Publicado 08/11/2019 - 14h27 - Atualizado 08/11/2019 - 14h27

Por AFP


Barbara Poenisch passa a maior parte do dia montando um quebra-cabeça. Ou melhor, recompondo a montanha de documentos da Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, que foram destroçados durante a queda do Muro de Berlim.

A ex-encadernadora faz parte de uma equipe de dez pessoas que reconstroem minuciosamente os informes de vigilância, as cartas privadas e os documentos políticos que a Stasi acumulou e que tentou desesperadamente destruir quando o regime comunista da Alemanha Oriental foi derrubado, há 30 anos.

Quando o Muro de Berlim caiu, em 9 de novembro de 1989, a temida polícia secreta começou a triturar seus arquivos. E quando as máquinas quebraram, os membros da Stasi começaram a rasgá-los manualmente para depois transformá-los em pasta ou queimá-los.

Mas em 15 de janeiro de 1990, os "comitês de cidadãos" invadiram os escritórios da Stasi, inclusive a sede em Berlim Oriental, e confiscaram milhões de arquivos e cerca de 16.000 sacolas com documentos rasgados.

Três décadas depois, os segredos desses arquivos continuam sendo descobertos, graças a Poenisch e seus colegas.

"Gosto de fazer quebra-cabeças e esta pesquisa é como se fosse um trabalho de detetive", explica Poenisch, uma alemã oriental. "É gratificante poder juntar o que rasgaram há 30 anos, porque sei que um especialista em arquivos estudará este material e nos ajudará a enfrentar o passado".

O ministério da Segurança do Estado, com sede em Berlim Oriental e conhecido como Stasi, foi uma das ferramentas de repressão estatal mais eficazes em seus quase 40 anos de existência.

Durante a Guerra Fria, empregou mais de 270.000 pessoas, incluindo muitos informantes entre a população, o que transformou a sociedade da Alemanha Oriental na mais vigiada do bloco oriental.

Quando o público pôde acessar os arquivos da Stasi, nos anos posteriores à reunificação alemã em 1990, milhares de espiões foram desmascarados.

Muitas pessoas ficaram sabendo que amigos ou familiares eram "colaboradores não oficiais" da Stasi.

O que Poenisch descreve como sua "pequena contribuição ao confronto com o passado" é na realidade um trabalho hercúleo com um impacto na vida de milhares de pessoas.

Poenisch afirma que a chave de seu trabalho não é só a paciência, mas sobretudo sua "enorme responsabilidade", explica enquanto junta e cola pedaços de papel.

Entre os documentos pessoais que conseguiu recompor há uma carta de uma mãe que implora à Stasi que liberte seu filho. "Foi há alguns anos e me comoveu muito", conta.

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