Publicado 30/10/2019 - 12h45 - Atualizado 30/10/2019 - 12h45

Por Aquiles Reis

História sobre ídolos

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História sobre ídolos

Vou lhes contar um conto: em 1986, Zé Renato, Claudio Nucci, Ricardo Silveira, Marcos Ariel, Zé Nogueira, Jurim Moreira e João Batista formaram a Banda Zil. Logo o fato correu de boca em boca.
Entusiasmados com a junção de instrumentistas tão competentes, tão atarefados em suas próprias carreiras, tão agendados para gravar álbuns de grandes nomes da MPB... ainda que com um pé atrás, houve uma certa comoção na área musical: “Será?”, “’Tou torcendo!”, “Acho complicado, essa banda é um verdadeiro Butantan, só tem cobra!” — essa é velha, perdoem-me, mas não resisti, é que na época se falava assim.
Ainda que houvesse um misto de torcida entusiasmada com incredulidade realista, a notícia se alastrou, causando boa expectativa na área musical. Mas o papo era reto. Logo os caras passaram a ensaiar — isso já em 1987. Os primeiros shows arrebentaram a boca do balão — essa também é velha, perdoem-me.
E logo nasceu o primeiro disco. Nós que amamos música boa, devorávamos cada faixa, num grande banquete harmônico/melódico. Ouvir os caras de quem éramos próximos nos permitiu aceitá-los como o que são, craques: Zé Renato com voz de tenor, que vai além de um som agudo; Claudio Nucci, idem, e ainda mais com seu violão; Ricardo Silveira e sua guitarra universal; Marcos Ariel com o teclado que brilha em cada acorde; Zé Nogueira com seu sax precioso; Jurim Moreira na batera, que soa como um instrumento harmônico; e João Batista, cujo baixo sustenta qualquer gênero. Lá estavam sete músicos como nós, seus contemporâneos, e brilhando. O que parecia apenas ficção hoje é fato.
Agora, após assistir o recém-lançado DVD Banda Zil, ao Vivo (MP,B e Discos/Som Livre) me veio um verso de Um Dia, do Caetano: “(...) Eu não estou indo embora/ Tô só preparando a hora de voltar (...)”.
Veja bem, leitor, eu não tenho prova, mas tenho convicção. Por isso eu sentencio que houve a cena que ora reproduzo: entre lágrimas, os caras da Zil cantaram o tal verso do Caetano — no fundo, sabiam que voltariam a se juntar. Pois bem, voltaram melhores e mais amadurecidos.
Todas as oito músicas do primeiro disco estão no DVD. Assistindo-o, de tão empolgado, fiz um exercício: ouvi as faixas do disco de 1987 no YouTube, intercalando-as com a mesma música do DVD. Assim fiz e me pus a escrever sobre a Zil.
O repertório continua excelente. Os arranjos instrumentais, bem como o jeito que cada um tem de tocar, demonstram, enfim, que os caras podem até ser nossos contemporâneos, mas são mais que isso, são nossos ídolos. São músicos que fazem da música respeitoso ofício.
A Zil é rara. Tudo o que toca vira ouro. E é mais que uma banda, é um símbolo, a prova cabal da força que vem com a união, gerando a cara de um Brasil que deu certo. Reverenciar o talento da Banda Zil é amar a música brasileira que luta para não ser inexequível, como são as tais linhas paralelas que só se veem no infinito...
E o sonho segue em busca do tempo do possível, que há de nos redimir.

Escrito por:

Aquiles Reis