Publicado 04/12/2019 - 11h29 - Atualizado 04/12/2019 - 11h29

Por Aquiles Reis

Um músico diferençado

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Um músico diferençado

Apresento-lhes Rio Joy (independente), CD do guitarrista, compositor e arranjador Alexandre Carvalho. Jazzista respeitado no universo da música instrumental, em seu segundo disco o jazz está presente em cada uma das três composições autorais dele, bem como está vivo nas outras cinco faixas do álbum.
Um parêntese: a música negra norte-americana está para o jazz como a música negra africana está para a música brasileira. O banto e o angoma impregnam o som ancestral brasileiro, enquanto a guitarra e o blues disseminam a música negra da região do rio Mississipi.
Tendo na negritude a mesma gênese – um lamentoso e belo contraponto à violência escravagista –, dela nasceu, cresceu e ganhou o mundo a música que expõe a ignomínia da escravidão, diáspora análoga ao holocausto... Meu Deus! Fecho parêntese.
Sinto no som de Alexandre Carvalho a força que mescla o samba ao jazz, criando uma atmosfera de congraçamento da música instrumental brasileira com o jazz americano. Algumas audições do álbum bastaram para me fazer crer numa simbiose dos gêneros ancestrais das músicas que fazem de Brasil e EUA países com as melhores músicas do mundo.
Além das três composições de Carvalho (Rio Joy, que empresta o nome ao CD, Nica’s Mood e Waltz Nova) já citadas anteriormente, a seleção das outras cinco músicas vem ao encontro à minha percepção de congraçamento: Samba Jazz (JT Meirelles), La Calle 92 (Astor Piazzzolla), The Dolphin (Luiz Eça), Duke Ellington’s Song of Love (Charles Mingus) e Armadilha (Henrique Alvim).
Para tocarem com Alexandre Carvalho, lá estão o sax de Fernando Trocado, o baixo de Jefferson Lescowich e a bateria de Vitor Vieira. Assim, ao ouvirem o CD (o que recomendo vivamente), sintam que nos arranjos, todos de Carvalho, não há lugar para estrelismos. Sob o comando da emoção, solos e duos têm luz e força.
Rio Joy é um CD no qual o samba e o jazz soam determinantes, dignos dos gêneros que representam. Sendo ainda melhores quando conjuram forças e quando, formidáveis, cada um está em sua praia.
Outra coisa, eu não conheço pessoalmente o Alexandre Carvalho, mas ele me passa a impressão de ser uma pessoa segura, um sujeito com autoestima alta, preparado para conviver com a música e com as pessoas.
E eu posso estar enganado, e não seria o meu primeiro tiro n’água, mas ao contrário do que seria razoável esperar (ou seja, guardar para si o fulgor do trabalho que traz seu nome na capa), Carvalho fez arranjos nos quais divide o protagonismo com o sax de Fernando Trocado, dando-lhe generosos compassos e tornando o CD mais plural.
A Carvalho cabe tirar sons concisos da guitarra e criar grooves e improvisos vitoriosos e da mais alta categoria. E também, e bota bem nisso, solar, tocar em duo com o sax e o baixo – sempre com a batera dando-lhes suingue – e fazer música de boa qualidade.
Como já disse, não conheço Alexandre Carvalho, mas assevero que o cara é instrumentista e arranjador diferençado.

Escrito por:

Aquiles Reis