Publicado 05/12/2019 - 10h44 - Atualizado 05/12/2019 - 10h44

Por Cláudia Antonelli

A Terrinha é logo ali

Divulgação

A Terrinha é logo ali

É interessante nos referirmos a Portugal como “a terrinha”. Algo de um diminutivo afetivo, mas um diminutivo. Cabral teria saído de um território bem menor que o estado de São Paulo, para encontrar diante de si outro brutalmente gigantesco, tempos depois denominado República Federativa do Brasil, sua colônia. Um pouco como o pai que cria o filho que será então, muito maior que si. E também bem diferente.
Temos algo de Portugal em nós, historicamente. Temos registros do colono em nosso DNA brasileiro, em nossa arquitetura carioca, em nossas reminiscências portuguesas – culinária, gostos, alguma estética, literatura sem dúvida (Camões nos é imortal; Pessoa e Mário de Sá-Carneiro nossos irmãos na poesia). Na música nem tanto – o fado é lindo, mas nos causa alguma estranheza: muito diferente do nosso samba, o fado nos é estrangeiro. Temos nossa própria música. Portugal é um azulejo azul e branco em nossa muralha de muitas cores – africana, italiana, japonesa, espanhola, alemã e outras, sem nos esquecermos do próprio legado nativo.
No entanto é curioso encontrar tantos brasileiros lá presentes hoje em dia. Trabalhando, vivendo. Uma sensação (em mim) de testemunhar nos brasileiros de lá um ‘retorno à casa’, depois de muitas gerações: se formos, somos agora netos, bisnetos, tataranetos de portugueses. Com estes descendentes em além-mar, as responsabilidades são grandes e também já não são mais.
Parecem gostar dos brasileiros ao mesmo tempo em que parecem nos perguntar, vamos lá fazer o quê, exatamente? A Espanha, sua vizinha, é - mais do que conosco -, uma relação de amor e ódio (é uma vizinha). Portugal teve também relações históricas importantes com celtas e mouros norte-africanos; e hoje em dia por alguma razão, encontram-se lá além de brasileiros em busca de trabalho e vida, muitos nepaleses. Não somos os únicos a ocupar seus pensamentos.
O mar aberto e o orgulho pelas navegações em um tempo em que os limites e as fronteiras eram totalmente desconhecidos marcam-lhes o rosto e a costa: monumentos, fortes, faróis. Mistura entre o antigo e a tentativa do novo; solidificar este lugar entre dentro e ao mesmo tempo ‘na ponta’ da Europa; entre a terra e o mar. As construções imagéticas e reais deste país são muitas. A poesia necessariamente está presente; os Lusíadas de Camões é talvez o mais conhecido fruto e a prova.
“A Cláudia”, falam assim com você mesmo, em terceira pessoa. Dá esta curiosa sensação de alguma distância. Enquanto nós da colônia dizemos “Vossa mercê” (você). Somos diferentes. A língua nos assemelha ao mesmo tempo em que nos distancia.
Olavo Bilac (que dá nome àquela rua do Cambuí), foi um poeta brasileiro que intitulou um de seus mais belos poemas, Língua Portuguesa: “És, a um tempo, esplendor e sepultura: Ouro nativo... /A bruta mina entre os cascalhos vela/ Amo-te assim, desconhecida e obscura(...)/Amo-te, ó rude e doloroso idioma/Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"”.
Mas os chiados da língua não são nossos; e o Chiado, lindo bairro, é deles. Os pastéis são de fato bons – e o segredo talvez não seja somente a receita, mas o desejo de que algo não lhes seja tirado, transformado; algo permaneça, para sempre, no mesmo lugar. Já foram a maior potência europeia (à época dos descobrimentos) – já não são mais; já tiveram reis e rainhas e já não têm mais; já fomos sua maior colônia e já não o somos mais. Algumas perdas importantes a se considerar na história deste país que ainda assim, é considerada uma das nações mais pacíficas do mundo. São desbravadores, mas não são bélicos.
Talvez o espírito de colorido melancólico os tenha segurado (o que já não teria ocorrido com os vizinhos espanhóis e suas sanguinárias conquistas).
Temos sim, algo profundamente em comum. Algo trazido, um pouco esquecido, mas não perdido; assim como o bisneto com seu bisavô. Temos algo intimamente em comum; mas também distante, ainda aqui.
Temos a fotografia em preto e branco; mas o oceano atlântico, azul e vivo – como de seus azulejos -, que nos toca a ambos. Estive lá para um breve encontro internacional de Psicanálise. Os colegas me receberam da melhor maneira, como não poderia deixar de ser. Enquanto escrevo provo um tinto de Alentejo que de lá me ofereci: um blend de Aragonez, Trincadeira, Touriga Nacional e Syrah. Delicioso! Mas há muitos outros - a arte lhes é de longa data conhecida.
Mas Portugal, tenho a impressão, é muito mais que seus doces, vinhos, queijos e cozinha maravilhosos (incluindo seu arqui-famoso bacalhau). Entendê-la assim somente seria querê-la simples. É uma nação pequena, mas complexa. Conheci pouco ainda, porém já percebo que ao mesmo tempo em que buscaram crescer para além de seus muros e sair de si (como fizeram na época das navegações), hoje buscam estar mais em casa, consigo, com o que são e sua própria história – ainda que parte de uma comunidade maior, a europeia.
Fico assim, por ora com este registro: nem tão próxima mais, mas a terrinha é logo ali.

Escrito por:

Cláudia Antonelli