Publicado 18/10/2019 - 12h04 - Atualizado 18/10/2019 - 12h04

Por Daniel de Camargo

Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp: atualmente são 736 alunos de graduação matriculados

Mário Moreira/Divulgação

Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp: atualmente são 736 alunos de graduação matriculados

O principal desafio a ser conquistado pela Medicina no Brasil, hoje, é ser parte de um sistema de saúde que promova assistência de qualidade para toda a população. A análise é da coordenadora do curso de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos mais procurados no País, Joana Fróes Bragança Bastos.
Nesse contexto, a médica aponta o crescimento desmedido das instituições que ofertam essa graduação, em sua opinião, com pouco controle de nível de ensino, como uma grande adversidade para manter a excelência na formação. Atualmente, o País dispõe de cerca de 330 escolas médicas, das quais em torno de 150 tiveram seu funcionamento autorizado nos últimos oito anos.
Joana ressalta que o ensino da Medicina é diferente, no momento, do que em 1994, há 25 anos, quando se formou na própria FCM. Atualmente, opina, se preza pela integração das áreas de estudo e capacitação em distintos cenários de prática em saúde. “Além disto, a incorporação de novas tecnologias virtuais como programas de aprendizado com o uso de casos clínicos, de ensino de anatomia, imagens e outros, facilitam a uniformidade do processo de educação e aprendizado”, pondera. Joana menciona ainda que o uso de atividades de simulação torna a docência mais segura e permite o acompanhamento de divergentes ritmos de compreensão.
“É importante ressaltar que a evolução do conhecimento na medicina deu-se de forma exponencial tornando mais completa, mas também mais difícil a formação do médico", avalia. O contato com o paciente na prática clínica, todavia, permanece e não deixará de ser, de acordo com Joana, o melhor método para ensinar Medicina.
“A Medicina é a arte do outro. O interesse pelo que é humano e a empatia ao sofrimento, aos diferentes modos de vida e, principalmente, o interesse pelo cuidado”, salienta. Em sua concepção, essas características são inerentes a todos os bons médicos.
Onde estudar?
Joana Fróes, coordenadora do curso de Medicina da FCM da Unicamp
Coordenadora do curso de Medicina da FCM da Unicamp, que atualmente tem 736 alunos de graduação matriculados, Joana Fróes considera que a excelência no ensino está atrelada inevitavelmente à qualificação do corpo docente. Ela é atingida também, acrescenta, pela multiplicidade dos campos de prática na atuação do estudante. Portanto, pensa que os vestibulandos devem, antes de optar por determinada instituição de ensino, avaliar o currículo dos professores que lá lecionam. 
Os candidatos devem se informar, por exemplo, se esses docentes atuam como pesquisadores e produtores de novos conhecimentos. Não menos importante, ressalta Joana, é examinar quais os campos de prática disponíveis para o ensino. Uma boa escola médica precisa, de acordo com ela, contar com todos os níveis de assistência: primário (como unidades básicas de saúde), secundário (como policlínicas ou ambulatórios de especialidades, entre outros) e terciário (hospitais gerais que atendem pacientes de alta complexidade). Com essa infraestrutura à disposição, acredita, o aluno sairá do curso capacitado como um bom médico, capaz de atuar em diferentes níveis de atenção à saúde. Joana frisa que o médico é um profissional imprescindível na sociedade e tem um vasto campo de atuação.
Por isso, assegura: “o desemprego é raro”. Ultimamente, entretanto, observa que a remuneração em diversas áreas é pouco adequada. Para a médica, trata-se de um reflexo da desvalorização desse profissional no Brasil aliado à deterioração do Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar deste cenário, Joana crê que ainda vale investir nessa graduação. “A formação do médico é longa e desgastante, mas é uma das mais recompensadoras”, contextualiza.
Secretário parabeniza os seus colegas
Secretário de Saúde de Campinas, Carmino de Souza fez questão primeiramente de parabenizar todos os colegas médicos. “É um profissional que presta um serviço relevante”, disse, completando que a data merece ser celebrada. Em seguida, rechaçou as declarações de Joana. “Discordo e prefiro interpretar que ela não está a par do real cenário da saúde em Campinas”, comentou. Nos últimos seis anos, informa, foram investidos pelo menos R$ 150 milhões no setor. Foram firmadas no período, elogia, grandes parcerias e inclusive acordos internacionais que impactaram em melhorias.
“Nos próximos meses, vamos entregar 16 unidades de saúde novas ou completamente reformadas”, destacou. Carmino valoriza que os indicadores do município, hoje, são similares ao de países desenvolvidos. “A expectativa de vida do campineiro é acima de 80 anos”, contextualiza. Entre outros dados, de acordo com ele palpáveis, sobre a melhora da saúde na cidade, menciona que mais de 3 mil pessoas foram contratadas nos últimos anos e que há um concurso em andamento que resultará em novas admissões.
Função social está atrelada à profissão
Coordenadora do curso de Medicina da FCM (Unicamp), Joana Fróes explica que o médico é um promotor da saúde e precisa, obrigatoriamente, lutar pela assistência no seu aspecto mais amplo para todos. Independentemente, de classe social. “O médico deve ter postura ética, visão humanística, senso de responsabilidade social e compromisso com a cidadania”, elucida.
O médico deve se nortear, conceitua, para a proteção, promoção da saúde e prevenção das doenças. Joana pontua que esse profissional precisa ser capaz de compreender, integrar e aplicar os conhecimentos básicos na prática. “Deve atuar nos níveis primário e secundário de atenção, além de resolver com qualidade os problemas prevalentes de saúde, bem como estar apto para o primeiro atendimento das urgências e emergências”, afirmou. A docente julga essencial ainda a habilidade de se comunicar com o paciente, lidando com os múltiplos aspectos dessa relação. “Além disto, deve ter a capacidade de aprendizagem contínua durante toda a vida profissional e de auditoria do próprio desempenho”, finaliza.
Falta de investimentos
A estrutura de saúde em Campinas vem se deteriorando nos últimos anos, segundo a coordenadora do curso de Medicina da FCM, Joana Fróes. “O sucateamento por falta de investimentos é claramente visto pela ausência de profissionais nas unidades básicas de saúde, carência de medicações e difícil acesso a exames complementares e especialistas”, critica. Recorda, porém, que a rede de saúde do município já foi referência nacional de qualidade e conta com excelentes profissionais que, mesmo em condições adversas, conseguem manter, com muito esforço, a qualidade no atendimento a nossa população.

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Daniel de Camargo