Publicado 20/10/2019 - 13h43 - Atualizado 21/10/2019 - 11h52

Por Francisco Lima Neto

Figura excêntrica que se acreditava Rita Hayworth, na visão particular de Egas Francisco

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Figura excêntrica que se acreditava Rita Hayworth, na visão particular de Egas Francisco

Campinas, cidade grande, rica, é cheia de personagens ilustres, que vão do maestro Carlos Gomes, que conquistou fama em toda a Europa, à Regina Duarte, que se tornou célebre ao despontar nas novelas. Do apresentador Fausto Silva à cantora Celly Campello, passando pelo pai da aviação, Santos Dumont. Mas não para por aí. A Campinas do século passado, ainda sem a dimensão populacional dos dias atuais, foi apaixonada por Geovina Ramos de Oliveira. Conhecida como Gilda, era daquelas personalidades conhecidas em todos os cantos da cidade.
Geovina Ramos de Oliveira, num dos modelitos da época - a primeira metade do século passado
A cidade ainda sente saudade da figura excêntrica, que intrigava ao andar por aí sempre com uma pele de raposa sobre os ombros. A pele ainda preservava a cabeça, os dentes, os olhos e tudo o que tinha direito. Se o adereço era legítimo ninguém pode confrontar, mas que ele batia o pé, garantindo a originalidade, ela batia.Os tempos eram outros e ainda não existiam os protetores de animais para explicar o que a simpática e mórbida pele representava.
A história dela, que também era conhecida como Gilda Louca começou um pouco antes. Diziam que ela era casada com um médico muito lindo, mas, após uma suposta traição dela, ele a teria enxotado, deixando-a na rua e sem contato com os filhos. Ao que tudo indica, essa fofoca não passava de fantasias alimentadas pela recusa de Gilda a falar de sua vida ou de suas origens. Quando questionada sempre respondia: “o mundo é meu”.
O cartaz do filme da estrela de Hollywood, Rita Hayworth, "Nunca houve uma mulher como Gilda". O filme acabou inspirando a personagem campineira
O fato mais conhecido sobre sua loucura e também o mais poético, dava conta de que ela começou quando Geovina foi ao cinema assistir ao filme “Nunca houve uma mulher como Gilda”, exibido em Campinas em 1947. A personagem Gilda, vivida pela atriz americana Rita Hayworth, era uma mulher extremamente sensual e capaz de tirar as defesas de qualquer homem, apenas tirando uma de suas luvas. Tamanho sex appeal.
Pronto. Estava feito. Geovina saiu ao final da sessão incorporando a atriz. Jurava ser a própria estrela de hollywood. Ela andava pelo Centro, sempre vestida com terninhos, vestidos, muito maquiada, elegante e usando luvas. Pegava os bondes, mas nunca precisava pagar. Algum prestativo cavalheiro se apresentava para prestar essa gentileza todas as vezes.
Gilda tinha cabelos aloirados, olhos claros e era muito bonita. Tal qual seu alter ego, também usava luvas. Toda vez que um admirador se aproximava para cumprimentá-la, usava a mão esquerda com destreza para remover a peça da mão direita com grande sensualidade. Oferecia a mão direita nua e tocava o cavalheiro com sutileza, afinal de contas, uma dama precisava ser delicada, dizia.
Geovina: um dia era Miss Brasil; noutro, Miss Mundo
Essa personagem popular encantava a todos desfilando suas faixas pra lá e pra cá. Um dia ostentava uma faixa de Miss Campinas; noutro, Miss Guarani, Miss Universo, Rainha do Brasil e de tudo mais que lhe desse na telha.
Entrava em bares, restaurantes, livrarias e era tratada como uma estrela deve ser. Lhe serviam petiscos, bebidas, e outros agrados, sempre por conta da casa.
Jurava que era noiva de Orestes Quércia, que quando eleito prefeito de Campinas, em 1968, lhe doou uma casa popular na Vila Rica, para que ela deixasse as ruas. Ela também afirmava ser viúva do cantor Francisco Alves, que morreu em um acidente de carro, em setembro de 1952.
Odiava quando alguém falava de Emilinha Borba e Ângela Maria. Duas famosas cantoras que contemporâneas de Francisco Alves. O ciúme falava mais alto.
De vez em quando deixava escapar que era nordestina, foi casada e tinha três filhos. Mas sempre era vista perambulando sozinha.
Ela era tão encantadora que o célebre artista plástico Égas Francisco, a conheceu ainda criança, em uma banca de jornais e se encantou com a figura. O artista dedicou seu talento a reproduzi-la em algumas de suas obras.
Gilda foi internada em 1950
Na edição de sábado, 22 de abril de 1950, o Jornal Correio Popular, trazia a reportagem “Desaparece da fisionomia da cidade uma de suas figuras populares”. A publicação noticiava que Gilda tinha sido internada no Hospital Franco da Rocha, destinado a pacientes psiquiátricos. A reportagem foi feita porque há tempos ela não aparecia na Rua Barão de Jaguara, no Largo do Rosário, nem nas imediações. A cidade ficou em polvorosa e aflita para saber o destino de sua personagem, que não era de ficar sumida. A internação não durou muito. Tempos depois Gilda ressurgiu para assumir seu lugar no imaginário de Campinas.
O FIM
A Gilda campineira morreu aos 74 anos entre o final da década de 70 e começo dos 80, depois de ser internada no Hospital Mário Gatti. Sua saúde estava debilitada, depois de passar muitas noites ao relento.

Escrito por:

Francisco Lima Neto