Publicado 23/11/2019 - 18h44 - Atualizado 23/11/2019 - 18h49

Por Gilson Rei

Os grupos de trabalho da Unicamp e da Tykhe Associação de Psicanálise se uniram para criar o projeto

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Os grupos de trabalho da Unicamp e da Tykhe Associação de Psicanálise se uniram para criar o projeto

Aquela conversa sincera, olho no olho, cheia de amizade e compaixão, é cada vez mais rara. Ao mesmo tempo, é visível na sociedade a tendência a uma vida individualista e fechada, compartilhada apenas nas redes sociais. O contexto social conturbado e a situação de desemprego e instabilidade econômica contribuem também com o surgimento do desânimo e da depressão.
Junto com esse novo estilo de vida surge um sentimento de vazio. Brota neste quadro uma verdadeira enxurrada de síndromes e pânicos, entre outras manifestações da alma. Foi pensando neste cenário que surgiu em Campinas, neste ano, o projeto Estação Psicanálise: “O que você tem a dizer nos importa”. Desde setembro, um grupo de psicanalistas presta atendimento gratuito na Estação Cultura, no Centro, todas as manhãs de sábado.
O Estação Psicanálise é fruto de um trabalho conjunto que se desenvolveu a partir de duas frentes. Uma delas é do grupo que se reunia na Unicamp, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), sob a coordenação do professor Lauro Baldini. A outra frente de trabalho é de um grupo que se reunia na Tykhe Associação de Psicanálise, coordenada por Marta Togni Ferreira e por Daniel Mondoni. Os dois grupos se uniram e contam com a participação de 21 profissionais.
Mondoni explicou que era necessário abrir um espaço para ouvir a sociedade. “Percebemos que existia uma intensificação do sofrimento das pessoas em função do contexto social político e econômico. Esse contexto mostra que as pessoas estão sofrendo mais, de uma forma mais intensa e mais difícil de suportar”, afirmou.
Outra avaliação dos profissionais foi a dificuldade de diálogo. “As pessoas sentem maior dificuldade em dialogar. O objetivo maior é de trabalhar essa possibilidade de falar mais e ampliar a capacidade de dialogar”, explicou Mondoni.
O Estação Psicanálise tem foco na conversa. “Conversar é a base desse trabalho para tentar ajudar em suas preocupações e garantir oportunidade para se abrir e falar. O ideal é usar a fala como espaço de diálogo e cura para as pessoas de seus males”, disse o psicanalista.
Humanização
O psicanalista Marcos Barbai disse que a primeira decisão do projeto Estação Psicanálise foi prestar atendimento psicanalítico gratuito em um espaço aberto e público. O trabalho atende aos sábados, na plataforma da Estação Cultura de Campinas, sempre das 9h ao meio-dia.
A segunda decisão do grupo de profissionais foi definir como objetivo principal criar a oportunidade de ter uma escuta profissional à população que não tem acesso à consulta de psicanálise. A mensagem que se deseja passar é: “O que você tem a dizer nos importa”.
Barbai explicou que o projeto busca as carências da sociedade. “Parte da premissa de que é necessário restaurar um laço pela palavra com a população excluída, que sofre todos os tipos de violência imagináveis e inimagináveis e que pode ser um importante instrumento de humanização”. O projeto busca essa humanização para abrir a mente. “Um dos aspectos que levam a pessoa a ter problemas mentais é o excesso do uso de celulares por conta da vontade de isolamento, de excesso de individualismo e excesso de valorização da individualidade entre outros costumes”, disse Barbai.
Sem medicamentos
Não há também prescrição de medicamentos. “O grupo está ali para ouvir as pessoas. Apenas isso. Sem a intenção de prescrever medicamentos ou qualquer outro diagnóstico”, disse Barbai, explicando que a psicanálise não está focada no diagnóstico. “Apenas procura ver o que incomoda a pessoa e busca ajudar a mesma a não sofrer com aquilo”, comentou.
Segundo Barbai, há uma abertura total. “A ideia é ver que as pessoas estão sofrendo e identificar como estão vivendo.
Atendimento informal 
O atendimento a céu aberto, de graça e informal, feito com o uso de apenas duas cadeiras em um canto qualquer da Estação Cultura, agrada às pessoas que passam pelo local. Quem passa pela experiência, só tem elogios a fazer. “Foi a primeira vez que fui atendida. Fiquei sabendo por meio de amigos. Gostei de conversar, pois a saúde mental é uma questão muito importante que às vezes a gente deixa de lado e não se dá conta de que pode provocar muitos problemas e até doenças”, afirmou a estagiária de Publicidade, que manteve seu nome em sigilo.
Segundo ela, o diálogo com os profissionais é muito importante. “A troca de ideias me ajudou a me organizar melhor e ter um controle tranquilo das situações de conflito, sabendo reagir sem surtar. É bom para gente falar e se abrir”, afirmou a estagiária. Na opinião dela, nem sempre existe espaço para a conversa. “Acho mais difícil conversar sobre assuntos mais complicados com amigos e desconhecidos. Falta confiança”, disse. “Acho importante colocar para fora as coisas que estão nos incomodando e gostei de ser atendida por uma profissional”.
O psicanalista Marcos Barbai destacou a importância de ter um espaço deste tipo na cidade, em local de bastante movimento. “O projeto faz uma aposta na cidade. É fundamental existir um grupo de psicanalistas abertos a ouvir a população de forma gratuita”, revelou.
O quadro social e econômico preocupa os psicanalistas, que alegam ser uma situação desfavorável à saúde mental. “É importante atuar com a ética da Psicanálise neste momento porque o País necessita de um atendimento deste porte na saúde psíquica e na saúde mental”, afirmou. “Muitas pessoas estão atualmente desempregadas, apresentando um estado de depressão e de síndromes de diversas origens. Vivemos um grande momento de mal estar no País”, disse.
Segundo Barbai, o projeto faz uma aposta na palavra e no diálogo. “Afinal, se a pessoa fala, ela pode se transformar”, afirmou. “Na vida surgem muitas dificuldades e, muitas vezes, as pessoas não conseguem um espaço para falar e extravasar seus problemas. Quando isso acontece, o corpo começa a apresentar sinais, porque este corpo está tentando falar pela pessoa”, explicou.
O projeto busca a cura no aspecto mental. “Um dos aspectos que levam a pessoa a ter problemas mentais é o excesso do uso de celulares por conta da vontade de isolamento, de excesso de individualismo e excesso de valorização da individualidade entre outros costumes que fazem que as pessoas não compartilhem conversas e diálogos”.
 
 

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Gilson Rei