Publicado 10/10/2019 - 11h05 - Atualizado 10/10/2019 - 11h05

Por Cláudia Antonelli


É assunto difícil. Talvez seja o tema que mais gere perguntas no humano: o que ela é, de fato? Tanta coisa já se fez e criou sobre essa imensa incógnita. Para alguns é uma passagem a outro mundo ou dimensão, para outros é a passagem para esta vida novamente (reencarnação), para outros ainda, é realmente o marco final do tempo da vida. As artes – pintura, literatura, teatro – sempre a abordam, a cercam, se aproximam, tentando conhecê-la, um pouco mais – mas nem tanto. Maneiras de tentarmos ‘olhá-la’, de alguma maneira.
A morte de um Padre
Pausa. Havia começado este texto na quinta-feira passada, pela manhã. À tarde, soube do falecimento de um tio querido, ex-pároco da cidade de Bom Jesus dos Perdões. Seu desejo – registrado em cartório por ele mesmo alguns meses antes – apesar de não residir mais ali desde que se aposentara, foi de que seus ‘restos mortais’, assim ele diz, fossem enterrados lá mesmo em Perdões, cidade que tinha lhe significado tanto ao longo dos anos que ali viveu, sempre no papel de padre do santuário local. Assim foi feito. Cancelei os compromissos da sexta, e lá fomos ao seu velório, precedendo o restante das coisas, na matriz da cidade – a mesma onde, pelas mãos e bênçãos de meu tio Alberto, fiz minha primeira comunhão e meus pais, antes ainda, haviam se casado. Tantas lembranças vinham à mente. Já da estrada, a Dom Pedro, começa-se a avistar Bom Jesus ao lado direito, pequena cidade ao alto da montanha, um pouco depois de Atibaia, um pouco antes de Nazaré Paulista; vê-se logo a igreja, ao alto.
O corpo ainda não havia chegado; o previsto seria às 11 da manhã. Aguardamos lá dentro, sentados em silêncio, olhando o altar agora um pouco transformado. O jovem Vitor, muito simpático e inteligente, mantinha-nos entretidos com seu detalhado conhecimento a respeito da história da cidade, da igreja e de todas as coisas em torno. A tataravó de seu tataravô (a 10ª. geração anterior à sua) havia sido a própria fundadora da cidade, há 314 anos. Vitor, de família tradicional na cidade, escolheu a rara profissão de restaurador de igrejas. Em torno de 13h30 as portas se abriram e o serviço funerário adentrou o santuário e nossa conversa. Meu tio Alberto estava agora lá.
O velório se iniciava. O corpo colocado um pouco antes do altar permaneceria ali todo o tempo da missa que se rezaria dali a pouco, às 15 horas. “De cabeça para lá, e os pés para cá”, explicou-nos Vitor que praticamente tudo sabia. “Porque foi um homem da igreja”. A funerária não sabendo disto colocou-o ao contrário. As pessoas que chegavam se aproximavam, silenciosamente, olhavam seu rosto plácido, imóvel, no silêncio mais profundo de todos. Tocavam ou beijavam sua mão de padre e se faziam o sinal da cruz. Algumas choravam. Aos poucos iam se conversando, contando o que dele sabiam, alguma lembrança, alguma saudade, e tio Alberto logo virava pretexto – como sempre é o falecido nestas ocasiões – para os encontros dos vivos.
Um pouco antes das 15 horas, o sino iniciou seu chamado aos fieis que ainda não se encontravam presentes. Várias pessoas mais adentraram a igreja e ela se encontrou então plena, quando às 15 horas, o jovem e bonito – a verdade seja dita – atual padre da Paróquia de Bom Jesus se acercou do caixão próximo ao altar, olhou também meu tio no rosto com respeito e seriedade, fez algum gesto do ritual cristão, e passou a falar. Disse incisiva e claramente que aquele caixão estava na posição errada: “Pode parecer um gesto estranho, mas peço que alguns de vocês me ajudem a virá-lo ao contrário: de fato, ao lado certo. Um homem da igreja como ele foi, o elo entre toda esta comunidade e Deus, é assim que é posicionado: de costas para o altar, de frente para vocês”. Assim fizeram.
Sua missa seguiu firme, dinâmica, com a força de seus 35 anos. Pe. Celso – era seu nome – reverenciava a Deus, aos fiéis, ao Pe. Alberto Antonelli que ali havia escrito história por tantos anos: casado a maior parte da cidade, e batizado muitas das crianças de então. Todos lhe mencionavam com afeto, e o jovem padre Celso fazia jus a este enredo das lembranças e dos afetos da pequena – agora um pouco maior – cidade.
Não vi passar a hora, quando Pe. Celso convidou-nos para um último momento junto ao Pe. Alberto, meu tio: fizeram-se duas filas e por ali fomos todos, eu inclusive; a família se misturando aos moradores. Depois, o jovem padre liderou ele mesmo em pessoa a procissão que levou o caixão até o cemitério a algumas quadras dali. Senti-me honrada e contente com a presença do padre ele mesmo, em sua batina negra longa e impecável, proferindo as palavras de conforto das orações que entoava a passos firmes, sob o sol de 35°C da quinta-feira passada, enquanto atravessávamos algumas das ruas de Perdões, e os carros nos aguardavam respeitosamente.
Lá chegamos ao pequeno cemitério, algumas orações mais e o jovem padre ele mesmo, com um pouco de terra na mão, lançou-a sobre o caixão, desejando o honrado e ganhado direito de que Padre Alberto, agora, pudesse finalmente contemplar a face de Deus.
De lá saímos aos poucos. Aproximei-me do atual padre para agradecer-lhe toda a atenção e cuidado dispensados ao meu tio. “Seu tio foi um verdadeiro padre, daqueles à moda antiga. Sabia da erudição dele: Latim, Francês... não se fazem mais padres como antigamente. Hoje em dia mal falamos Português, eu mesmo nunca estive no Vaticano. Mas agradeço seu agradecimento”.
De fato ele cultivou-se. Lia um jornal em inglês e um em francês todos os dias; estudava as estrelas, a música, e caminhava diariamente pela praia de Santos onde viveu seus últimos anos. Lembro-me quando pequena, em ocasião de visita ao tio Alberto, ter escondido as chaves do carro de meus pais, para que não fossemos mais embora dali. Era gostoso brincar em sua grande casa eclesiástica de então: muitos cômodos, bibliotecas, livros, estatuetas. Um padre – moderno - de antigamente.
Recomendo a visita a esta igreja – aos que gostam —, tão próxima a Campinas. Agora reformada, toda pintada, muito agradável e de ar fresco em seu interior. Contemplando os belos vitrais, vale assistir à missa do jovem Padre Celso, sucessor do conhecido e querido de todos da comunidade e também nosso, Padre Alberto. Descanse em paz, tio.

Escrito por:

Cláudia Antonelli