Publicado 06/11/2019 - 10h34 - Atualizado 06/11/2019 - 10h34

Por Aquiles Reis

Música é vida

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Música é vida

Faz tempo, era 2011, quando chegou o álbum Canción Necesaria que ajuntava o compositor, arranjador e mago dos sopros Mário Sève com a cantora argentina Cecilia Stanzione. Embatuquei com o título... ora, que música pode ser vista como “necessária”?
De forma rasa, ainda em 2011, contrapus à dúvida maiores incertezas: “Será que é uma harmonia bem trabalhada (...), um verso que diz o que não conseguimos dizer? (...). Necessária é a canção que nos faz reféns das garras do seu encantamento. Que se faz imprescindível quando nos surpreende (...)”.
Bem, após lançar o DVD Samba Errante, em 2017 — continuação do projeto Canción Necesaria —, em 2019 a trilogia se completa com o DVD Mário Sève - Ao Vivo (Kuarup). Além de uma música dele com Guilherme Wisnik e de três parcerias com Cecilia Stanzione (cantadas por ela), seis são os temas instrumentais só de Sève, alguns já gravados nos dois trabalhos anteriores.
Além do seu sax soprano, lá estão o piano e o acordeom de Gabriel Geszti, o baixo acústico de Zé Alexandre Carvalho e a batera firme de Sérgio Reze a tocar os arranjos — que são todos de Sève, à exceção de um, assinado por Gabriel Geszti. E diga-se de passagem que Sève, flautista e saxofonista virtuoso, compõe arranjos que podem ser reconhecidos já nos primeiros acordes. Tamanha cancha este músico e compositor maduro adquiriu no Nó em Pingo D'Água e no Aquarela Carioca, quintetos que ajudou a criar e que marcaram época graças a um som inventivo que só.
Cecilia Stanzione canta, e como canta, meu Deus! A voz sai cordialmente da garganta. Sua afinação dá suporte às melodias... Ela e Séve se complementam.
Mário Sève - Ao Vivo abre com um medley de dois temas. Um, Celta (MS), inédito; outro, A Lenda (MS), já vocalizada por Alceu Valença num CD do Aquarela.
Celta é chave de ouro, abrindo com sax, batera, baixo e acordeom, dando o som contemporâneo a esse e aos próximos arranjos. (Volta e meia eu digo: mixagem é questão de gosto... Ok! Mas eu gostaria que o baixo acústico estivesse mais presente.) E lá está ele, sem o peso que poderia ter. Quando vem o intermezzo, sax e acordeom tocam ad libtum. O diálogo dos dois é opulento. Enquanto a levada altera o andamento, a batera chama o tema de volta. Porreta!
A seguir, Modinha (MS). Arritmo, o sax toca a intro. O acordeom vem para acompanhá-lo. Ainda arritmo, a melodia é pura brasilidade. Ao final, numa prosa boa, sax e acordeom se entendem.
Zamba para Sus Manos (MS e Cecilia Stanzione) já havia sido gravada nos dois trabalhos anteriores. Ontem como hoje, a voz dela é visceral.
Época de Ouro (MS) tem o sax majestoso. Este que é talvez o tema mais bonito do DVD traz um duo emocionado do sax com o piano.
Deu Um Nó (MS) é um baião danado de bão (eu não vi, mas teve gente garantindo que viu a peruca do coroa na terceira fila sair do lugar), em que o sax vem alvoroçado como ele só...
Como nos dois trabalhos anteriores, Mário Séve concebeu DVD musicalmente indispensável.

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Aquiles Reis