Publicado 13/11/2019 - 07h39 - Atualizado 13/11/2019 - 07h39

Por Daniel de Camargo

Diogo Oliveira, Jeany Delafiori e Rodrigo Ramos Catharino (da esq. para a dir.): estudo com o vírus zika apresenta bons resultados

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Diogo Oliveira, Jeany Delafiori e Rodrigo Ramos Catharino (da esq. para a dir.): estudo com o vírus zika apresenta bons resultados

Estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que o vírus zika inibe a proliferação de células do câncer de próstata que, segundo estimativa do Ministério da Saúde, causou a morte de mais de 14 mil homens no Brasil em 2018. Experimentos da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e liderada pelo professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) Rodrigo Ramos Catharino, de 42 anos, revelaram que a ação ocorre mesmo após o patógeno ser inativado por alta temperatura. A perspectiva, informa, é avançar até um tratamento mais barato e menos doloroso para o paciente, que atualmente costuma ser submetido a procedimento cirúrgico, que pode ser feito junto com radioterapia. 
Em estudo divulgado recentemente na Scientific Reports, o grupo descobriu que marcadores de inflamação neurológica podiam ser encontrados na saliva de bebês nascidos com microcefalia — e cujas mães foram diagnosticadas com zika durante a gestação — até pelo menos dois anos após o parto. Catharino explicou que isso apontou que esse patógeno induz uma inflamação persistente, mesmo após sua eliminação completa do organismo.
Então, decidiram examinar se mesmo após a inativação o zika manteria a capacidade de destruir células tumorais. Os testes foram feitos com uma linhagem viral obtida a partir de amostras isoladas de um paciente infectado no Ceará em 2015. Após cultivo em laboratório, o vírus foi fusionado a uma nanopartícula e aquecido a uma temperatura de 56º C durante uma hora, com o intuito de inibir o potencial de causar infecção.
Os bons resultados observados in vitro pelo grupo da Unicamp foram confirmados em modelo animal por cientistas do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela Fapesp na Universidade de São Paulo (USP).
"Como também já foi confirmada a transmissão sexual do zika e a preferência do vírus por infectar células reprodutivas, decidimos testar seu efeito contra o câncer de próstata”, contou a estudante de doutorado Jeany Delafior, que integra a equipe.
O passo seguinte foi colocar uma cultura de células PC-3 (adenocarcinoma de próstata) em contato com o vírus inativado e, após incubação de 24 e 48 horas, comparar com outro grupo de células tumorais não exposto ao patógeno. Delafior conta que "na análise feita após 48h, a linhagem que ficou em contato com o vírus inativado apresentou um crescimento 50% inferior que a outra”.
Para descobrir de que modo o zika alterou o metabolismo das células tumorais, o material da cultura foi analisado em um espectrômetro de massas — aparelho que funciona como uma balança molecular, ou seja, que possibilita a separação e identificação dos elementos presentes nas amostras biológicas de acordo com a massa.
Em seguida, com o objetivo de dar sentido ao grande volume de dados obtido por espectrometria, foi feita uma análise estatística. Nela, foram relevados 21 marcadores capazes de descrever de que modo o vírus afeta o metabolismo da célula tumoral e inibe sua proliferação.
“Encontramos, por exemplo, marcadores lipídicos envolvidos em condições de estresse e em processo de morte celular”, disse Catharino. De acordo com o pesquisador, o conjunto de 21 metabólitos pode auxiliar tanto no entendimento das alterações bioquímicas induzidas pelo vírus quanto na busca de alvos-terapêuticos, abrindo caminho para diversos novos estudos.
Catharino explicou que o próximo passo da investigação envolve testes em animais. "Caso os resultados sejam positivos, pretendemos buscar parcerias com empresas para alavancar os procedimentos seguintes com a viabilização de ensaios clínicos", projetou o cientista. A pesquisa contou também com a participação do bolsista de doutorado da Fapesp Carlos Fernando Odir Rodrigues Melo. Os resultados já obtidos também foram publicados na Scientific Reports.
Prevalência no País
Câncer de próstata é o tumor que afeta a glândula localizada abaixo da bexiga e que envolve a uretra, canal que liga a bexiga ao orifício externo do pênis. Segundo o Ministério da Saúde, é o tipo mais comum da doença entre os homens, depois do câncer de pele.
Embora seja uma doença comum, informa a Pasta, por medo ou desconhecimento muitos homens preferem não conversar sobre esse assunto. A doença é confirmada após fazer a biópsia, que é indicada ao encontrar alguma alteração no exame de sangue (PSA) ou no toque retal, que somente são prescritos a partir da suspeita por um médico especialista.
O câncer de próstata, na maioria dos casos, cresce de forma lenta e não chega a dar sinais durante a vida e nem a ameaçar a saúde do homem. Em outros casos, pode crescer rapidamente, se espalhar para outros órgãos e causar a morte. Esse efeito é conhecido como metástase.
Alguns fatores como idade, histórico de câncer na família e sobrepeso ou obesidade podem aumentar as chances de desenvolvimento da doença. Em sua fase inicial, pode não apresentar sintomas. Porém, os mais comuns são: dificuldade de urinar, sangue na urina e necessidade de urinar mais vezes. O principal tratamento é o cirúrgico, que pode ser feito junto com radioterapia e tratamento hormonal, conforme cada caso.
SAIBA MAIS
Segundo o Ministério da Saúde, é comprovado que uma dieta rica em frutas, verduras, legumes, grãos e cereais integrais, e com menos gordura, principalmente as de origem animal, ajuda a diminuir o risco de câncer, como também de outras doenças crônicas não-transmissíveis. Nesse sentido, outros hábitos saudáveis também são recomendados, como fazer, no mínimo, 30 minutos diários de atividade física, manter o peso adequado à altura, diminuir o consumo de álcool e não fumar.

Escrito por:

Daniel de Camargo