Publicado 24/10/2019 - 09h12 - Atualizado 24/10/2019 - 09h12

Por Adriana Giachini

Ao verificar o potencial das microalgas para produção de biodiesel, a colombiana Luisa Fernanda Rios Pinto mudou o foco de seu trabalho

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Ao verificar o potencial das microalgas para produção de biodiesel, a colombiana Luisa Fernanda Rios Pinto mudou o foco de seu trabalho

Há 12 anos, a engenheira química Luisa Fernanda Rios Pinto, de 37 anos, deixou a Colômbia, seu país de origem, para cursar mestrado na Unicamp, em Campinas. O objetivo inicialmente era estudar a extração de betacarotenos (pró-vitamina A) do óleo de Palma, por meio de um processo chamado destilação molecular.
Porém, em 2010, ela conheceu uma proposta da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), de pesquisa de microalgas para alimentar peixes. Foi um divisor de águas em sua carreira. Ao descobrir o potencial das microalgas para produção de biodiesel — que já começava a ser discutido em outros países — resolveu tentar doutorado no tema.
E não parou mais. Foi bolsista de Pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa (FAPESP – até ano passado) e pesquisadora de pós-doutorado no ALGAE R&D Centre da Murdoch University em Perth, Austrália (2016), quando trabalhou com Navid Moheimani (um dos principais nomes mundiais dentre do tema).
Atualmente pesquisadora da Unicamp, onde orienta alunos que também se interessam pelo cultivo de microalgas e seu uso, Luisa quer ampliar o acesso ao seu estudo e conhecimento na produção de produtos, cinética de reações, processos de separação convencionais e não convencionais e purificação a partir da biomassa de microalgas.
Porém, é possível que você, leitor(a) desta reportagem, ainda esteja se questionando qual a relevância desse estudo, uma vez que não temos biodiesel ou bioetanol a partir do cultivo de microalgas nos postos de combustíveis.
Note: ainda não temos, porém, segundo a pesquisadora, não há dúvidas de que chegaremos a essa realidade. “Hoje, tudo tem que ser pensado enquanto ciclo de vida. Ou seja, se eu fosse montar uma bio refinaria, eu teria que questionar os impactos dela, seja para a população, seja para o meio ambiente. Quando falamos em biocombustíveis a partir do cultivo das microalgas estamos falando em um ciclo completo, uma vez que elas possuem o potencial de transformar o Co2 emitido pela própria refinaria em oxigênio de novo”, explica.
Isso porque as microalgas — que são algas unicelulares que crescem tanto em água doce quanto em água salgada e ditam as cores dos mares, rios e oceanos — são responsáveis, assim como as flores, pela transformação do gás carbônico em oxigênio. “Elas garantem a produção de até 50% do oxigênio do Planeta, sendo extremamente importantes para a humanidade”, destaca Luisa.
De acordo com a pesquisadora, existem três frentes de estudos envolvendo as microalgas, uma delas, evidentemente, é na produção de biodiesel. A segunda é a partir de sua concentração de lípidos, voltada para o desenvolvimento de alimentos (entre os quais o óleo de microalgas, que já é fabricado nos Estados Unidos) e uso na indústria cosmética. Além de serem fonte de proteína para peixes, que naturalmente já se alimentam delas em seu habitat natural. “Dizem que as microalgas têm cheiro de peixe, quando na verdade é o contrário”, diz Luísa.
Projeto
Um dos principais bloqueadores do uso de biocombustível é o preço
Atualmente, de acordo com Luisa, um dos principais bloqueadores do uso de biocombustível a partir do cultivo da microalga é o preço. Como ainda é um processo em desenvolvimento, a tecnologia encarece o produto. Segundo estudos, o valor seria até 60% a mais, quando comparado aos demais biocombustíveis.
Um exemplo que ajuda a entender está no óleo de microalgas para a culinária, que já é comercializado em países como os Estados Unidos. “Aqui no Brasil, acredito que isso deva chegar aos mercados no ano que vem. Porém, ele deverá custar até três vezes mais do que o óleo de soja”, diz. Para ela, inclusive, o produto deveria ser comparado aos azeites, tamanho sua propriedade nutritiva.
Por este motivo, ela vem estudando o cultivo de microalgas numa reação supercrítica — em altas temperaturas — avaliando a possibilidade de acelerar etapas no crescimento e, portanto, baratear o custo. Porém, ainda sem sucesso. Além disso, atualmente orienta um aluno que estuda caminho semelhante, mas com outra técnica de cultivo.
O debate sobre a relevância do tema, especialmente neste momento, onde nos preocupamos com as consequências do aquecimento global, por exemplo, é para a pesquisadora fundamental. “Todos nós podemos cultivar microalgas em casa e, num futuro não muito distante, quem sabe cada um de nós poderá produzir seu próprio biocombustível?”.
Atualmente, ela mantém um canal no Instagram para ampliar o acesso a informações sobre o tema (Woman In Science). O próximo passo é ter um blog, cujo lançamento está previsto ainda para esse ano.
Professora orienta alunos da rede pública
Luisa é orientadora de pesquisas de três alunos de escolas públicas de Campinas, selecionados pela Universidade: Larissa Alves, Luana Silva, ambas de 17 anos, e Kaysa Américo, de 16 anos. Como parte da política de disseminar o conhecimento e construir uma geração que pense no futuro do Planeta, o programa permite levar a ciência aos jovens. No caso do trabalho com Luisa, o trio estuda como o cultivo de microalgas responde ao uso de nutrientes, observando sua capacidade de acumular lipídeos (o que permite, por meio da biomassa, a produção dos bicombustíveis).
“Uma outra curiosidade está no uso da microalgas como emulsificantes para sorvetes ou mesmo maioneses”, diz a professora, sendo esse o estudo de uma aluna sua de doutorado. Luisa lembra ainda de um estudo realizado por ela, na Austrália, que aponta o uso eficaz de microalgas na suinocultura. Explica-se: geralmente quando é feita a higienização do local onde os porcos vivem, a água utilizada é descartada na natureza, porém, contaminada. As microalgas mostraram eficiência para que a água pudesse ser reutilizada.”
Organismos são capazes de realizar fotossíntese
As microalgas são organismos unicelulares e microscópicos que vivem em meios aquáticos e têm uma característica curiosa: embora não sejam plantas, são capazes de realizar fotossíntese e se desenvolver utilizando luz do sol e gás carbônico.
Elas se reproduzem muito rapidamente, gerando grandes quantidades de óleo e biomassa em pouco tempo. A produtividade, segundo pesquisas, pode ser de até 100 vezes maior do que os cultivos agrícolas tradicionais. E justamente por isso vem chamando a atenção de setores que necessitam de grandes quantidades de matéria-prima, como o de biocombustíveis.
Já existem pelo menos quatro empresas no Brasil produzindo microalgas: duas no Nordeste, com foco em nutrição humana e animal, e outras duas no interior de São Paulo, já atendendo indústrias de cosméticos e rações, ou projetos para tratamento de efluentes. Contudo, há ainda muito que avançar no conhecimento e desenvolvimento de tecnologias para impulsionar o setor.
Petrobras e Embrapa já demonstraram interesse pelo uso na área de biocombustível. E os estudos vêm ganhando força no País.

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Adriana Giachini