Publicado 31/12/2019 - 12h39 - Atualizado 31/12/2019 - 12h39

Por Carolina Scoz

A nova safra

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A nova safra

Ano-Novo
As primeiras comemorações de Ano-novo de que se tem registro datam de 4000 anos atrás. Aconteciam na Mesopotâmia e celebravam o fim do inverno e o início da primavera, simbolizando a nova safra de alimentos.Persas, assírios, egípcios e fenícios pediam que a terra espalhasse generosamente os frutos que nutririam seus dias até o final do verão e encheriam seus depósitos para os meses frios e secos.
Era um tempo em que a sobrevivência dependia de colheitas sazonais. Ainda não dominávamos o solo, como proprietários de uma máquina produtiva ajustada a nossos interesses. Humildes diante da Natureza, esse gigante imprevisível, pedíamos que não esquecesse, sobretudo não castigasse, quem precisava de sua benignidade. Celeiros esvaziados significavam fome, doença e morte. Dependíamos da nova safra, não apenas a desejávamos. Por isso éramos gratos a terra. Por isso a amávamos.
Réveillon
Se devemos aos romanos a fixação de uma data para o Ano-novo ocidental no dia 31 de dezembro do calendário gregoriano, é aos franceses que cabe o mérito por esse nome poético: Réveillon, nascido do verbo réveiller, “acordar”, “despertar”, “levantar”. Algo estava desfalecido como uma safra abundante que chegou ao fim, num cenário pálido de galhos retorcidos e folhas levadas pelo vento. A jovialidade exuberante pulsou durante meses até que adormeceu feito um corpo exausto. Nu, deitado no silêncio.
É o final do inverno e início da estação sensualíssima que inunda a terra de flores e frutos, tinge o céu de azuis, rosas e laranjas, sopra uma brisa perfumada por dias e noites, atravessando todo o verão até que chegue o outono. A divisão de estações atualmente não vale em muitos países. Na América do Sul, a passagem de ano ocorre no meio do verão. Na Europa, no meio do inverno. Mas a metáfora vale: o que estava adormecido finalmente acordará para viver. Roupas brancas, como noivas e noivos. A busca de um mar que revigore o corpo sedento. Ondas mansas banhando pés fatigados da longa ciranda de alegrias e aflições. Diante da imensidão de água, cujos limites os olhos não alcançam, lembramos que somos pequenos demais para saber o que virá quando amanhecer o próximo ano. A noite ainda é escura quando espocam os fogos no céu, desenhando corações e estrelas no oceano. Réveiller, novamente.
Conversa sincera por WhatsApp
Estavam distantes exatamente naquele primeiro 31 de dezembro. Poderia ser o primeiro Ano-novo – ou Réveillon – que viveriam juntos. Combinaram que falariam por telefone quando faltassem 10 minutos para meia-noite. Era uma espécie de manobra imaginária para anular os milhares de quilômetros e ficar juntos diante do mar, embora cada um estivesse numa metade do planeta. Se ao menos enviassem palavras, como náufragos lançam mensagens em garrafas, então não iniciariam o ano totalmente separados.
Quem começou foi ele, já que no hemisfério sul o Ano-novo chegava antes. Foi direto ao assunto: precisava saber por que ela o havia escolhido. Queria ouvir dela uma confissão pronunciada com frases inteiras, não apenas insinuada. Era, talvez, uma forma de antecipar quais as chances de a relação “parar de pé” (engenheiro, ele gostava de metáforas que remetessem a forças e formatos). Mas ela não sabia como responder. Ocorreu-lhe Maurice Blanchot e sua crítica dura à pretensão do conhecimento absoluto: “A resposta é a desgraça da pergunta.” Guardou para si a citação filosófica – afinal, Mauro não queria encerrar o assunto, ele precisava apenas de uma resposta que acalentasse seu coração temeroso. Queria “monitorar riscos para minimizar danos" (era sua maneira técnica de dizer: “Não aguento mais sofrer").
Tantas explicações saltavam na mente dela e nenhuma parecia verdadeira. Sabia que caso escrevesse qualquer uma dessas razões numa mensagem, imediatamente a explicação desabaria como um prédio mal sustentado. Além disso, acreditava que as paixões sobrevivem por razões misteriosas, mesmo quando os encantos iniciais começam a assumir uma feição menos romântica. O jeito silencioso daquele homem, tão atraente desde que o conheceu, quem sabe um dia a deixasse irritada e insegura. Seu virtuoso desapego a bens materiais quem sabe incitasse uma discussão quando, no futuro, comprasse um bonito par de sapatos fora da promoção.
Não tinha vontade de analisar os “pilares da relação” (uma das expressões favoritas dele) quando estavam distantes, ela a algumas poucas horas do Ano-novo, ele a um minuto.
- Com você eu nunca canso – ela respondeu.
Ele parou de pedir explicações. Ela parou de buscá-las. Estavam juntos porque voltaram a desejar a vida, incerta e injusta que seja algumas vezes. Juntos, fizeram brotar nova safra. Melhor? Maior? Não importa agora. O milagre é brotar, sempre, depois de todos os cansaços e desesperanças.

Escrito por:

Carolina Scoz