Publicado 27/11/2019 - 10h13 - Atualizado 27/11/2019 - 10h13

Por Aquiles Reis

Um CD elegante

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Um CD elegante

Eva Correia José Maria, a Evinha, lançou um CD. Salve ela, que tem uma das vozes mais envolventes dentre todas as cantoras presentes na cena da música popular brasileira atual. Evinha se destacou no familiar Trio Esperança, pois lá também estavam um de seus irmãos (Mario) e uma de suas irmãs (Regina). Tempos depois, casou-se com o pianista francês Gérard Gambus e desde então mora em Paris.
Tenho na mão o álbum Evinha Canta Guilherme Arantes, um lançamento da produtora e gravadora Kuarup. Nele, Evinha está acompanhada apenas pelo piano de seu marido, que também é o diretor artístico do disco.
Ao cantar sucessos esplendorosos de Arantes (não são poucas as suas músicas selecionadas para a trilha de inúmeras novelas da TV Globo), Evinha se vale de sua linguagem literalmente apaixonante de cantar.
A intérprete deixa que sintamos a sua respiração e permite que ouçamos a sua voz, ainda calorosa, desaguando nas canções energizadas de um grande compositor. Aliás, para além da ventura de ter suas músicas tocadas nas novelas da Globo, Guilherme Arantes tem uma extraordinária percepção da visão popular: graças às suas qualidades como compositor e letrista (das 12 faixas do CD, apenas uma não tem versos dele), suas músicas pegam o ouvinte de jeito e fazem com que ele se sinta quase um parceiro de composição.
O piano de Gérard Gambus tanto pode ser lírico quanto viril. As teclas de seu instrumento são uma força poderosa que abre caminho para que a cantora passe íntegra. Cantora maior, ela exige de si o mesmo que Gambus espera dela: inteligência musical, atributo que permite a Evinha se diferençar em meio a uma turma feminina do mais alto gabarito vocal.
Em sua simplicidade, o CD de Evinha é perturbador. A sobriedade reina quando sente que ali tem lugar de destaque para o seu comedimento. Evinha é uma intérprete que tem recursos e com eles louva a música. Ouso dizer que a voz pode se apaixonar pela própria voz, e tanto é assim que a própria Evinha deve se admirar ao ouvir a sua.
Se contrastarmos sua voz afetuosa àquela mais, digamos, “metálica” de Guilherme Arantes, sentiremos que as baladas dele ganham novo sentido pop, e saberemos porque seus megassucessos assumiram cara nova.
Com o piano tocando intros de bom gosto e improvisando intermezzos de pura musicalidade, lá está Evinha. Num CD elegante, entoando notas abertas ou vocalizando contracantos, lá está ela cantando Guilherme Arantes com sua postura minimalista – Evinha canta a essência de cada canção.
A tampa abre com Êxtase. Na sequência, Brincar de Viver, Deixa Chover, Amanhã, Um dia, Um Adeus ou Sou o Que Ele Quer, música inédita dada a Evinha por Arantes nos anos 1980 e só agora gravada. Por vezes, o canto dela vem envolto em reverber; noutros, dobra a própria voz e demonstra eloquência em cada nota, em cada sílaba... O que nada impede os ouvintes de sacar que estão diante de uma, digamos, “nova” balada de Guilherme Arantes, cantada pela Evinha.

Escrito por:

Aquiles Reis