Publicado 07/11/2019 - 12h07 - Atualizado 07/11/2019 - 12h07

Por Cláudia Antonelli

O esforço humano

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O esforço humano

Lembro-me que quando comecei a crescer e ter um pouco mais de consciência sobre as coisas, refleti sobre uma questão curiosa (para mim). Tínhamos em casa uma máquina de lavar roupas, mas, quando éramos bebês (meu irmão mais velho e eu), ainda não. Recordo-me pensar o quanto minha mãe teria gasto de tempo lavando fraldas, cueiros, babadores e afins, à moda antiga: ensaboando, quarando ao sol, enxaguando tantas vezes, pendurando nos varais; aguardando. Quanto tempo haveria gasto preparando nossa comida, nossas papinhas naturais da época (em algum momento surgiram as industrializadas, mas ela seguiu fazendo-as em casa, por serem mais ricas). Lavando os legumes, um por um, descascando-os, cozinhando-os, triturando-os. Tanto labor; tanto suor, tanto amor. Arrumando nossas roupas; arrumando-nos.
Penso no esforço humano. Em ver meu pai longe de nós tantas e tantas horas todos os dias da semana, e de vê-lo tão emocionado, ao retornar. Penso naquilo tudo que fazemos por e para o trabalho, em nosso tempo de vida, precioso tempo de vida. No que fazemos por amor, e também no que fazemos para ganhar a vida. Fazemos o trabalho, mas é muito mais o que fazemos. (Falo, fique claro, dos que fazem e fizeram com compromisso e honestidade). Damos muito de nós: dos nossos pensamentos, dos nossos sentimentos ali contidos ou calados; muitas vezes com esforço e às vezes até sofrimento: é a matéria bruta humana.
O tempo que trabalhamos é um tempo no qual abrimos mão de várias outras coisas, para dá-lo ao trabalho. Certo que o dinheiro e a sobrevivência estão embutidos, mas é muito além o que acontece ali. É a dignificação que o trabalho traz; a ética que se impõe de nos relacionarmos com os outros no mundo. De darmos algo de nós, de construirmos uma vida em uma cidade, de fazermos por nós e, também pelo outro. É tanto. E é com muita renúncia: são anos de tempo jovem que se vão; dias inteiros sem se ver a luz do sol; sem ver quem se ama; mães longe de filhos; longe de casa; tempo de vida que não volta mais. O sorriso às vezes menos ingênuo, atravessado pelo labor da vida, da entrega, da renúncia. Não do dinheiro que gera dinheiro (pelo bel investimento) do investidor, mas falo dos que de fato fazem alguma coisa. O professor que ensina, o artista que cria, o enfermeiro que trata, faxineiro que limpa, o técnico que conserta, o escritor que escreve — e tantos outros.
Meu pai nos dizia: “Nunca saberão o verdadeiro sabor do tempo livre, enquanto não tiverem trabalhado”. Ele tinha sim razão. O prazer do tempo livre, quando se trabalha, só é conhecido por aqueles que trabalham: não tem preço. Ou melhor, teve um preço alto.
Jacques Prévert, grande poeta e autor francês (1900-1977), escreveu um longo poema intitulado L’effort Humain (1945). Tomo dele alguns versos, pela tradução do querido amigo, Fernando de Almeida Prado:
“(...) O esforço humano não é esse belo jovem sorridente/O esforço humano não carrega uma criança sobre o ombro direito, outra sobre a cabeça e uma terceira sobre o ombro esquerdo com suas ferramentas a tiracolo e uma jovem esposa feliz presa a seu braço/O esforço humano não tem uma casa propriamente dita/Ele tem o odor do seu trabalho/O esforço humano não tem ‘savoir vivre’/(...) Não. E ele que plantou em todas as partes todas as vinhas e afinou todos os violinos, ele se alimenta de sonhos maus e se embriaga com o vinho ruim da resignação/ sem parar ele anda em círculos / num universo hostil, poeirento e opressivo, e forja sem parar a corrente/a terrificante corrente onde tudo se acorrenta/a miséria o lucro o trabalho o morticínio/a tristeza a infelicidade a insônia e o tédio/a terrificante corrente de ouro/de carvão de ferro e de aço/de restos e de poeira/passada ao redor do pescoço/de um mundo desamparado/a miserável corrente onde vêm se fixar os berloques divinos/as relíquias sagradas/as cruzes de honra as cruzes gamadas/os amuletos da sorte/as medalhas dos velhos servidores/os enfeites da infelicidade/ o grande retrato em pé, o grande retrato de frente de perfil e em movimento, o grande retrato dourado, e a grande peça de museu (...).”
Dedico este texto a todos aqueles — homens e mulheres — que consagram tempo e fruto de sua vida ao trabalho muitas vezes não reconhecido e indevidamente remunerado; aos que no e pelo trabalho adoecem; e aos que são e foram fria e injustamente retirados, afastados, ou exonerados.

Escrito por:

Cláudia Antonelli