Publicado 13/10/2019 - 09h50 - Atualizado 13/10/2019 - 09h50

Por Estadão Conteúdo


Divulgação

Já era noite quando, ao descer do avião, veio a confirmação do que todos ouvem antes de por lá chegar: o calor caribenho. Pego a bagagem, faço um câmbio rápido, entro no táxi. Mas nem dá tempo de se ambientar ao espanhol do motorista, pois em minutos já estamos diante da muralha e, a partir daí, já me sinto quase uma personagem terciária de algum romance de Gabriel García Márquez.
Levei 28 anos para conhecer Cartagena das Índias, ou apenas Cartagena. Os motivos envolvem dinheiro, tempo e um receio do ‘hype’ (exagero de algo para quem desconhece a gíria) que tomou a cidade (e a Colômbia) nos últimos anos. Não estava totalmente errada: turistas estão aos montes e, junto deles, muitos vendedores. Tudo isso debaixo de um Sol forte e umidade intensa, que tornam suar um ato onipresente e inevitável - mesmo no inverno. E sabe do que mais? Vale muito a pena.
Cartagena expõe três das facetas que mais me foram evidentes no território colombiano: a história, a cultura e a natureza. A quarta é a renovação urbana, elemento central do breve período em que estive em Medellín - o segundo destino dessa viagem de 15 dias, que ainda passou pela capital Bogotá.
García Márquez é a primeira referência que sempre tive de Cartagena, embora não me debruce sobre um livro seu há uns dez anos. Imaginei que a presença dele fosse evidente ao menos na parte histórica da cidade, mas não: as referências são sutis e encontrá-las requer até certo esforço (que já adianto ser recompensado).
Esse estranhamento se torna ainda mais impressionante porque Cartagena tem muitas opções de passeios guiados. A temática até varia pouco, entre histórica, fotográfica e gastronômica, mas os meios de locomoção vão do andar a pé a de charrete, scooter, bicicleta ou mesmo segway (aquele diciclo utilizado por seguranças de shopping).
Quase todos os tours saem das proximidades da Torre do Relógio, principal ponto de referência da cidade amuralhada, no centro histórico e turístico de Cartagena. Optei por um walking tour, aqueles tradicionais tours a pé das grandes cidades. Mas o roteiro fez questão de girar por pontos manjados e não lá tão interessantes para não gringos, como uma calçada com fotos de misses e uma loja de esmeraldas. Acontece.
O passeio de verdade começou depois do tour, ao entrar nas igrejas e me perder propositalmente pelas tantas ruas de casarões coloridos. Naquele momento eu ainda não sabia, mas dias depois tive de me conformar: não, eu não conseguiria percorrer todas aquelas quadras, embora tenha passado dezenas de vezes pela Torre do Relógio.
A cidade amuralhada não só é maior do que eu esperava, mas também melhor conservada. Construídas ao longo de dois séculos e concluída em 1796, as muralhas se estendem ao longo de 11 quilômetros. Não precisa procurar um lugar bonito para admirar ou tirar uma foto: praticamente todos os cantos nessa região são assim.
E, aqui, vale o alerta: use filtro solar. E também use chapéu, beba muita água e, acredite em mim, escolha uma hospedagem dentro da cidade amuralhada. Além de todo o encantamento de estar perto de tudo o tempo todo, tem outra vantagem: é um refúgio para fazer pequenos intervalos do calorão (e também uma forma de evitar pegar muitos táxis).
Audiotur
A melhor maneira para percorrer os passos de Gabriel García Márquez na cidade é com o audiotour La Cartagena de Gabo (tem opções em inglês e francês também; R$ 18,99 no iTunes e Google Play). O passeio foi desenvolvido por uma agência em parceria com a Fundação García Márquez. São 35 pontos de visitação, a maioria dentro da cidade amuralhada. Cada parada significa traz informações sobre o escritor e o local, além de trechos de alguns livros, especialmente O Amor nos Tempos de Cólera.
No início, a dinâmica me pareceu mais desgastante do que proveitosa, mas mudei de ideia ao me sentar em frente à igreja em que a personagem Firmina Daza casou e, depois, ao avistar o casarão em que viveu com o pai (onde o batedor de portas tem o form de papagaio).
"Cartagena era como um cenário construído especialmente para o escritor pela mão misteriosa do destino", diz um trecho do audiotour. Já perto do final, o roteiro se aproxima das muralhas e para diante de uma casa rosada de arquitetura modernista: ali viveu o maior escritor colombiano (hoje, segue com uso privado). 
 
 
 
 
Torre do Relógio é ponto de partida e chegada
De Cartagena - Na minha primeira tarde em Cartagena, aproveitei a chuvinha para sair do interior da muralha. A primeira parada foi o Castelo San Felipe de Barajas, a pouco mais de um quilômetro da Torre do Relógio e, assim como a cidade amuralhada, considerado patrimônio da humanidade pela Unesco.
O caminho até lá passa por uua região mais urbanizada de Cartagena, com supermercados, comércios de médio porte e afins, que contrastam com a fortaleza de quase 400 anos de história que ocupa uma quadra inteira, circundada por muros e canhões.
O ingresso custa 25 mil pesos colombianos (cerca de R$ 30) e dá acesso a praticamente todas as estruturas do forte. A subida é por uma rampa que leva até um dos mirantes, mas há outras tantas escadas, portinhas e túneis escuros para conhecer, o que costuma prolongar a visita por uma ou duas horas.
Do forte, avistei o que parecia uma pequena igreja branca no topo de um morro, mas que sabia se tratar do Convento Santa Cruz de La Popa, que alguns dizem ser a vista mais bonita de Cartagena. Peguei um táxi até o local com o combinado de o motorista me esperar para o retorno (o que é de praxe por lá).
Paguei os cerca de R$ 15 de ingresso, subi as escadas e me deparei com o mirante. Infelizmente, o dia estava nublado e não pude avistar o famoso pôr do sol do convento. Caminhei pelo entorno da construção, entrei no jardim, observei os que oravam diante do altar. O número de visitantes não era tão grande quanto o do Castelo.
Balada - Quando saí novamente pela cidade amuralhada, as ruas estavam ainda mais cheias - as pessoas aproveitam a trégua do calorão proporcionada pela noite. Me encaminhei para Getsemaní, bairro boêmio que entrou no gosto dos turistas mais moderninhos. Ele fica a cerca de 10 minutos a pé da Torre do Relógio, com sobrados antigos, bares e muita gente na rua, entre locais e viajantes, dando continuidade à salada de idiomas de Cartagena.
A outra opção noturna são os bares e restaurantes da cidade amuralhada, que reúnem gastronomia de origens diversas, assim como a música. Não quer gastar, comer ou beber? Caminhe um pouco, passe pelas praças e ouças as músicas que vêm de dentro dos bares e dos artistas de rua. Preste atenção na via para desviar das charretes e curta quando alguém passar cantando Robarte un Beso ou outro sucesso do Carlos Vives.
Antes de partir - Reservei um dia para ir às praias (leia mais no texto ao lado). Mas, antes de partir, dediquei a última manhã em Cartagena a um dos lugares que mais gosto de conhecer em viagens: teatros - no caso, o Adolfo Mejía (também conhecido como Heredia). Infelizmente, não consegui encaixar o roteiro com algum evento da (restrita) programação, mas aproveitei uma visita guiada particular. O custo é de cerca de R$ 15. Inaugurado em 1911 em estilo europeu, o teatro tem sacadas de cedro e esculturas em mármore italiano. A visita começa por uma entrada lateral. Subo uma escada, dou alguns passos e tcharam: estou sobre o palco. Sigo sobre a estrutura de madeira e percebo estar debaixo dos afrescos de anjos pintados pelo panamenho Enrique Grau. Caminho entre os bancos e subo para os mezaninos, com detalhes em madeira e veludo, enquanto ouço a guia contar sobre os casamentos que famílias abastadas fazem ali.
Após subir todos os níveis, desço e dou uma última olhada para o teatro, em forma de ferradura. Sigo até a escadaria principal e, por fim, guardo alguns minutos para observar a fachada, em rosa claro e tons pastéis, que se destaca pela sobriedade em comparação ao colorido cartageno.
Praias Azul-Caribe - Diferentemente de outras ilhas do entorno de Cartagena, chega-se a Isla Baru de carro. Nosso grupo levou cerca de uma hora até Playa Blanca, que, diferentemente da fama, não estava lotada. O mar tinha tons entre o azul e verde, exatamente como as fotos típicas de Caribe.
O Sol forte e o mar eram mais do que convidativos. Peguei um óculos de natação e fui para a água observar os peixes que nadavam próximos à beirada. Perto do entardecer, nos reunimos com um biólogo, que explicou sobre o fenômeno do fitoplâncton. E alertou para esquecer as fotos, já que a experiência é visualmente mais sutil do que o azul bioluminescente das imagens mostradas a turistas.
Pegamos um barco até uma área no meio do oceano, já de noite. Pulei na água (quentinha), comecei a me mover e reparei que a água ficava de um tom branco fosforescente quando eu mexia a minha mão lateralmente. O mesmo se repetia quando alguém batia os pés. Com o anoitecer mais intenso, o efeito também ficava mais visível - aos olhos, mas não para câmeras.
Depois de 30 minutos, retornamos para a praia e pegamos o transporte de volta para Cartagena. Meu passeio, via Airbnb, custou pouco mais de R$ 137, com transporte, almoço, barco e guia.

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