Publicado 04/11/2019 - 15h36 - Atualizado 04/11/2019 - 15h43

Por Daniela Nucci

É graças ao seu sabor exótico, nuances aromáticas e nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo, que a pimenta reina

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É graças ao seu sabor exótico, nuances aromáticas e nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo, que a pimenta reina

De uns tempos para cá, a pimenta tem deixado de ser aquele condimento que os amantes dos sabores ardentes costumam acrescentar aos pratos mais suculentos. Porém, seria difícil imaginar que ela pudesse entrar na formulação de produtos como geleias, doces, chocolate, drinques, cervejas artesanais e, mais recentemente, até em produtos de cosmética e perfumaria. 
Mas é na culinária, graças ao seu sabor exótico, nuances aromáticas e nutrientes essenciais para o funcionamento do organismo, que ela reina. Para muitas culturas, é imprescindível, como a mexicana, a peruana, e de alguns países asiáticos, onde uma boa parte da população não abre mão de uma picância. 
Opções não faltam, pois existem mais de 10 mil variedades dos frutos de pimenteiras apreciados em várias regiões do mundo. “Sua ardência em muitos pratos culinários fica por conta dos seus diversos tipos. Há quem não abre mão desse ingrediente na preparação de vários pratos e, quanto mais ardida, melhor. As pimentas se diferenciam pelo grau de picância, o que também determina a quantidade e tipos de substância que possuem”, explica a nutricionista mestre em clínica médica pela Unicamp, Salete Brito.
Mas, por trás da ardência e da função de acentuar o sabor dos alimentos, a pimenta também oferece vários benefícios à saúde. “Por esse motivo esse fruto está tão em alta, pois têm vários princípios bioativos, que são conhecidos por serem substâncias funcionais, cuja propriedade está muito além de apenas nutrir, e sim, trazer vários benefícios para o corpo e a saúde”, diz Salete. Segundo a profissional quanto mais picante a pimenta, maior o teor de capsaicinóides, substâncias consideradas funcionais, que apresentam ações antimicrobiana, anti-inflamatória, anticancerígena, entre outras. “Esses compostos determinam a ardência da pimenta, expressa por uma escala chamada Scoville Heat Units (SHU) ou Unidades de Calor Scoville. O teor de picância pode variar de até um milhão de SHU”, explica. A capsaicina confere a coloração avermelhada e possui potente ação antioxidante, o que a faz importante na prevenção de doenças. Pesquisas mostram que o consumo da capsaicina em cápsulas não traz os mesmos benefícios desse fruto, para isso é preciso sentir o ardor da pimenta. Na pimenta amarela, a violaxantina é o principal carotenóide, responsável por mais de 60% dos antioxidantes presentes nesses frutos. Além disso, as pimentas possuem luteína, composto também encontrado em vegetais de folha verde, importante para a manutenção da saúde dos olhos; acido ferúlico, um ácido com propriedades antioxidantes e, por isso, determinante para a prevenção de doenças crônicas que atingem o nosso sistema nervoso e o ácido sinapínico, outro tipo de antioxidante, que possui ações antitumoral e anti-inflamatória. Elas também são fontes importantes de vitaminas A, C e E; potássio, zinco, ácido fólico, flavonoides, que são poderosos antioxidantes, combatendo a produção de radicais livres, que levam ao envelhecimento celular, portanto, essas substâncias protegem o organismo contra o envelhecimento, aponta a nutricionista.
 
Propriedades da pimenta
Colabora para a perda de peso
Para Salete, é importante reforçar que nenhum alimento sozinho tem esse poder. “A perda de peso é resultado de uma combinação de alimentos saudáveis e balanceados com a prática regular de atividades físicas. No caso da pimenta, o que acontece é que a capsaicina é um dos melhores termogênicos naturais existentes. Isso faz com que a temperatura corporal seja elevada e assim as células usem nossa reserva de gordura para compensar o gasto energético”, explica a nutricionista. Além disso, alguns estudos mostram que esse mesmo composto converte a gordura branca em gordura marrom. E essa segunda gordura é saudável, uma vez que ajuda no controle das taxas de glicose e de insulina na circulação, o que inibe o acúmulo de gordura.
Efeito analgésico
A pimenta tem efeito analgésico graças também a capsaicina, que tem o poder de se ligar aos receptores da dor e promover uma redução nessa sensação e ainda propiciar o relaxamento da musculatura local. “No entanto, quem sofre de gastrite ou refluxo, o efeito pode ser justamente o contrário”, alerta Salete.
Aliada da pele
Indiretamente aliada a pele, a pimenta é rica em vitamina C, importante nutriente para a formação de colágeno, responsável pela firmeza da pele, o que evita a formação das indesejáveis rugas. “Além de ser rica em antioxidantes, como já dito anteriormente, a pimenta protege a pele contra a formação de radicais livres, portanto, prevenindo o envelhecimento precoce”, diz a nutricionista.
Redução do colesterol
Também auxilia na redução do colesterol, pois tem potente ação antioxidante, que vai prevenir a oxidação das gorduras para colesterol ruim. Pesquisas mostram que o consumo regular de pimenta dedo-de-moça, a mais popular no Brasil, pode diminuir as taxas de colesterol em 45%, segundo Salete.
Reduz a pressão arterial
Pesquisas mostram que capsaicina pode ser uma grande aliada na redução da pressão arterial, pois essa substância estimula o aumento da produção do óxido nítrico (um potente vasodilatador do corpo), que favorece a dilatação dos vasos sanguíneos, favorecendo a diminuição da resistência a circulação sanguínea.
Alivia a dor
O aumento do fluxo sanguíneo (também pela estimulação do óxido nítrico) em algumas regiões do corpo quando consumimos pimenta pode ajudar no alívio de dores, como dor de cabeça e enxaquecas, por exemplo.
Restrições para o consumo
Há alguns casos em que o consumo pode causar irritação nos órgãos digestivos. Isso acontece especialmente em pessoas que possuem gastrite. Portanto, apesar dos benefícios do consumo de pimenta, é necessário cuidado ao ingeri-las; é bom começar a experimentar com porções bem pequenas.
O que fazer quando a pimenta arder muito
O reflexo imediato de ingerir muita água ao exagerar na pimenta é a pior coisa a se fazer. A água espalha a capsaicina pela boca, o que prolonga a ardência. “O melhor é tomar um copo de leite integral, uma vez que a caseína, proteína presente no leite, anula o efeito da capsaicina”, indica a nutricionista.
 
Pimentas mais populares
Dedo-de-moça: originária do Brasil, com sabor e aroma mais suaves se comparada às outras. Pode ser consumida em molhos, pratos quentes e até em sobremesas.
Biquinho: arredondada com prolongamento na ponta, formando um bico, daí o nome. Vermelha, é bem menos picante que a maioria das pimentas, chegando a ter um sabor adocicado. Também pode se aproveitar a doçura da pimenta em uma geleia leve.
Rosa: originária do Brasil, tem sabor leve e aroma forte. Na realidade, a sua leveza se dá pelo fato de ela não ser exatamente uma pimenta e sim o fruto da árvore aroeira. Seu uso é comum tanto em receitas doces, quanto em salgadas.
Malagueta: uma das mais picantes, é utilizada em receitas como tempero, e vai também em molhos ou como adição em vinagre (onde normalmente é conservada) em preparações culinárias. É a preferida Nordeste do Brasil.
Jalapeño: originária do México, tem sabor característico e picância mediana. É colhida ainda verde e pode ser utilizada crua ou preparações como recheios, molhos, carnes, geléias, tacos. Pode ser consumida em conserva, desidratada, em molhos ou crua.
Pimenta-do-reino: pimenta preta, típica da Índia, rica em piperina, substância com propriedades termogênicas. O Brasil é um dos maiores exportadores desse condimento.
Jamaicana: muito picante e, por isso, não deve ser consumido por qualquer pessoa. Normalmente, é utilizada na preparação de molhos.
Tabasco: vermelha e picante. Pimenta mexicana, e seu molho é muito conhecido no mundo. Muito utilizada em porções e entradas.
Habanero: de origem mexicana, é a pimenta mais picante da lista. Possui tons intensos e pode ser vermelha, rosada, verde, amarela ou alaranjada.
Chilli: é uma pimenta norte-americana. Muito conhecida, é encontrada nas cores vermelho, amarelo, laranja ou verde. É bem picante e pode ser consumida fresca, em pó ou como molho concentrado.
Thai: Famosa na gastronomia tailandesa e asiática, ela é verde ou vermelha e comprida. Sua picância é alta, por isso só quem está acostumado com isso deve experimentar.
Pimenta-de-cheiro: por ser bem aromática ter baixo teor de picância, é muito apreciada. É um fruto alongado, usado no preparo de peixes e frutos do mar. É bem comum no Nordeste, em especial nos refogados do Piauí e Maranhão.
 
Conservas de pimenta
Hoje existem diversos tipos de conservas de pimentas no mercado. Esta preparação pode ser elaborada com diversos ingredientes, sendo o azeite e o vinagre os mais utilizados, segundo Salete, que dá dicas na hora do preparo.
Conserva em vinagre: essa conserva apresenta menor risco de contaminação (acidez do vinagre evita o crescimento bacteriano) além de permitir uma série de combinação de ingredientes. É possível fazer uma série de composição com diversos tipos de pimenta no mesmo frasco.
Conserva em azeite: esse tipo de conserva requer muita atenção, pois se houver algum tipo de contaminação corre-se o risco de gerar uma intoxicação alimentar. Por isso, é indicado que esse tipo de conserva seja feito por pessoas qualificadas na área.
Doces com pimenta
A confeiteira Thais Nunes Macedo é fã de pimenta e até deu o nome de sua empresa como Pimenta Rosa Doces Finos. “Queria associar a doçura com o nome forte da pimenta. Foco em produtos artesanais e caseiros. Quem gosta realmente de pimenta prefere esses doces. Dá para sentir o ardor, mas sem queimar a boca. Tenho pedidos para diversos tipos de eventos, inclusive aniversários e casamentos”, diz Tais. O cardápio de doces a base pimenta tem agradado em cheio os clientes. “É tanto pela qualidade como o gosto diferente da pimenta”, diz a confeiteira, que faz iguarias personalizadas. Confira alguns doces à base de pimenta do cardápio da Pimenta Rosa Doces Finos.
Cestinha de maracujá, manga e pimenta dedo de moça. As frutas com a pimenta são colocadas numa cestinha de chocolate branco e meio amargo.
Brigadeiro de pimenta com base de leite condensado, chocolate branco e pimenta dedo de moça.
Doce de especiarias. Leva cravo, canela, mel, cardamomo e pimenta rosa na casquinha de chocolate meio amargo.
Bombom de pimenta com geleia de pimenta caseira. Casquinha de chocolate meio amargo com geleia feita de pimenta dedo-de-moça, pimenta biquinho e maça verde.
Redondas com pimentas
O paladar apimentado também chegou ao cardápio das pizzas. Na Espósito Pizzaria são servidas duas opções da iguaria: a Baiana, servida com calabresa moída, ovos, pimenta de bico, cebola, lascas de azeitonas pretas e muçarela, e a Mantiqueira, com queijo mantiqueira (queijo artesanal da fazenda Atalaia - Amparo), geleia de pimenta e muçarela. “A pimenta biquinho é mais aromática e a picância não é tão forte. Já o leve adocicado da geleia também quebra um pouco a picância da pimenta vermelha, sendo que mais pessoas apreciam. Não são todos que gostam de pimenta muito picante. Essas agradam a todos os paladares”, diz o proprietário, Junior Pattaro.
 
Drinques com pimenta
Considerada um coringa, a pimenta também é usada em drinques e coquetéis. Segundo Claudio Tibério Gil, professor de coquetelaria do Senac Campinas, existem pimentas como a biquinho que o grau de ardência é muito baixo, então ela é ideal para aromatizar alguns drinques, fazer decoração de alguns pratos. “A pimenta sempre esteve muito presente na mesa não só dos brasileiros, mas de todo mundo. O que há hoje em dia é uma capacitação dos chefs de cozinhas e também devido a programas de televisão que mostram na elaboração dos pratos com diversos tipos de pimentas e não só em pó. Com essa variedade, e a grande informação para a população, é óbvio resultar nesse boom da pimenta”, diz Gil. “No Brasil a gente costuma usar muito a pimenta dedo-de-moça. Ela tem muita vitamina A e vitamina C. É um ótimo antioxidante. É a mais encontrada, por isso a mais utilizada. Oferece um ótimo custo beneficio, e não é tão ardida. Quando vamos fazer uma preparação podemos escolher o modo de uso da pimenta que tem de usos”.

Escrito por:

Daniela Nucci