bônus e o ônus, como em qualquer trabalho, mas ficar longe da família é o mais difícil. Quando surge um problema, o que você mais quer é a família. Dá vontade de ir embora”, destaca Evelyn. “Mas não tenho dúvida sobre o vôlei”, afirma. “Não me arrependo de nada. Larguei a faculdade, viajei, sacrifiquei até o sonho de ser mãe. Mesmo assim não me arrependo.” Apesar de estar na fase que ela chama de “fim de carreira”, a jogadora diz que não sabe o que vai fazer quando parar de jogar. “O Brasil tem um dos maiores campeonatos do mundo, mesmo assim é muito difícil fazer planos. Parei de planejar, porque é tudo incerto. As equipes dependem dos patrocinadores, mas isso oscila muito, não existe segurança.”
'Não é fácil paquerar'
Mariana Leite, 29 anos, 1,79m, divide o apartamento com Evelyn. Elas vão juntas aos dois treinos diários, um pela manhã e outro no final da tarde e início da noite – quando não tem jogo. Mariana começou a jogar aos 11 anos, como uma brincadeira de escola, em Curitiba. Na escolinha de vôlei se destacou e foi indicada para o clube. Ficou até 2006 no Juvenil e foi para São Paulo, sem a família. Depois de sete anos no vôlei, resolveu parar tudo para cuidar da sobrinha, filha de sua irmã.
“Foi uma decisão pessoal, sem pressão de família.” Hoje a sobrinha tem 12 anos e Mariana, antes de retornar ao vôlei, tornou-se bacharel de Estética (em Curitiba) e concluiu Pedagogia (em São Paulo). “Encontrei na Pedagogia uma outra missão para a minha vida, que é trabalhar com criança. Quando eu era criança, pensava em ser professora. Ser mãe também é um sonho que eu tenho.” Mas ela reclama que não é fácil paquerar: “A gente nunca está no lugar certo. Perde as datas festivas por causa dos treinos, então acaba se relacionando só com pessoas do esporte.” Mariana tem um irmão que joga futebol profissional, seguindo os passos do pai que também jogou e hoje participa de campeonatos master.
Também aos 11 anos, Gabriella Pena, 24 anos, 1,84m, começou a jogar vôlei. Foi um pouco por acaso, jogava despretensiosamente, quando se destacou. Fez um teste na escola e passou a jogar no time da cidade, Uberaba (MG). Logo começou a jogar no campeonato regional. Em 2011, o time acabou. Fez teste para o Praia Clube da cidade de Uberlândia. A esta altura já sabia o que queria. No começo, não quis sair da sua cidade. “Mas minha mãe falou: ‘Vai’”. Desde então, a mãe passou a acompanhar, e logo já estava jogando profissionalmente na categoria de base. Aos 18 anos, saiu de Uberlândia e foi para São Paulo. Jogou no São Caetano (SP), depois em Piracicaba (SP), em Belo Horizonte (MG), e retornou para São Caetano (SP). Desde o ano passado está em Valinhos, na segunda temporada.
Filha única, Gabriella diz que sua mãe jogava vôlei, basquete e futsal na faculdade. Ser atleta era o sonho da mãe, que machucou o joelho e parou. “Mas eu jogo porque sempre gostei de jogar na escola.” Dos 14 aos 15 anos, já começou a ficar sozinha em Uberlândia, longe da mãe, já viúva. “Eu me senti só várias vezes. Quando estava em casa, pensava em não voltar.” Antes de começar a jogar, desejou ser médica pediatra, “por isso eu estudava muito, mas o vôlei se transformou numa paixão maior”. Hoje Gabriella faz faculdade à distância de Educação Física, e pensa em fazer Fisioterapia. Em Valinhos, ela mora com as jogadoras Vivian Caroline e Franciane Richter.
Vivian Caroline, 28 anos, é a mais alta do time, com 1,91m. Começou a jogar aos 13 anos em Belo Horizonte. A mãe a inscreveu em um teste. Já chamou a atenção de imediato por conta da altura. “Era um sonho de minha mãe, que gostava de jogar vôlei na rua com o meu pai. Eu fui, não tinha nada o que fazer mesmo.” Vivian ficou cinco anos no Minas Tênis Clube. “Por não ser sócia, tive dificuldades.” Aos 17, surgiu a oportunidade de jogar em Franca (SP). “De lá, já fui jogar em muitos lugares, como Piracicaba, São José dos Campos, Belo Horizonte (Mackenzie).” Em 2012, fez uma cirurgia no joelho e ficou um ano parada. “Achei que não jogaria mais.” Foi convidada para jogar em Piracicaba, onde ficou até 2016. Passou por São Bernardo do Campo (SP) e depois Valinhos, onde está há três anos.
“O mais difícil é superar as dores. Você nunca está sem dor. Todos os dias ela vem.” Com a distância da família, que mora em Belo Horizonte, Vivian já se acostumou. Agora administra a distância do namorado. Desde 2015, namora um atleta do vôlei, que conheceu em Piracicaba. Quase todos os finais de semana eles se encontram. “É complicado.” A rotina é puxada, exige exclusividade das atletas. “A nossa vida é isso aqui”, resume Vivian, que tinha vontade de estudar Gastronomia.
Carreira relâmpago
Aos 12 anos, em Ubatuba (SP), Anny Caroliny, 27 anos, 1,89m, começou a jogar vôlei porque não tinha vaga na natação. Em pouco tempo já estava no time da cidade. “Foi muito rápido.” Aos 13, participou de um jogo em São José dos Campos (SP), onde foi convidada a jogar em São Caetano (SP). “Mas minha mãe só deixou sair a partir dos 14 anos.” Ficou até os 18 no São Caetano, onde acumulou conquistas. Anny foi para o Maranhão Vôlei em 2013, e não parou mais de rodar. “O voleibol é demais. Ele me permitiu viver muita coisa diferente.” Em 2016, parou o voleibol. “Resolvi dar um tempo, porque aconteceu tudo muito rápido e intenso. Eu precisava descansar. E foi um período de poucas oportunidades no esporte. Voltei em 2018. Eu estava no Chile, e agora estou há três semanas em Valinhos. Fiquei apenas cinco dias em casa entre o Chile e Valinhos. Ainda estou me adaptando”, diz Anny, que mora com Maiara e Fernanda.
“Ser atleta de vôlei é estar sempre pronta para mudanças. Você tem que estar completamente disponível”, define Anny. Por ser instável, é preciso também economizar e sempre buscar oportunidades. “Penso em morar em Ubatuba no futuro, e terminar de construir minha casa.” Ela não tem nenhum atleta na família, mas conta com o apoio dos pais.
A barreira do machismo
Primeiro Fernanda Oliveira, 28 anos, 1,72m, queria ser jogadora de futebol, em Belo Horizonte (MG), onde nasceu. “Sempre gostei do esporte, mas antes havia um preconceito maior com meninas no futebol, muitas piadas, machismo, e eu não tinha a cabeça de hoje para bater de frente e seguir com aquilo que gostava na época”, avalia. Tudo isso a levou para o vôlei, “que me apaixonei de cara”. Fernanda começou aos 14 na modalidade, o que já é considerado tarde. Levada pelo pai a uma escolinha no bairro onde morava, ela se destacou no time e recebeu muito incentivo da família e de amigos. Antes de saber que foi aceita no Olympico Clube, em Belo Horizonte, perdeu seu pai, que foi o responsável por seu início no vôlei. “Todas as vezes que estou em quadra, jogo por mim e por ele”, diz emocionada.
Para Fernanda, ficar longe da família é também a parte mais difícil, mesmo jogando há 11 anos profissionalmente. ”Sempre que possível procuro ver minha mãe, minha fã número um, a quem também dedico toda minha carreira.” Graças ao vôlei, conquistou sua independência. “Tenho meu apartamento em Belo Horizonte que é pra onde vou nas minhas férias. Sou solteira e tenho dois filhos: um gato e uma cachorra. Meus companheiros.” A atleta também é apaixonada pela culinária. “Tenho planos de abrir um restaurante quando me aposentar do vôlei “, revela Fernanda, que está feliz na equipe de Valinhos. “Adoro a cidade, adoro o projeto, entrei de cabeça para o time e espero que os nossos objetivos sejam cumpridos nessa temporada.”
A paranaense Maiara Basso, 23 anos, 1,87m, nascida em Palotina, começou a jogar vôlei por brincadeira, até que um time de Marechal Cândido Rondon (PR) a chamou para fazer um teste, com 15 anos. Permaneceu lá por quatro anos, competindo e cursando o Ensino Médio. Quando concluiu, passou na faculdade, mas foi convocada para a Seleção Brasileira de Voleibol, para competir no campeonato sul-americano. Trancou a faculdade e foi. A partir daí o vôlei passou a conduzir seus caminhos. Hoje em Valinhos, Maiara comemora por estar na equipe. “Jogar Superliga é para poucas que têm oportunidade, o nível do vôlei é muito bom, por isso aceitei o convite.” Seu sonho é jogar na Liga Italiana de vôlei, “uma das melhores do mundo”, e para o futuro continua se imaginando atleta do vôlei, com mais reconhecimento.
Com apenas 19 anos, Karine Bremm Schossler, 1,81m, já joga há seis anos. “Comecei aos 13, de forma despretensiosa. Aos 15, saí de casa para o mundo do voleibol”, diz a gaúcha nascida em Ijuí, recém-chegada a Valinhos para jogar na equipe Asa Vôlei. “Tenho gostado muito de todos os aspectos daqui. O vôlei foi onde me encontrei, realmente faço o que mais gosto e estou feliz pela oportunidade.”
Equipe
O time Asa Vôlei é composto hoje por onze jogadoras: Mariana Leite, Gabriela Pena, Vivian Rodrigues, Evelyn Denogu, Anny Caroliny, Maiara Basso, Fernanda Oliveira, Karine Bremm Schossler, Franciane Richter, Camila dos Santos e Laís Lima. A equipe disputa a Série A do Campeonato 2019/2020 de Vôlei Feminino Brasileiro.
Um sonho possível
O técnico da equipe Asa Vôlei, André Rosendo, de 44 anos, é o criador e gestor do Projeto Voleibol Valinhos. Há cinco anos ele está à frente do time, que tem uma trajetória de altos e baixos, entre a Superliga A e B. Depois de viver na Europa, trabalhar na Seleção Brasileira de Vôlei Feminino, acumular títulos com grandes técnicos e equipes (juvenil e adulto), vencer sul-americanos (2007, 2013) e a olimpíada (2012), Rosendo voltou ao Brasil em 2012 com a ideia de criar um time.
Antes de fazer Educação Física e se dedicar integralmente ao esporte, trabalhou dos 14 aos 32 anos na Volkswagen. Com formação técnica em eletrônica, sua paixão pelo esporte falou mais alto e ele trocou tudo pela carreira no vôlei, quando ainda fazia estágio da faculdade no time de São Caetano do Sul, em 2006. O técnico o convocou para trabalhar na seleção brasileira de vôlei e nunca mais ele saiu. Ficou de 2007 a 2017 trabalhando especialmente com as estatísticas.
Sobre o jovem time de Valinhos, Rosendo acredita no enorme potencial da equipe. “O esporte precisa crescer junto com a cultura e a educação. Precisamos deixar de ser vistos como jogadores de bola. O tempo inteiro estamos lutando para nossa sobrevivência”, avalia o técnico. “O vôlei do Brasil é excelente. É o segundo esporte no País. E no mundo nós sempre estamos no pódio. Ainda assim, a nossa luta ainda é pela sobrevivência.”
“Nos últimos dois anos estamos com muitas dificuldades, mas eu entendo que hoje o vôlei precisa se reinventar. Estamos fazendo reuniões entre os clubes para discutir isso”, revela. Segundo Rosendo, o investimento na sua equipe por temporada, que dura dez meses, gira em torno de R$ 600 mil. “Não chega a R$ 1 milhão em quase um ano. Isso é o que um time forte investe em um mês, como em Bauru, por exemplo. O patrocínio é fundamental para o fortalecimento do vôlei brasileiro.”

Escrito por:

Adriana Menezes